Dia do Médico: vidas dedicadas ao cuidado
Para marcar a data, celebrada em 18 de outubro, escolhemos contar histórias de médicos de diferentes gerações e especialidades
Em 18 de outubro, foi celebrado o Dia do Médico, profissão voltada ao cuidado com o outro. Para marcar a data e homenagear seus profissionais, narramos nesta edição as trajetórias de Alberto Dabori, João Marcelo Furtado e Felipe Dias Mente, médicos de diferentes gerações e especialidades. Cada um a seu modo revela como a Medicina se constrói entre ciência, escuta e compromisso social. Acompanhe:
ALBERTO DABORI, pediatra
Médicos costumam acompanhar doenças. Alberto Dabori acompanha histórias inteiras. Em mais de cinco décadas de pediatria, ele recebeu recém-nascidos no hospital, cuidou de suas infâncias e adolescências e, anos depois, viu muitos deles retornarem ao consultório como pais e avós. “É muito gratificante, você nem imagina”, diz.
Nascido em São José do Rio Preto, há 83 anos, ele mudou-se para Ribeirão Preto em 1959, com o objetivo de se preparar para o vestibular de Medicina. “Naquela época, as provas de ingresso eram específicas para cada faculdade. Não havia um exame que abrangesse várias instituições”, lembra. Ingressou na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) em 1961 e formou-se em 1966. Na sequência, concluiu residência médica e iniciou a pós-graduação em Fisiologia Respiratória.
O caminho acadêmico parecia encaminhado. Até já havia recebido convite para permanecer na faculdade como professor, mas outra oportunidade definiria sua vida profissional. Em 1968, foi convidado a integrar a equipe de pediatria do Hospital São Lucas, que abriria as portas em janeiro do ano seguinte. Preferiu trocar a carreira docente pela construção de um novo serviço hospitalar. “Sou um dos fundadores [do São Lucas] e um dos primeiros pediatras do hospital”, afirma, orgulhoso.
A escolha o manteria ligado à instituição por quase 50 anos – desligou-se há 15. Foi em consultório, porém, inaugurado no mesmo ano de 1969, que Dabori protagonizou um capítulo pioneiro da Medicina Preventiva em Ribeirão Preto.
No início de sua carreira, o sarampo ainda provocava quadros graves e mortes. Ao acompanhar as novidades divulgadas pela Academia Americana de Pediatria, ele soube que uma vacina contra a doença já estava sendo produzida. Em 1972, obteve autorização da saúde pública para aplicá-la em seus pacientes — duas décadas antes de sua entrada oficial no calendário público. A experiência reforçou uma convicção que orientaria toda a carreira: “É mais fácil prevenir a doença do que tratá-la”.
Em 1992, o pediatra participou dos primeiros passos da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBI). No ano seguinte, inaugurou a Prevent, apontada por ele como a primeira clínica de imunização de Ribeirão Preto. O espaço passou a oferecer vacinas dos calendários público e privado e consolidou sua atuação em duas frentes complementares: a pediatria clínica e a imunização.
A longevidade no consultório permitiu a Dabori testemunhar a sucessão de gerações sob seus cuidados. Muitos pacientes atendidos desde o nascimento hoje levam filhos e netos para serem examinados por ele. “A pediatria é a medicina mais refinada que existe, porque você recebe um bebê com dias de vida e o acompanha em todas as fases, de bebê a criança, na idade escolar, pré-adolescência, adolescência e na vida adulta. Você acompanha o ser humano em diferentes fases da vida”, comenta.
UMA MEDICINA DE VÍNCULOS
Em sua visão, a boa prática começa pelo interesse genuíno no outro. Formação técnica, ética e solidariedade devem caminhar juntas, assim como conhecimentos de psicologia e sociologia. “Não existem duas pessoas iguais. Por isso, cada atendimento pede respeito às diferenças e disposição para compreender a necessidade real do paciente”, observa.
Entre os casos que guarda na memória está o de uma menina de 1 ano de idade levada a diferentes serviços de saúde depois de passar horas chorando e apresentar inchaço na perna. Quando o pai lhe contou o que ocorrera, Dabori suspeitou de picada de cobra antes mesmo de examinar a criança. Impediu uma cirurgia – que envolvia risco de morte da menina –, providenciou soro antiofídico e acompanhou o tratamento no São Lucas. A paciente, picada por uma jararaca, chegou com insuficiências cardíaca e renal, mas sobreviveu. Décadas depois, os dois se reencontraram pelas redes sociais, ela já adulta e mãe. “Foi uma paciente que nunca esqueci. Hoje é avó”, conta.
