Volta ao mundo de bike

Volta ao mundo de bike

Casal está na estrada há pouco mais de um ano


Nada além das rodas, correntes e pedais, que não um kit de camping, máquina fotográfica e o desejo insaciável de conhecer o mundo. Pelo caminho, o casal André Cerri (32) e Karla Silva Cerri (32), vai deixando o rastro dos pneus de suas bicicletas.

Apesar de ser um dos meios de transporte mais lento, o casal não tem pressa, por isso, escolheu a clássica “magrela” como veículo para conhecer boa parte do mundo, numa jornada programada para durar quatro anos, passando por países da Europa, Ásia, Oceania e América do Norte.

“Nosso principal objetivo é conhecer o máximo de países, pessoas, culturas, comidas, temperos e histórias que pudermos”, explica o fotógrafo André Cerri.

Ainda no Brasil
Antes de cair na estrada, o casal mantinha uma vida considerada comum para os padrões da atualidade: apartamento, carro e emprego.

Depois de decidirem sair pelo mundo pedalando, André e Karla trataram de juntar dinheiro e comprar as bicicletas e os equipamentos necessários para a viagem. Alugaram o apartamento para novos inquilinos, venderam o carro e boa parte do equipamento fotográfico de André.

“Trabalhamos duro por três anos. A Karla, por exemplo, teve três empregos ao mesmo tempo. E com venda dos bens e o aluguel do apartamento temos uma renda mensal que dá para cobrir nossos gastos,  que são em torno de 40 euros por dia”, contam.

O país escolhido para ser o “marco zero” da viagem foi a Holanda e com a maioria do equipamento comprado, os dois desembarcaram em Amsterdã. “Por nunca termos sido ciclistas, acostumar com o pedal por lá foi uma escolha lógica. É um país plano e conta com mais de 20.000 km de ciclovias e dezenas de campings. Um paraíso”, conta André.

Inspiração
Após visitarem uma exposição do fotógrafo francês Henri Cartier Bresson, no SESC Santana de São Paulo, André Cerri, por força do destino, encontrou nas prateleiras da loja do SESC o livro de estrada “Caminhos”, do arquiteto mineiro Argus Caruso Saturnino.

Neste livro, Caruso expõe as imagens da viagem de três anos e meio que fez de bicicleta, percorrendo mais de 35 mil quilômetros e passando por 28 países. “Naquela época já tínhamos começado a pesquisar sobre o ticket aéreo de volta ao mundo. Vimos que Argus tinha completado a volta ao mundo de bicicleta e foi inspirado nele que pensamos em viajar dessa maneira, pois é mais barato, mais flexível, faz bem para a saúde e para o meio ambiente, além de proporcionar um maior contato humano”, argumenta o fotógrafo.

Enquanto respondem às perguntas enviadas por e-mail, André e Karla estão em Montenegro, uma república montanhosa, situada no sudeste europeu, próxima à República da Albânia onde, segundo eles, nem sempre dispunham de energia  elétrica.

O casal está fora do conforto do lar desde março de 2012. Já passaram pela Holanda, Bélgica, França, Inglaterra, Espanha, País Basco, Portugal, Marrocos, Itália, Grécia e Albânia, antes de chegar a Montenegro. “Escolhemos conhecer o nosso mundo assim e aqui estamos. Falando com estranhos, dormindo em granjas, portos, salões de eventos, vestiários de campos de futebol, provando novos sabores, alguns bons outros não, visitando velhos amigos e fazendo muitos outros novos”, revela André.

Durante o primeiro ano de estrada, o fotógrafo afirma ter conhecido a solidariedade humana, muitas vezes esquecida, quando em várias oportunidades as pessoas abriram as portas de suas casas, oferecendo-lhes abrigo, alimentação ou simplesmente uma xícara de café.

“Eles choram quando partimos. Sei que deixamos um pouco de nós e levamos muito conosco. É uma enorme recompensa. Levamos o ânimo para subir montanhas, enfrentar o vento, a chuva, os motoristas imprudentes e o calor sufocante novamente. Tudo isso para deixar que o inesperado nos surpreenda de novo. Seguimos em frente, pois não há como pedalar para trás”, ressalta André.

Pere, Naiara e Karla. Em BarcelonaO casal passou pela Bélgica, em seguida pela França e chegou ao Caminho de Santiago da Compostela, pelo norte, percorrendo a costa. No caminho, os aventureiros conheceram Pere e Naiara, um casal de Barcelona que se interessou pela história dos brasileiros e fez o convite para passarem o Natal e o Réveillon em sua companhia.

