Vocação para ensinar
Na entrevista, as professoras Elaine Assolini e Simone Locca revelam percepções, fazem análises e apresentam sugestões para a formação de professores e alunos
Docente do Departamento de Educação, Informação e Comunicação (DEDIC), da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), Filomena Elaine Paiva Assolini — ou simplesmente Elaine Assolini, como prefere ser chamada —, é referência na área da Educação.
Formada em Pedagogia e Letras, especialista na área de Linguística Aplicada, mestre e doutora em Psicologia e, atualmente, cursando pós-doutorado, na Unicamp, no campo de Educação e Linguística Aplicada, a professora explica, nesta entrevista concedida à dirigente estadual de ensino, Simone Maria Locca, quais os caminhos percorridos por ela, suas crenças, observações e sonhos relacionados à Educação.
Simone: O que a fez optar pela carreira de educadora?
Elaine: Desde cedo, eu me vi na posição de buscar ajudar o outro a aprender, de auxiliá-lo a encontrar alternativas para responder algumas questões íntimas. Parto do pressuposto de que somos todos capazes de aprender e um dos papéis do professor é justamente esse: contribuir para que o outro aprenda, criar condições para isso. Foi na área de Educação, nessa busca pelo conhecimento, que encontrei a possibilidade de oferecer às pessoas as condições favoráveis para aprender e, por isso, tenho uma vida dedicada ao magistério e à docência.
Simone: Qual a origem desse sentimento?
Elaine: Vem da infância e da observação de outros professores. No decorrer da minha vida tive a sorte de encontrar excelentes professores e de ter uma família que me incentivou a estudar, a ler. Vivi, também, a emoção de ajudar a alfabetizar minha própria avó. Essas referências foram importantes na minha vida e me fizeram desejar ser professora.
Simone: Nessa trajetória, o que foi mais desafiador?
Elaine: Ultrapassei muitas situações complexas. Enfrentei salas de aulas com estudantes desinteressados, que não acreditavam muito nas suas capacidades de aprender. Consegui buscar alternativas para sensibilizá-los para o novo, o diferente, o múltiplo. Já fui responsável por salas de aulas com quase 50 alunos, com estudantes que não haviam aprendido a gostar de ler e que não sabiam que poderiam ser sujeitos capazes de múltiplas interpretações, de múltiplas leituras. Eram estereotipados, estigmatizados e através da arte e da literatura consegui bons resultados.
Simone: Como realizar seu trabalho com a formação inicial de professores?
Elaine: Trabalho, efetivamente, com a denominada formação inicial nos cursos de licenciatura em Pedagogia e em Química. É um desafio porque recebemos estudantes que nem sempre sabem por que escolheram o curso de Pedagogia. Não sei se tenho conseguido, mas busco oferecer oportunidade para que eles possam expressar a sua subjetividade, interpretar e escrever. Defendo em meus estudos e pesquisas que se não houver condições favoráveis para que o sujeito apresente seus argumentos, exponha as suas ideias, ele se tornará um professor que não sabe ouvir e dar espaço para os alunos. Por isso, procuro sempre utilizar alternativas e estratégias didático-pedagógicas, que possam auxiliar o processo de ensino e de aprendizagem.
Simone: Comente um pouco mais sobre essas suas pesquisas.
Elaine: A formação inicial não começa, necessariamente, com o curso de graduação. Muito antes disso, o estudante já teve experiências que ficaram guardadas e vão ecoando em seu inconsciente. Quando chega à graduação, já tem suas escolhas. Procuro trabalhar com ele a partir desses três pilares: a expressão da subjetividade, a produção linguística escrita, (sempre os instigo a colocarem no papel seus argumentos, suas ideias, suas reflexões e discussões, pois o professor precisa escrever) e a leitura e a interpretação, porque nem sempre aquele futuro profissional que optou pela docência aprendeu a gostar de ler. Essa é uma realidade. Infelizmente, algumas vezes, os estudantes passam o curso todo sem aprenderem a gostar de ler. Alguns experimentam a docência e ainda não têm condições internas de usufruir das belezas da literatura. Tenho observado que o estudante não tem tempo para ler literatura, possui tempo apenas para os textos acadêmicos. O aluno se sente sobrecarregado, por isso, nesse espaço, quando ofereço, tenho alguns estudantes que se autorizam a participar e vejo o quanto é importante. Venho defendendo espaços discursivos, oportunidades para professores se encontrarem, para alunos se encontrarem. Cheguei a esses três pilares por meio de pesquisas realizadas por mim e por outros autores. Também cheguei a essa conclusão a partir da experiência, da vivência, porque já fui uma professora tradicional, no sentido de ser conteudista, de achar que o conteúdo deveria ser privilegiado fundamentalmente. A minha prática passou a fazer mais sentido para mim, e meu diálogo com os alunos fez mais sentido para eles. A partir dessa ótica, a aprendizagem passou a fluir melhor.