Atualmente, Dabori mantém uma rotina mais moderada no consultório. Reserva duas manhãs por semana para atividade física e atende no consultório todas as tardes, além das manhãs de três dias. As consultas refletem sua maneira de exercer a medicina: a primeira com um novo paciente pode durar de 1h a 1h30; retornos, entre 30 e 40 minutos. “O tempo que for necessário para ouvir, examinar e construir confiança”, explica.
Também como muitos de sua profissão, não pensa em parar de trabalhar. “Estou me sentindo bem, tenho saúde e minha cabeça funciona normalmente. Enquanto tiver saúde e capacidade para atender, vou continuar”, afirma. Porque, mais do que uma ocupação, a pediatria se tornou sua forma de estar no mundo.
Para marcar o Dia do Médico, Dabori deixa dicas valiosas a jovens médicos que pensam em seguir a mesma especialidade: “A pediatria é um envolvimento com a criança e a família. Como a comunicação da criança é restrita e amadurece com os anos, muito depende do vínculo com os responsáveis. Essa sensibilidade se adquire com o tempo e a experiência prática. Hoje muitos médicos se formam sem interesse em ter consultório, trabalhando em ambulatórios rápidos, onde não se cria vínculo nem histórico”, diz.
JOÃO MARCELO FURTADO, oftalmologista
A objetividade, o senso prático e a sede de conhecimento são as primeiras características ressaltadas em uma conversa com o médico oftalmologista e professor universitário João Gomes Furtado, 48 anos. Já no início da narrativa sobre sua trajetória ele entrega que fazer Medicina não foi um sonho de infância edulcorado pelo exemplo do pai, médico. A influência existiu, sim, a partir de sua observação dele atuando em anamneses – levantamento de informações do paciente, que o menino achou parecido com um “trabalho de detetive” –, mas sua escolha teve mais a ver com ponderações racionais do que com uma idealização infantil.
Nascido em 1978, em Ribeirão Preto, o adolescente João Marcelo escolheu a carreira aos 17 anos. Juntou aquele interesse antigo a dois outros atrativos: o fato de a Medicina exigir aprendizado contínuo e a amplitude da profissão. “Vi como uma vantagem escolher a área ali, mas ter outros seis anos para decidir o que fazer dentro dela”, conta.
Até o quarto ano, pensou em seguir uma especialidade e juntar dinheiro para abrir um consultório, mas os dois últimos – quando entra a prática do atendimento – mudaram seus planos. “Achei as consultas muito longas, pouco dinâmicas e nem sempre resolvíamos o problema do paciente ali”, justifica. Começou, então, a prestar atenção em outras áreas, chegando à oftalmologia. Gostou do fato de a consulta da especialidade ser, normalmente, mais objetiva e visual. “Você olha e já identifica o problema. Achei que meu dia seria mais dinâmico, ou seja, não precisaria ficar 100% do tempo só em clínica. Poderia fazer exame, clínica e cirurgia, por exemplo”, diz.
Após concluir a graduação, em 2002, Furtado fez residência no Hospital das Clínicas da FMRP-USP, entre 2003 e 2006. Encontrou ali uma dinâmica de formação que lhe agradou: ao mesmo tempo que aprendia com os colegas mais experientes, ensinava os mais novos. “Também gostei de ficar boa parte do tempo no HC, vendo casos muito complexos. De novo com aquele desafio intelectual”, comenta. Em 2006, iniciou o doutorado na USP.
Três anos depois, seguia para os Estados Unidos realizar pesquisa na Oregon Health & Science University (OHSU), na cidade de Portland. As viagens profissionais daquele período (2009 a 2012) ampliaram sua percepção sobre a cegueira e a deficiência visual no mundo. O que mais o impressionou não foram doenças raras ou sem tratamento, mas as evitáveis. “Impactou-me ver que a maioria das pessoas que enxergam mal sofrem por falta de acesso a óculos. E nos idosos a maior causa é catarata, que tem diagnóstico e tratamento cirúrgico bem estabelecidos. Então comecei a desenvolver projetos nessa área”, conta.
Começava ali a dedicação de Furtado a projetos de alcance social, nascida a partir de autoquestionamentos cultivados desde 2006 e que o levaram à seguinte conclusão: “Não adianta nada termos tecnologia e pesquisa de ponta se isso não chegar à população”, pensou.
