Vivendo da Cultura

Integrantes dos grupos TPC, Engasga Gato, Cia. Minaz e Cia. Ainda sem Nome falam sobre a experiência, muitas vezes árdua, de se dedicar à arte

Além de muita dedicação, a trajetória de artistas que hoje representam a cultura em Ribeirão Preto foi construída com muita criatividade e originalidade. Mais difícil do que criar espaços e grupos culturais é mantê-los: o curto orçamento, as mudanças de governo e a falta de infraestrutura costumam ser problemas constantes na máxima “o show deve continuar”.

Uma pessoa que conhece bem o desafio de viver da arte é Noir Jaime Evangelista, afinal, é o que ele faz há 35 anos. Quando começou, nos anos 70, com o ETENOJOD — Equipe Teatral Noir, Jorge e Djalma — teve que virar muita noite em claro no Teatro Municipal emendando fios para apresentar espetáculos no dia seguinte. O grupo, bastante atuante na cidade, viveu momentos de muitas dificuldades financeiras. O pai de Noir, Luiz Evangelista, então presidente do grupo, também atuava como pedreiro, artista, cenógrafo e músico. “Ao lado de minha mãe, sempre apoiou minhas loucuras teatrais”, conta Noir, que, em 1986, montou o Teatro Popular de Comédia — TPC.

Mesmo com a grande efervescência cultural dos anos 70, a década de 80 reservou desafios para os grupos teatrais. Um incêndio no Teatro Municipal, em 1985, queimou toda a parte elétrica. Casado, com um filho de três anos, Noir Junior, e outro na barriga da mãe, Rosângela Menezes Evangelista, o diretor do TPC também desenvolvia a função de representante comercial. “Ensaiávamos no Teatro Municipal, no Teatro de Arena e nas praças. Fazer arte nas décadas de 80 e 90 em Ribeirão Preto exigia paixão, fé e empolgação”, conta. “Era uma luta. A cidade era alienada culturalmente. Além dos problemas do Teatro Municipal, o Teatro de Arena estava abandonado e o Theatro Pedro II, paralisado ou transformado em um cinema de quinta categoria. Nós sobrevivemos em nome da arte”, complementa Noir.

Em 2005, o TPC começou a oferecer curso de teatro em sua sede. O grupo, que já apresentou peças para uma plateia de oito pessoas, hoje vive um momento bem diferente: em 2009, com o apoio do ProAC, o TPC fez espetáculos em 12 cidades, levando o teatro a 34 mil espectadores. Essa condição foi conquistada graças a uma grande aliada, a credibilidade, que trouxe com ela os patrocínios que mantêm cursos e oficinas de teatro, além dos grandes eventos, como a Mostra de Teatro, que ocorre em abril e este ano teve sua 4ª edição, e O Festival de Teatro, que ocorre este mês e este ano completa sete edições. “Hoje, contamos com nove professores formados e muita experiência em teatro. Nossos grandes eventos reúnem mais de 150 atores, alunos e técnicos em mais de 20 peças e uma plateia de mais de oito mil espectadores por evento”, afirma o diretor do grupo, que tem a esposa Rosângela e seus filhos, Noir Junior (ator) e Fábio Henrique (estudante de música) no apoio da direção do TPC.

Experimentação é uma palavra que define bem o grupo Engasga Gato. Aliás, tão logo os componentes Fausto Ribeiro, Gabriel Galhardo, Poliana Savegnago e Monalisa Machado saíram da faculdade de Artes Cênicas do Centro Universitário Barão de Mauá, uniram-se a Márcio Bá e puseram os pés na estrada para conhecer a realidade e absorver a cultura do Vale do Jequitinhonha em 2007. Da experiência e do aprendizado que tiveram com Raquel Scotti Hiron, através do Núcleo de Pesquisa Interdisciplinar da Unicamp, de Campinas, para onde seguiram depois de Minas Gerais, surgiu o primeiro espetáculo do grupo: “Teus passo, Teus guia”.

Mas o grupo nasceu, mesmo, da confluência dos olhares e do posicionamento dos integrantes em relação à arte, uma convergência de impressões que ganhou força no contato com Raquel, que se encarregou da direção da peça e permitiu que as potencialidades aflorassem. “Consequentemente, desenvolvemos um trabalho com a cara de todos. Descobrimos que as diferenças dentro do grupo, que  são as várias vertentes de pesquisa somadas, transformam-se em algo maravilhoso”, afirma a atriz.

