Vocação para cuidar

Vocação para cuidar

Tendo a filantropia como ingrediente fundamental na sua formação pessoal, Maria Apparecida Ferreira Adorno da Costa revela que o trabalho exige foco, determinação e uma dose de sonho

“As pessoas que passam pela instituição são seres cheios de potenciais que precisam ser desenvolvidos”, frisa CidinhaMesmo depois de 22 anos de dedicação quase integral à Sociedade Espírita Obreiros do Bem, Maria Apparecida Ferreira Adorno da Costa não se abate diante das dificuldades, buscando sempre a excelência em tudo que faz. Graduada em matemática e física, depois da aposentadoria, passou efetivamente a se dedicar ainda mais à filantropia, algo que vivencia desde a juventude, dentro e fora da família. Prestes a completar 38 anos de atividades, a instituição iniciou as atividades em 1980, no Parque Ribeirão Preto, região marcada pela exclusão e pela vulnerabilidade social.

Com sede própria e área construída de aproximadamente 1500 m², a Obreiros do Bem dispõe de biblioteca, salas administrativa, de cursos profissionalizantes, de gerenciamento de doações, de oficinas, de apoio, da equipe técnica e de informática, cozinha, refeitório, quadras de esporte coberta e de areia, entre outras dependências. A estrutura atende a aproximadamente 180 crianças e jovens de 7 e 15 anos ou mais. “Objetivamos a formação pessoal e social dessas pessoas, contribuindo para a construção da autoimagem fundada na cooperação e na convivência em grupo”, aponta Cidinha Adorno, como é mais conhecida.

Atualmente credenciada e inscrita nos conselhos municipais da Assistência Social e da Criança e do Adolescente, a entidade participa da rede sócio-assistencial de Ribeirão Preto, atuando na proteção básica da política de assistência social no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV). Entre os projetos desenvolvidos na casa, em parceria com o Senac, a entidade oferece vários cursos de formação profissional para as famílias dos atendidos, capacitando mais de 250 pessoas para o mercado de trabalho.

De acordo com Cidinha, são atendidos, diariamente, adultos e famílias do complexo Parque Ribeirão Preto com distribuição de sopa, orientação e encaminhamento aos serviços municipais e governamentais. Aos sábados, a entidade recebe a comunidade e oferece orientação e convivência comunitária fundada nos preceitos kardecistas. Semanalmente, voluntárias integrantes da sociedade ribeirãopretana se encontram no atelier de costura para criar peças de artesanatos, bordados e enxovais que, anualmente, são comercializados em um tradicional bazar que arrecada fundos para a manutenção dos projetos desenvolvidos.

Revide: O que a levou à filantropia?
Maria Apparecida: Desde muito jovem, por ter um filho com Síndrome de Down, minha mãe fazia artesanato para a APAE de Lins, onde meu irmão frequentava. Quando casei e me mudei para Ribeirão Preto trabalhando no Banco do Brasil, sempre que possível fazia campanhas, em especial nos finais de ano, conseguindo kits de roupas para serem doadas às crianças no Natal.

Quando começou seu envolvimento com a Obreiros do Bem?
Em setembro de 1996, quando me aposentei, recebi a visita de Carmen Silvia, uma das fundadoras da instituição. Ela estava deixando a Obreiros para dar continuidade a um novo trabalho na Casa Espírita Terra de Ismael, de Jardinópolis. Carmem e Marli Novato Colherinhas estiveram na minha casa e me convidaram para fazer um trabalho na Obreiros com horta. Fui até lá e me apaixonei pelos projetos, principalmente, pela oficina do tear. Devo confessar que a horta não era o meu ponto forte. Como vinha de uma função administrativa, logo me envolvi com outras atividades da entidade, que nunca mais deixei. Em setembro deste ano vou completar 22 anos junto a Obreiros.

Qual a principal característica de um gestor deste setor?
Como em qualquer outro segmento, muito trabalho, foco, determinação e sonho por um mundo melhor, tendo a certeza de que isso é possível.

Quais foram os principais desafios e avanços à frente da instituição? 
Os principais desafios foram, e são, trabalhar com crianças, jovens e adultos que passam pela instituição e ver o potencial de cada um. Não podemos permitir que as pessoas que estão desenvolvendo este trabalho conosco vejam quem passa por lá como vítimas, mas, sim, como seres cheios de potenciais que precisam ser desenvolvidos. Vejo que já conseguimos muitos avanços, mas o caminho é longo.

Hoje, quais as necessidades da instituição e de que forma procura saná-las?
As carências são muitas. Entre elas, considero o equilíbrio do orçamento, para que possamos desenvolver um trabalho com qualidade, a maior de todas. Nesse sentido, temos desenvolvido campanhas para destinação de Imposto de Renda, trabalhamos para conscientizar as pessoas a direcionarem suas notas fiscais para a Obreiros, organizamos bazares, entre outras atividades.
 
