Vivendo no futuro
A ansiedade é um sentimento que anda junto com o ser humano desde a Pré-História, mas o estresse da modernidade a eleva a um nível patológico, principalmente entre os jovens
Vestibulares, cobranças profissionais e obrigações acadêmicas são algumas das preocupações mais corriqueiras que os jovens adultos de hoje enfrentam. De uma hora para outra, escolhas que podem perdurar por toda a vida são exigidas com rapidez, exatamente em uma fase de muitas incertezas. A euforia para decidir qual rumo a vida deve tomar, além das responsabilidades diárias da vida adulta são, na maioria das vezes, gatilhos para um mal que afeta cada vez mais pessoas: o transtorno de ansiedade.
“Descobri que tinha ansiedade crônica aos 17 anos. Fui diagnosticada por um psiquiatra de São Carlos, após uma crise muito forte em um ano de cursinho, em 2012. Na verdade, o diagnóstico em si não foi um impacto porque eu sempre tive sintomas de uma pessoa ansiosa, só não sabia que isso tinha um nome e exigia tratamento médico. Achava que era uma ansiedade que se sente normalmente, como quando vamos falar em público ou algo assim”, conta Larissa Tassin, hoje com 24 anos.
O transtorno de ansiedade já vinha dando sinais desde que se viu diante um momento decisivo: a escolha da carreira, assim que saiu do Ensino Médio, em 2011. “Todos aqueles fatores culminaram na minha crise e ela me fez procurar um psiquiatra, começando o tratamento com remédios controlados e psicoterapia”, relata a estudante universitária.

Além das crises e da sensação de inquietação constante, a ansiedade também pode ser responsável pelo baixo desempenho em diversas atividades, desde as mais simples até as de maior responsabilidade. “Já fui prejudicada pela ansiedade em diversas situações, desde baixo desempenho em provas, inclusive vestibulares, até atividades simples, como escrever uma mensagem para alguém que não tenho tanta intimidade”, conta Larissa. Apesar disso, a estudante conta que lida com o problema sempre de maneiras diferentes e busca por alternativas como meditação, tratamentos naturais e exercícios mentais.
Para Irys Dufner Lage, a ansiedade também traz insegurança em diversas situações. “Eu costumo dizer que a ansiedade anda de mão dada comigo o dia inteiro, mas, algumas vezes, ela aperta tanto minha mão que chega a esmagar”, relata a jornalista. Para ela, apesar de sempre ter se considerado ansiosa, ouvir da psicóloga o diagnóstico que tinha transtorno de ansiedade foi um choque. “Com acompanhamento, fui entendendo que a ansiedade não é um bicho de sete cabeças e que posso conviver com ela”, completa Irys.
Por conta da ansiedade, a jornalista desenvolveu síndrome do intestino irritável, além de pressão alta em alguns momentos. As adversidades da vida profissional, as tarefas e os obstáculos são itens complicados na vida de um ansioso. Com a terapia, Irys aprendeu métodos que ajudam a manter o foco.
Júlia Gracioli foi diagnosticada com o transtorno, pela terapeuta, aos 15 anos. “Não fiquei tão surpresa. A ansiedade sempre foi muito comum na minha vida, então o parecer profissional não mudou muita coisa. Só tive a certeza daquilo que já sabia”, conta a estudante. Aos 22 anos, ela considera que há uma “crise dos 20”: “É aquele medo e aquela ansiedade de conseguir ser bem-sucedida profissionalmente e pessoalmente, e a cobrança que colocamos em nós mesmos assusta qualquer um”, explica Julia.
Para a estudante, o período traz, junto com a ansiedade natural da idade, uma “pressa de existir” e de querer realizar tudo ao mesmo tempo. “É acordar com sonhos e dormir com realizações, mas tem que ter calma”, destaca, complementando que, à noite, as preocupações ficam ainda mais assombrosas. “À noite, começam a vir as crises. Eu deito na cama e sou tomada por pensamentos acelerados, como ‘você deveria ter feito isso assim’, ‘deveria ter falado de outro jeito’, ‘você precisa fazer aquilo amanhã, não esqueça’. Costumo ter bastante taquicardia. Às vezes, acordo sufocada porque falta ar. É horrível lidar com isso”, relata Julia.
Além dos cuidados consigo, falar sobre a ansiedade, para Julia, é necessário para desmitificar um tema tão sério. “A ansiedade é um tipo de transtorno mental que precisa ser tratado com cuidado, pois é grave. Falar de ansiedade é chamar a atenção para um problema que está dominando a sociedade atual”, analisa a estudante.
Um sentimento vital
Quem costuma pesquisar sobre o tema pode já ter ouvido que a ansiedade é um sentimento normal para o ser humano e que ele até é responsável pela evolução da espécie. Essa informação é verdadeira, como explica o psiquiatra e doutor em Saúde Mental Luiz Alberto Hetem: “A ansiedade é uma emoção normal, de grande valor adaptativo, sempre desagradável, que permeia nossas vidas e aumenta diante de mudanças, novidades e imprevistos. Graças a ela, em situações de conflito, hesitamos, avaliamos os riscos e pensamos melhor antes de tomar uma decisão”, destaca o médico. Ele assegura que, caso os primeiros seres humanos do planeta não se sentissem ansiosos o suficiente para enfrentar situações de perigo da melhor forma, é provável que a espécie não tivesse perdurado até hoje.