Márcio é músico e ator; Fausto trabalha a confluência da dança e do teatro; Poliana estuda a cultura popular brasileira; Gabriel as artes plásticas; e Monalisa a dramaturgia colaborativa, que foca a construção coletiva do trabalho. “O próprio nome — Engasga Gato — já tem a ver com esse ‘mexido’. Não seguimos só uma linguagem:  arriscamos outras e mesclamos tudo isso com a contemporaneidade”, explica Fausto. Isso, segundo Márcio, é fundamental porque “quem faz teatro precisa ter o que dizer. São as experiências fora do âmbito teatral que nos fornecem o conteúdo e a conexão com o mundo”. Dessa conexão é que surge a troca, que torna a arte tão fecunda. “É claro que queremos mostrar nosso trabalho nos grandes eixos, mas também queremos oficinas abertas à comunidade, queremos beber da cultura dentro e fora do Brasil, fazer a pesquisa do Vale do Jequitinhonha em outros países. Queremos levar nossa cultura para outros países e trazer a cultura deles para a nossa”, destaca Gabriel.

Como o objetivo do grupo é insistir na arte, sem se render a apelos meramente comerciais, a batalha é árdua. “Acreditamos na arte como forma de transcender, fazer sentir e refletir”, explica Monalisa. Apesar do Engasga Gato ter apenas quatro anos, o grupo já passou por altos e baixos, sendo que a pior fase foi justamente quando conseguiu sua sede, que também abriga oficinas e espaço para espetáculos: o chamado Telhado Cultural Engasga Gato, instalado no sexto andar do Edifício Diederichsen. “Esse espaço estava abandonado. Tivemos que equipar, conseguimos 5% do que precisávamos do equipamento e fizemos milagre para vender nosso primeiro trabalho. Tivemos que fazer vários espetáculos que não queríamos para sobreviver”, conta Márcio.

A turma, muitas vezes, conta com apoios pontuais, mas o que realmente garante a continuidade da companhia são os cachês e o comprometimento dos artistas com o grupo. Mesmo em trabalhos particulares dos integrantes, uma porcentagem do cachê é revertida para o Engasga Gato. Também são feitos alguns trabalhos institucionais que permitem com que continuem se dedicando à pesquisa. Agora, estão batalhando para conseguir os benefícios das leis de incentivo à cultura, visando a redução do tempo com questões burocráticas e mais com o que realmente interessa: a arte.

Mesmo sendo jovem, a Cia. Ainda Sem Nome já descobriu que fazer arte requer uma enorme paixão. O grupo começou em 2007 e hoje conta com quatro integrantes: Flávio Racy, Lucas Sagara, Michelle Maria e Claire Jezequel, todos ex-participantes do Ribeirão em Cena, que deu um grande apoio à trupe nos primeiros passos como artistas independentes. “No primeiro ano, contamos muito com eles para ensaiar. No segundo ano, ficamos em um depósito da ONG, cuidando do espaço e também o utilizando para os ensaios”, conta Flávio. Em 2009, usaram lugares diversificados para desenvolver sua arte: o subsolo do Teatro Municipal, praças públicas, garagens e salas das casas dos próprios integrantes, que também eram utilizadas para guardar os cenários das peças.

A Cia. Ainda Sem Nome tem basicamente duas fontes de renda: a apresentação de espetáculos do seu repertório e de espetáculos temáticos para empresas e, desde o ano passado, projetos de incentivo à cultura, apoio que tem proporcionado ao grupo uma grande evolução devido à ajuda com os gastos essenciais e à constituição de uma sede na qual se desenvolvem projetos como oficinas de teatro, dança e música que são oferecidas pela trupe. “Este ano, fomos aprovados como Ponto de Cultura e estamos podendo equipar a Casa das Artes e pagar os professores. Ser Ponto de Cultura faz a diferença porque muda a estrutura e a capacidade de ampliar as atividades. Somente este ano, oferecemos 10 oficinas gratuitas para um público de 8 a 18 anos”, explica Flávio.