Simone: Considerando o tema inclusão e formação de professores, o que você poderia destacar?
Elaine: Defendo a inclusão e um professor melhor preparado, em termos de profissionalização docente. Defendo, também, e isso já é quase que um ponto indiscutível, outras condições relacionadas à inclusão, por exemplo, um professor que possa contar com uma sala de aula adequada para receber esse estudante que tem outras demandas e requer, muitas vezes, uma atenção particular.
Simone: Diante da realidade da inclusão nas escolas, quais as mudanças na formação de nível superior, na preparação dos novos docentes?
Elaine: A inclusão exige educadores sensíveis, preparados, com conhecimentos ao mesmo tempo amplos e específicos na área da Educação. São muitas exigências e demandas trazidas pela sala de aula, pelo cotidiano escolar, pelos pais e alunos. Nesse sentido, a universidade e os cursos de licenciatura tem papel fundamental, pois deverão formar profissionais ambientados com essa questão.
Simone: Você tem se dedicado a reflexões sobre a formação continuada de professores?
Elaine: Ela é indiscutível para o sujeito professor. Desde que esse estudante conclui o curso superior, precisa continuar estudando. A formação continuada é integrante e constitutiva da docência. Não se pode pensar uma sem a outra e tenho realizado vários projetos que buscam contribuir com a formação continuada dos sujeitos professores, através de encontros e de cursos de curta, média ou longa duração que podem ocorrer dentro da escola ou fora dela, como, por exemplo, no âmbito da extensão universitária ou na pós-graduação, em cursos de especialização, mestrado e doutorado. Sou responsável por um grupo de estudos e pesquisas (GEPALLE) sobre alfabetização, leitura e letramento. Neste grupo, há professores da rede pública e de instituições privadas de ensino, há espaços para discussão, para reflexão, ofereço palestras e oficinas pedagógicas. Realizamos muitos cursos, e tenho vários colegas e amigos na FFCLRP-USP que fazem também. Acredito que falta um estreitamento da relação com as redes, talvez uma melhor divulgação dessas oportunidades.
Simone: Atualmente, os estudantes estabelecem uma relação de ‘coletores’ de informação, na qual estão habituados ao uso da Internet como ferramenta de cópia. O que poderia ser feito para mudar essa relação?
Elaine: A professora Eni Orlandi faz um apontamento muito interessante sobre isso. A pesquisadora diz que o sujeito que faz uso do plágio silencia a si próprio e ao outro. Faz parte do trabalho do professor mostrar isso ao aluno. A escola e o professor têm papel fundamental no sentido de mostrar para esse estudante que, ao copiar, ele está deixando de ocupar sua posição, de colocar seus pensamentos, suas ideias, seus argumentos. Nessa perspectiva, vejo que a escola tem um papel importante, porque, se ela quer acabar com isso, precisa oferecer condições de ensino e de aprendizagem em que o sujeito tenha suas produções linguísticas, orais e escritas, valorizadas. O professor tem o importante papel de ser o interlocutor, o leitor de seu aluno. Por enquanto, temos apenas ouvido o discurso do “você copiou e isso não pode”. Essa atitude não está dando certo.
Simone: Qual sua análise sobre o papel da Educação?