CIÊNCIA COM ALCANCE SOCIAL
De volta ao Brasil em 2012, Furtado e a esposa, a psiquiatra da infância, estabeleceram-se em São Paulo (capital), onde ele participou de um projeto sobre prevalência e causas de cegueira em Parintins, Amazonas. Cerca de um ano e meio depois, foi aprovado em concurso para professor na Medicina da USP Ribeirão. Voltou para “casa” em 2013, e desde então segue vinculado ao Departamento de Oftalmologia e lecionando Metodologia Científica no curso de Fonoaudiologia... mas não só.
Em 2017, estudantes que planejavam um projeto de assistência a populações vulneráveis o convidaram a participar de um projeto de extensão [quando a universidade estende à comunidade o resultado de seu ensino e pesquisas] ao qual Furtado se dedica até hoje. A ideia inicial era atender indígenas na Amazônia, mas faltavam recursos. Então o grupo decidiu começar “perto de casa”, voltando o olhar para populações negligenciadas e menos sujeitas às oscilações do calendário eleitoral: pessoas em situação de rua e moradores de assentamentos rurais.
As primeiras ações ocorreram no assentamento Mário Lago, próximo ao Aeroporto Leite Lopes. O trabalho foi além da oftalmologia. Após ouvir a comunidade, a equipe incorporou a especialidade de Dermatologia, com busca de casos de hanseníase, cuidados em saúde mental e Ginecologia. Já o atendimento à população em situação de rua encontrou no Centro POP, localizado na região da rua Capitão Salomão, uma estrutura mínima para consultas e pesquisa.
Nesses projetos, os participantes recebem os óculos ao final do atendimento, enquanto os pesquisadores coletam dados epidemiológicos. Para os estudantes, a experiência multiplica o aprendizado: em vez de observar poucos fundos de olho ao longo da formação convencional, podem examinar dezenas em um único dia, com retinógrafos portáteis acoplados a smartphones.
No início, a equipe esperava encontrar entre a população de rua sobretudo traumas, lesões provocadas pela radiação ultravioleta ou consequências do uso de drogas. O principal problema revelado, no entanto, era elementar: falta de óculos, consequência da pobreza extrema. Furtado também percebeu que ações anuais isoladas não bastam para quem carrega todos os pertences em uma sacola e pode ter os óculos roubados em pouco tempo. “Precisamos de um sistema contínuo e acolhedor, pois essas pessoas enfrentam preconceito até nos postos de saúde do SUS”, avalia.
Atualmente, a equipe busca soluções para os problemas levantados, que precisam ser testadas na prática. Entre as possibilidades estão o uso da telemedicina, a capacitação de médicos generalistas que já atendem populações vulneráveis e a avaliação de óculos pré-montados (como os vendidos em farmácias) para visão de perto. “Estamos agora planejando a execução do projeto no sistema prisional e desenhando esses testes em cenários de vulnerabilidade para gerar evidências científicas”, descreve o médico e professor.
Para Furtado, o impacto dessas iniciativas ultrapassa o domínio técnico. É uma formação científica e, ao mesmo tempo, humanística – algo a comemorar no Dia do Médico. Pessoalmente, ele celebra o fato de ter construído uma carreira guiada pela mesma curiosidade que chamou sua atenção na infância e de ter encontrado a satisfação que perseguia desde aquela primeira escolha cuidadosa, aos 17 anos. Segue honrando-a até hoje, em suas próprias palavras, “feliz da vida!”.
FELIPE DIAS MENTE, gastrocirurgião
Aos 30 anos, Felipe Dias Mente fala sobre Medicina sem idealizações fáceis. Médico residente em Cirurgia do Aparelho Digestivo (Gastrocirurgia) no HC campus, ele reconhece os limites da profissão, lamenta a precarização do atendimento público em saúde, mas, ainda assim, preserva uma confiança profunda no ato de cuidar.
Natural de Iacanga, cidade com cerca de 10 mil habitantes na região de Bauru (SP), ele cresceu no campo. Com pai engenheiro agrônomo, até os 5 anos de idade viveu em fazenda. Aos 17, mudou-se para Ribeirão Preto para fazer cursinho e, em seguida, tentar uma vaga na FMRP-USP. Entrou em 2016 e formou-se em 2021. Antes de iniciar a residência, serviu durante um ano como médico do Exército, na Base de Aviação de Taubaté. De volta ao Hospital das Clínicas, cursou Cirurgia Geral entre 2023 e 2025 e seguiu para a especialização em Gastrocirurgia, escolha que foi surgindo “no caminho”.
Também em seu caso não houve uma vocação anunciada desde a infância. No Ensino Médio, o adolescente Felipe gostava tanto de História e Língua Portuguesa quanto de Matemática e Biologia. A Medicina apareceu quase como um desafio – o curso mais concorrido, a prova mais difícil. A ausência de narrativa sobre predestinação e as respostas abertas a esta entrevista dão pistas de um jovem médico mais atento às perguntas do que a prática demanda.