O próprio município tem criado um ambiente promissor ao desenvolvimento artístico. O ator afirma que a Secretaria da Cultura inaugurou um espaço pró-cultura, em que a formação, a capacitação e a produção artística são prioritárias à produção de eventos. “Antes, a Secretaria apenas organizava eventos. Hoje, incentiva a cultura e isso tem feito com que haja uma evolução artística na cidade”, ressalta Flávio.

Outro fator que interferiu positivamente no desenvolvimento da Cia. Ainda Sem Nome foi a decisão dos integrantes de se dedicarem 100% à arte. Foi assim que bióloga, publicitário, técnico em nutrição e estudante se transformaram em artistas, apesar das carreiras já bem estruturadas. O grupo que começou com dois  ensaios semanais tem, hoje, uma agenda agitada, com repertório de espetáculos para teatro, para espaços alternativose empresas. Ao todo está com 5 espetáculos em cartaz, com as oficinas e este ano vai desenvolver o projeto Sala de Teatro até dezembro, que prevê formação de grupos de teatro em escolas, através do ProAC. Por todas essas questões, este quarto ano promete ser promissor: “Será um ótimo ano, o ano das colheitas”, define Flávio.

Após 28 anos de luta, Gisele Ganade, a maestrina e diretora artística da Cia. Minaz, conquistou um certo conforto no meio cultural. Mas essa foi uma condição alcançada pelo grupo após muito trabalho e perseverança. A Companhia foi criada, em Ribeirão Preto, em 1983, com o lançamento da Revista Minaz e da Minaz Produtora de Arte. O Projeto Ópera Minaz, que compreende o Coral Minaz, os Meninos Cantores e o Madrigal Minaz foi criado em Campinas, em 1990, cidade em que Gisele nasceu e, posteriormente, começou a constituir família com Ivo Rinhel D’Acol, que ao lado dela conduz a Cia Minaz. Ali também conheceram as dificuldades de trabalhar com a arte, chegando quase a fechar as portas.

“Tínhamos a vontade, a criatividade e o nosso estudo. Fazíamos outras atividades para manter a Companhia. Eu trabalhava no coro do Teatro Municipal de São Paulo, a gente tinha uma pequena gráfica de edição de livros e o Ivo chegou a ser sócio de uma fábrica de pipoca doce. Foi assim que começamos”, conta a maestrina. Nessa época, cenários e figurinos ficavam todos na casa do casal, que não tinha verba para locar espaço para ensaios e produção.

Com as oficinas de canto que ministrava, Gisele percebeu que muita gente da região passou a ir até Campinas para participar dos corais. Foi daí que ela e Ivo decidiram retornar, em 1992, e transformar Ribeirão Preto na sede da Companhia. Em 1993, montaram o primeiro espaço, um barracão na Avenida Portugal, onde fizeram um pequeno auditório no qual apresentavam espetáculos de ópera estúdio e concertos. O espaço que ocupam hoje, no bairro Jardim Paulista, encontraram completamente abandonado. Porém, foi naquela casa que a Cia. Minaz foi tomando corpo, desenvolvendo-se a ponto de germinar o Teatro Minaz, inaugurado em 2009, com a proposta de popularizar a ópera em Ribeirão Preto. “Passamos por um grande sufoco, trabalhamos muito. A transformação mais importante foi a integração do grupo em prol de uma finalidade. A Cia. Minaz sempre teve como base o aprendizado da música e, hoje, os professores que ensinam nossos alunos, muitos deles formados em faculdades de música, fizeram parte do coral infantil em 1996. Graças às leis de incentivo, podemos garantir a remuneração de suas aulas”, afirma Gisele.

Ao que tudo indica, as leis de incentivo estão favorecendo uma nova história cultural em Ribeirão Preto. Quando esses grupos mais antigos começaram a atuar, era difícil conseguir incentivos culturais. Sem a internet, o acesso aos órgãos públicos era bastante restrito. Hoje, os grupos podem contar com o apoio de governos municipais, estaduais (ProAC) e federais (Lei Rouanet e Ponto de Cultura) para desenvolver projetos. A contrapartida exigida é a paixão, a dedicação e a realização de ações que favoreçam formação, o fomento e a difusão da arte. São os vários projetos realizados pela Minaz utilizando esses incentivos que mantêm em pleno funcionamento sua fábrica de talentos. “Agora, a Minaz está numa posição de realização”, conclui Gisele Ganade.

Texto: Carla Mimessi
Fotos: Carolina Alves

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