A profissionalização da equipe contribui para melhorar o atendimento?
Sem dúvida. Esta já é, há tempos, uma realidade na Obreiros. Todos os atendimentos ao público-alvo são realizados por profissionais contratados e capacitados para isso. Os voluntários integram apenas a diretoria ou executam atividades intermediárias.

A Instituição é autossustentável financeiramente?
Ainda não, mas este é um sonho que estamos trabalhando para alcançar. Criamos uma padaria chamada Pão e Arte do Bem, que tem a Obreiros como uma das sócias. A renda do negócio é integralmente revertida para a entidade. A padaria oferece serviços de coffee break, venda de pães para empresas, entre outros. Além disso, aceitamos encomendas de doces, salgados e bolos para festas. Esperamos que, muito em breve, a Pão e Arte do Bem possa ser um dos pilares importantes da manutenção do nosso trabalho e dos nossos projetos.

Energia fotovoltaica gera economia de aproximadamente R$ 4.000,00 por mês

A sustentabilidade é uma preocupação dessa gestão?
A Obreiros sempre se preocupou com essa questão e mantemos o cuidado de trabalhar este tema com as crianças e os jovens atendidos. Em função disso, em 2015, reduzimos o consumo de água fornecida pela rede do Daerp implantando um sistema para captação da água da chuva. O processo foi idealizado por um colaborador — hoje, nosso funcionário —, Roberto Sales, e teve a participação e o acompanhamento das crianças e dos jovens da instituição. Nosso custo foi de cerca de R$ 9.000,00. Nossa preocupação, nesse caso, não foi somente com o valor da conta de água, uma vez que pagamos o valor mínimo, mas também com o valor da água, um recurso finito e muito precioso.
 
Também com foco na sustentabilidade, outros serviços foram alterados?
Em maio de 2017, queríamos ampliar nossa atuação nessa área, sem nos esquecermos do nosso papel como educadores e exemplo para nossos frequentadores. Por isso, queríamos gerar nossa própria energia. Iniciamos uma campanha de financiamento coletivo para conseguirmos os recursos necessários para implantar a energia fotovoltaica na Obreiros.

Como conseguiram viabilizar o projeto?
Procuramos diversas empresas e realizamos vários orçamentos de acordo com a nossa necessidade, que dependeria de 112 placas, o que nos custaria, no melhor preço que verificamos R$ 139.000,00. Iniciamos uma campanha de financiamento coletivo através da internet e, em janeiro deste ano, conseguimos reunir o valor necessário. No dia 28 de março, o projeto estava concluído e a instituição passou a gerar a própria energia, o que significou uma economia mensal de aproximadamente R$ 4.000,00. Com muito trabalho, força e amor de todos os colaboradores e doadores, mais este sonho foi realizado.
 
Acredita que este é o melhor caminho para a profissionalização do terceiro setor?
Sério, engajado e responsável há muitos anos, o terceiro setor vem se profissionalizando. As instituições que ainda permanecem dependendo integralmente da caridade não conseguirão sobreviver. A Lei Federal 13.019, de 31 de julho de 2014, em vigor nos estados e nos municípios, exige que estejamos cada vez mais preparados.
 
Quem são os principais mantenedores da instituição e de que forma é possível colaborar?
Com os projetos aprovados no Conselho da Criança e do Adolescente, é possível receber os recursos do Imposto de Renda. Além disso, a Secretaria Municipal de Assistência Social abre edital todos os anos para quem deseja concorrer a uma verba pública que, apesar de pequena, ajuda. A Nota Fiscal Paulista também tem sido muito importante, sem falar da nossa padaria, como disse anteriormente. Outra ajuda importante é o voluntariado. Qualquer um pode ser ajudar de onde estiver, convidando os amigos a se tornarem doadores, conhecendo os serviços de nossa padaria e participando de nosso bazar.

Oficinas contribuem para preparar os jovens para o mercado de trabalho

Com o novo sistema de doação da Nota Fiscal Paulista, acredita que o consumidor terá maior segurança para doar seus cupons fiscais?
Sem dúvida. Se houver envolvimento das pessoas nessa doação, as instituições ganharão muito mais. Já tivemos uma prova disso, com os dois primeiros meses disponibilizados pela Fazenda.

Esses recursos impactam positivamente no orçamento da Instituição?
Bastante! A NFP representa, em média, 60% do nosso orçamento anual.

Quais são os principais desafios e metas da Obreiros em 2018?
Temos como meta central capacitar mais e mais os colaboradores e viabilizar nossa padaria.
 
Existe um cronograma dos eventos que ainda acontecerão este ano?
No dia 1º de julho realizamos nossa tradicional feijoada, totalmente patrocinada pela família Del Lama, que foi um sucesso! Em novembro, no dia 8, acontecerá mais uma edição do nosso bazar, que disponibilizará para venda os produtos confeccionados pelo nosso grupo de voluntárias. Elas trabalham o ano inteiro esperando por esta ocasião. O bazar será no Hotel Araucária, outro grande parceiro da Obreiros, e disponibilizará presentes artesanais em cama, mesa e banho, além de enfeites natalinos com preços acessíveis. Toda a renda é revertida para a manutenção da instituição. 

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