Elaine: Há estudos interessantes que mostram famílias inteiras não alfabetizadas ou com determinado nível de letramento que incentivam, instigam e valorizam a escola. Isso é importantíssimo: quando a família reconhece o valor social da escola, compreende que a escola pode ser sua parceira na educação dos filhos. Nesses casos, se tem um estudante mais motivado, realmente interessado e que promove essa interação. Com todo respeito aos projetos existentes, muitos deles, de fato, funcionam, mas quando família e escola dialogam, e o estudante é o mediador dessa interação, observamos um melhor desenvolvimento educacional e pessoal dos alunos e dos professores. Pensar de forma estanque ou de forma isolada é cair numa armadilha. Os projetos que dão certo são aqueles em que a família participa.
Simone: Mas e quando não há esse apoio da família, o que fazer?
Elaine: Quando não há esse apoio da família, a escola pode se sentir sozinha, mas nem por isso deve deixar de cumprir o seu papel. Em muitos casos, a criança pode contar apenas com a escola e o professor. Nessa perspectiva, os professores têm um papel fundamental, podem até se sentir sozinhos e se questionar, mas precisam se conscientizar que, muitas vezes, os pais não conseguem formar essas valiosas parcerias. Observo resultados favoráveis, positivos, quando a escola consegue de forma assertiva chamar os pais à participação, fazer com que conheçam os desafios e as belezas da escola e acreditem no potencial dos filhos.
Simone: Qual seria o modelo ideal de Educação?
Elaine: Defendo o estudante dentro da escola em período integral e a escola oferecendo inúmeras possibilidades, além do ensino. O discurso lúdico precisa estar presente na escola e o discurso polêmico também, acima de tudo, não pode faltar o cuidado com as relações. Uma escola modelo, para mim, cuidaria disso e, também, da relação que o sujeito estudante estabelece com o conhecimento. Esse aluno que copia não aprendeu como pode ser gostoso descobrir o novo, o diferente e o inusitado. Vivendo na ilusão da rapidez, da agilidade, da volatilidade, não descobriu que aprender é complexo, exige esforço, dedicação, que pode ser sofrido, difícil, solitário, mas também extremamente prazeroso.
Simone: Como colocar esse modelo em prática?
Elaine: Se quisermos uma escola melhor, precisamos cuidar do ser humano, dos afetos do professor, dos pais e dos estudantes. Muitas vezes, chamei pais pensando em tocá-los sobre seus filhos e aconteceu o caminho inverso, eles me pediram ajuda. Não alcançaremos uma escola mais democrática se não cuidarmos da afetividade dos sujeitos envolvidos, da emoção e não apenas da cognição. Essa é uma crítica que faço: a escola está cuidando apenas do intelecto e relegando a emoção.
Simone: Numa tarde chuvosa, em casa, o que você gosta de fazer?
Elaine: Gosto de assistir a filmes, ver seriados e ler. Estou lendo pela oitava vez, Dom Casmurro, porque amo Machado de Assis e, pela quarta vez, Carta Roubada, um conto do Edgar Allan Poe. A literatura tem isso de bela, surpreende, encanta e desestabiliza. Por isso, defendo tanto a arte e a literatura dentro da escola, porque elas podem instaurar a emoção e o sentimento.
Simone: Qual a emoção de ler um livro pela oitava vez?
Elaine: São duas principais emoções: a primeira, a surpresa em observar pontos que não havia notado na leitura anterior, a segunda diz respeito às possibilidades de novas intertextualidades, de relações com outros filmes, livros, quadros e músicas. Não é senso comum dizer que “ler é viajar”, porque ler um livro pela oitava vez me permite fazer outras e novas viagens. Nas primeiras vezes, li o livro por obrigação, agora, estou lendo pela possibilidade de experimentar esse prazer, essa descoberta do novo.
Justa homenagem
“Que honra poder entrevistar Elaine Assolini. Oportunidade única, oferecida pela revista Revide. Sua carreira brilhante como educadora lhe rendeu diversas homenagens, sendo todas merecidas, pois não há sequer uma pessoa nos meios acadêmicos e culturais da cidade de Ribeirão Preto e região, que tenha convivido com ela, que não expresse verdadeira admiração pelo seu trabalho e sua dedicação à Educação.”
Simone Maria Locca, Dirigente Estadual de Ensino