Vítimas da imprudência
Motoristas e pedestres conscientes, que respeitam a sinalização, aumentam a segurança e preservam a integridade física das pessoas
Imprudência, imperícia, álcool, excesso de velocidade e de confiança são alguns dos ingredientes de uma receita perigosa, que aumenta o número de vítimas no trânsito em Ribeirão Preto. No primeiro semestre do ano, a cidade registrou 1.758 boletins de ocorrência, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP). São quase 300 casos por mês, 10 acidentes por dia e uma morte a cada cinco dias. Nas estradas que cortam a região, a mesma violência se repete. Em seis meses foram 1.067 acidentes envolvendo automóveis e outros 197 com motos, que deixaram um total de 466 vítimas leves, 75 graves e 19 mortos.
O número de atropelamentos também é alto. Segundo dados da Polícia Militar, houve um aumento em torno de 10% nos casos registrados de janeiro a junho deste ano. Foram 138 atropelamentos nos seis primeiros meses de 2010, contra 155 no mesmo período em 2011. Números que poderiam ser reduzidos, se o Plano de Melhoria da Segurança no Trânsito (PMST) elaborado pela Transerp estivesse em vigor. O conjunto de medidas, entregue ao Ministério Público em cumprimento ao Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), assinado em outubro de 2010, até o momento não foi implantado. Procurada pela reportagem, até o fechamento desta edição, a Transerp não se manifestou sobre o problema, que todos os anos faz milhares de vítimas no trânsito ribeirãopretano.
Pessoas e famílias que tiveram as vidas marcadas pela tragédia, como o estudante universitário, André Victor Fonseca Porto. Traumatizado pelo acidente ocorrido, em maio deste ano, na avenida Independência, ele desistiu de trafegar de moto. Ao voltar da faculdade à noite, André foi abalroado por trás, por um veículo que não conseguiu parar a tempo no semáforo, pois, além da velocidade, a pista estava molhada. Ferido, ficou três dias internado e outros 20 em recuperação em casa. Prejuízo material e psicológico que o programador Marcelo Antonio Bueno da Silva conhece bem. No dia 13 de julho, nem a experiência de quase 20 anos pilotando moto foi suficiente para livrá-lo de mais um sério acidente. Ao trafegar pela avenida Marechal Costa e Silva, onde o limite é de 60km/h, Marcelo, que vinha a 120 km/hora, quase colidiu com outro motoqueiro que cruzou a pista. Ao tentar desviar, perdeu o equilíbrio, caiu e deslizou no asfalto por quase 30 metros. Nem o capacete e a roupa adequada foram suficientes para protegê-lo dos ferimentos, que deixaram muitas cicatrizes, nas mãos, cotovelos, joelhos, ombros e três dias de afastamento do trabalho.
Mesmo reconhecendo o próprio erro no momento do acidente, o programador cobra das autoridades uma solução urgente. “Vejo a imprudência de todos os lados. Motoristas e motociclistas não respeitam a sinalização e nem a legislação em vigor e a fiscalização é precária”, reforça Marcelo.
Para a psicóloga e diretora do Departamento de Psicologia da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), Raquel Alqmivist, o crescimento da frota de motos é uma das principais causas do número elevado de vítimas de acidentes de trânsito.
Com uma frota de 410 mil veículos entre carros, motos e motocicletas, o trânsito em Ribeirão Preto exige medidas enérgicas e urgentes. “O Conselho Nacional de Trânsito (Contran) estuda novas regras para aumentar a segurança no trânsito, principalmente dos motociclistas que, por estarem mais expostos, estão mais vulneráveis a acidentes”, reforça a especialista em trânsito, lembrando que o Brasil aderiu ao Plano de Ação da Década de Segurança no Trânsito 2011-2020, lançado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Os ministérios das Cidades e da Saúde criaram o Pacto Nacional pela Redução dos Acidentes no Trânsito – Pacto pela Vida, que visa a redução do número de mortes e de lesões em acidentes de transporte nos próximos dez anos. Para isso, as autoridades devem traçar um plano de mobilidade urbana que englobaria uma série de ações, como a melhoria da malha viária e do transporte público, construção de ciclovias e corredores exclusivos de ônibus. A cidade ainda precisa de campanhas de educação no trânsito que devem começar pelas escolas, passar pelos motoristas que renovam as cartas chegando até a conscientização dos jovens que costumam dirigir embriagados.