Era agosto e, coincidentemente, o plano era sair da França, cruzar o Marrocos e chegar à Barcelona. Quatro meses e 4.000km depois, Karla e André chegaram ao destino, para passar as festas com os novos amigos. “Passamos as festividades com os pais da Naiara, em Reus, uma cidadezinha bem charmosa ao Sul de Barcelona. Ficamos mais alguns dias com o casal e seguimos viagem, mas não sem antes a Naiara agitar um churrasco com a turma para um último ‘hasta luego!’”, recorda Karla.

Karla pretende produzir um livro de fotos e receitasRegistro de viagem
A jornada não terminará com o retorno do casal para o Brasil. André e Karla tem como projeto publicar os registros feitos por eles durante o caminho.

Inicialmente, serão dois livros fotográficos, um apenas com as fotos feitas com o telefone — que podem ser vistas pela página da rede social www.facebook.com/BikesAndSpices — e outro de fotos feitas com a câmera fotográfica e, possivelmente, alguns textos do fotógrafo.

Além dos livros, os aventureiros planejam também a produção de um documentário, contendo imagens feitas por eles durante a viagem.

Karla, que é nutricionista, pretende produzir um livro de fotos e receitas dos pratos aprendidos. “Eu sempre cozinho, seja no camping, num bungalow que tem uma cozinha. E quando somos convidados a ficar na casa de alguém e o anfitrião cozinha alguma comida típica, pego a receita e faço as fotos” explica a nutricionista.

Dificuldades
As adversidades também estão na lista das experiências vividas pelos aventureiros neste primeiro ano de estrada.

André ficou doente durante a passagem pelo Marrocos e o casal precisou viajar até Tafraoute, uma vila ao sul do país, única opção com mais recursos médicos, caso o fotógrafo precisasse. Faltava 30km para chegarem à vila, mas ventos de aproximadamente 50km/h impediam a viagem. Por sorte, o casal conseguiu carona com o motorista de uma van que passava pela estrada. “Através de mímica o fizemos entender que eu não estava bem e ele nos deu uma carona. No caminho, vimos que seria realmente impossível realizar aquela pedalada”, recorda André.

Karla também passou por momentos críticos em alguns pontos da viagem. “Minha maior dificuldade foi quando tive uma super indisposição durante uma pedalada onde subimos a 1.800 metros de altitude e chegamos num vilarejo do Marrocos, no meio do nada, sem nenhuma estrutura, descansando num quarto de hotel horrível. Não tinha para onde ir. Tinha que melhorar para sair dali o mais rápido possível e ainda pedalar mais dois dias para chegar numa cidade maior e com melhor estrutura”, conta. Na opinião da nutricionista foi a pior noite da viagem e a pior sensação vivida por ela até então.

As experiências vividas por ambos mudaram sua opinião sobre o mundo e as pessoas. Hoje, se recusam a serem chamados de turistas. “Preferimos o termo viajantes, pois há uma enorme diferença entre ambos”, afirma André.

O fotógrafo, que deixou o expediente bancário há cinco anos para fotografar, não pretende voltar à rotina. “A única coisa que eu quero ao retornar é abraçar todos que ficaram quando partimos. Será difícil deixar essa nossa vida atual, que é muito boa, e pretendo continuar assim, viajando. Não com as bicicletas, mas sem dúvida levando-as conosco para onde formos. Pensamos, talvez, em educar nossos filhos pelo menos por dois anos na estrada, conhecendo e brincando com crianças de outras culturas”, comenta.

Karla, que aprendeu a não criar muitas expectativas e a se permitir ser surpreendida pelo novo, afirma não pensar muito no futuro, até porque ainda falta um bom tempo para terminar a viagem.

Acredita, agora, que a vida pode ser muito mais simples. “Rotina de trabalho, só se for com filhos e meu próprio negócio, algo pequeno, colocando em prática algumas receitas que tenho aprendido. Hoje me alegro muito mais com uma chuva que refresca um dia ensolarado, com o sol que esquenta o vento gelado e com a descida, que descansa os músculos já estafados”, conclui.

Para acompanhar o trajeto desses dois desbravadores acesse: www.facebook.com/BikesAndSpices

Revide On-line
Texto: Bruno Silva
Foto: André Cerri e Karla Silva Cerri

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