Diz que sua compreensão da Medicina mudou com o passar dos anos. A figura quase mítica do “deus de jaleco”, detentor de conhecimento e acima de qualquer crítica, cedeu lugar a outra: a de um profissional que investiga, entrevista, ouve e procura compreender o contexto social, a família, os medos e os limites de cada paciente. “Por isso eu brinco que, profissionalmente, a Medicina me aproxima mais de um jornalista do que de um veterinário”, brinca. “Preciso entrevistar, conhecer a história, a família, a vivência do paciente, o que está por trás de seus sintomas para chegar a um desfecho favorável. E cada paciente é um”, completa.
E sobre lidar com diferentes perfis de pacientes, Felipe compara o médico a um camaleão [réptil que troca de cor conforme a necessidade], capaz de se adaptar às variações humanas. “Senão você padece muito”, justifica. Essa percepção ganhou intensidade durante a residência. “No hospital, o médico entra na vida do paciente em um momento de maior vulnerabilidade. Ali a ciência deixa de ser apenas conhecimento técnico e se transforma em vínculo. Examinar alguém, tocar o paciente ou simplesmente apertar sua mão não serve apenas ao diagnóstico”, diz o cirurgião. Comunica presença e cria confiança.
Felipe ilustra essa convicção descrevendo um atendimento recente. Ao comunicar o diagnóstico de câncer de estômago ao paciente, precisou discutir alternativas para um problema elementar e urgente: ele já não conseguia comer. A solução tecnicamente indicada era uma sonda pelo nariz, mas o doente a considerou “inaceitável”. Cabia então ao médico explicar riscos, negociar possibilidades e respeitar a decisão de quem viveria as consequências dela. Para Felipe, esse encontro condensa uma diferença fundamental: curar nem sempre é possível; cuidar, porém, continua sendo obrigação.
SOBRE A PROFISSÃO...
Felipe vê com preocupação a expansão do número de cursos médicos sem garantia equivalente de qualidade técnica e humana. Também reconhece os problemas estruturais do SUS (Sistema Único de Saúde) – subfinanciamento, sobrecarga e consultas curtas demais para que se estabeleça a conexão que o cuidado exige –, mas ainda assim é um defensor. Afinal, formou-se em uma universidade pública atuando no sistema e por meio dele acompanha pacientes frequentemente pobres, vindos de diferentes regiões do país para se tratar no HC de Ribeirão Preto. “Tudo o que eu sei foi através do SUS”, resume.
Referência nacional, o Hospital das Clínicas oferece recursos e conhecimento, mas também concentra casos difíceis e expectativas extremas. Todos os dias, lembra Felipe, alguém espera ali uma cura. Ao médico cabe explicar que a realidade é mais complexa, dar diretrizes, comunicar notícias dolorosas e permanecer ao lado do paciente mesmo quando não há um desfecho ideal. A autoridade atribuída ao jaleco, em sua visão, não é poder, mas responsabilidade.
Ao comparar as diferentes gerações de médicos com os quais trabalha, percebe que os médicos mais velhos fizeram do trabalho uma parte central da própria identidade e muitos não imaginam abandonar a profissão enquanto ainda puderem exercê-la. Na geração mais jovem, ao contrário, a maioria resiste em fazer da profissão sua vida. “Para a minha geração, o trabalho é só uma partezinha dela”, comenta.
Felipe reconhece ganhos nessa mudança, mas também um conflito: uma profissão atravessada por tanta experiência, sofrimento e afeto talvez não caiba inteiramente no intervalo entre bater o ponto de entrada e o de saída. “Eu, pessoalmente, não sei se tem como ser só uma partezinha da minha vida”, afirma.
Sobre o Dia do Médico, ele diz que nunca escolheria comemorar procedimentos, títulos ou conquistas individuais, mas histórias. Entre tantas que carrega, uma ocorreu no segundo ano da residência em Cirurgia Geral: uma paciente estava nos momentos finais de vida, enquanto o filho viajava de longe para encontrá-la. Quando ele chegou, a mãe já havia morrido. Coube ao residente dar a notícia e a resposta do filho permaneceu com ele: “Muito obrigado por você ter sido o filho dela enquanto eu não estava aqui”.
Naquela frase, Felipe encontrou uma síntese do que a Medicina pode ser quando a cura já não está ao alcance: presença, cuidado e pertencimento. O médico deixa de ocupar o lugar de herói e se torna parte, ainda que por um instante, da história de outra família.