Alguns fatores, porém, caracterizam o transtorno de ansiedade diferente da ansiedade como emoção. Quatro parâmetros auxiliam na distinção entre ansiedade normal e patológica: a intensidade das manifestações, a duração, a proporção entre o estímulo desencadeante e a resposta de ansiedade e o grau de limitação ocasionado. “Na prática, casos em que as manifestações de ansiedade são bastante intensas, duradouras, desproporcionais ao estímulo e limitantes são sugestivos de transtornos de ansiedade”, explica Luiz Alberto.
Os transtornos de ansiedade primários, para a Psiquiatria, podem ser divididos em transtorno de pânico, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de ansiedade social e fobias, que se caracterizam por manifestações físicas e psicológicas, limitantes em determinadas situações para as quais não existe causa orgânica.
Como sentimento, Luiz Alberto explica que ansiedade é energia vital. “Se for bem utilizada, é combustível para mudança e progresso pessoal. É a reação emocional adequada a novidades, ocorrências inesperadas e mudanças. Pode também ser entendida como sinal de alarme, indicando sobrecarga mental, cognitiva ou física relacionada à quantidade de atividades concomitantes, ao volume de informações que nos chegam a todo momento e ao convívio com pessoas estressadas e ansiosas”, comenta o psiquiatra. Manejar a ansiedade, portanto, depende de identificar corretamente as causas, compreender seu valor e encaminhá-la da maneira correta. “É necessário tolerar o incômodo e se dispor a enfrentar a questão que desencadeia a reação de ansiedade, pois sem enfrentamento não haverá superação. É transformar preocupação em ação”, reforça o especialista.
A psicóloga Ana Flávia de Oliveira Santos, mestre em Psicologia e especialista em Psicologia Clínica, complementa que o caráter patológico ocorre por conta do excesso, da certa desproporção da reação e da persistência no tempo, tanto em termos de duração quanto ao nível de desenvolvimento, sendo tênue a linha que separa a condição da ansiedade como doença. A psicóloga explica que, segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, os transtornos de ansiedade abarcam tanto características de medo quanto de ansiedade, ambos excessivos, além de perturbações emocionais relacionadas.
Ana Flávia comenta que a psicoterapia funciona através de uma relação entre o paciente e o psicoterapeuta, profissional que busca dar sentido às questões do paciente, possibilitando a construção de significado das experiências emocionais, o que leva a uma situação de reconciliação com a própria história. Porém, ela explica que, ainda hoje, muitas pessoas se sentem receosas para procurar ajuda. “A psicoterapia é indicada para acompanhamento e tratamento da pessoa que apresenta ansiedade. Sabemos que procurar ajuda, ainda mais de psicólogo, não é tarefa fácil, pois, muitas vezes, isso é confundido com fraqueza ou aparenta ‘sinal de loucura’”, expõe a especialista.
Geração “Nem-Nem”
Se a ansiedade é um agravante no momento de se preparar para o mercado de trabalho, ela também pode ser acentuada pela falta de oportunidades e pelas dificuldades de se inserir nesse universo. As crescentes taxas de desemprego e as incertezas quanto às profissões fazem com que um grande percentual de jovens fique inativo, sem estudar nem trabalhar — por isso, são conhecidos como a geração “Nem-Nem”: nem trabalha, nem estuda —, não apenas pela desmotivação, mas principalmente pela falta de oportunidade e a consequente baixa autoestima, já que essas dificuldades proporcionam um sentimento de incapacidade quanto ao próprio futuro.
“Ultimamente, a ansiedade tem sido frequentemente relatada e identificada nas pessoas. Características de nosso tempo, tais como um viver mais acelerado, a realização de múltiplas tarefas, o distanciamento nas relações interpessoais, viver sob pressão e a um nível elevado de estresse, além do predomínio do consumo e do acúmulo, para citar alguns fatores, fazem com que a ansiedade seja um sintoma da contemporaneidade”, explica Ana Flávia.
Todas essas pressões se aplicam a uma época delicada da vida: a passagem para a vida adulta. “Nesse contexto, os jovens se tornam público altamente influenciado e sob risco, ainda mais se considerarmos a etapa de desenvolvimento em que se encontram, um período importante para a formação da identidade, de muitas mudanças e importantes conquistas e lutos, que podem se constituir de experiências ansiogênicas”, completa a psicóloga. Para a especialista, nesta fase, é fundamental que se dê suporte e atenção ao jovem quanto às incertezas para ajudá-lo a atravessar os problemas. “O cuidado, a atenção e o suporte ao jovem são fundamentais para ajudá-lo a atravessar esse período de modo a poder transformar e conter as emoções e experiências da vida”, conclui Ana Flávia de Oliveira.
Texto: Tainá Colafemina