Queda na vacinação reacende risco de doenças em Ribeirão Preto
Cassia Amaro, Silvia Nunes, Rafisa da Silva, Luís Visconde, Karen Morejón, Luzia Passos, Mayra de Oliveira e Fernando Bellissimo

Queda na vacinação reacende risco de doenças em Ribeirão Preto

Entre avanços históricos e a ameaça da desinformação, Ribeirão Preto enfrenta o desafio de manter a proteção coletiva

Ao longo do último século, poucas estratégias de saúde pública foram tão eficazes quanto a vacinação. Capazes de evitar surtos, internações e mortes, as vacinas construíram uma espécie de proteção invisível que, justamente por funcionar, muitas vezes passa despercebida.

 

Em Ribeirão Preto, esse “escudo coletivo” resiste, mas começa a apresentar fissuras. Segundo a subsecretária de Vigilância em Saúde, Luzia Márcia Romanholi Passos, a lógica é simples e, ao mesmo tempo, delicada. “Quando conseguimos vacinar mais de 90% da população, criamos uma barreira que impede a circulação de vírus e bactérias. Isso protege inclusive quem não pode se vacinar”, explica.

 

Esse conceito, conhecido como imunidade de rebanho, é o que mantém doenças perigosas sob controle, mas ele depende de um pacto coletivo que, nos últimos anos, vem sendo colocado à prova. A queda na cobertura vacinal não é apenas um dado estatístico, mas um risco concreto.

 

Doenças como o sarampo, que já haviam sido eliminadas no Brasil, voltaram a circular nos últimos anos. A poliomielite, erradicada no país desde a década de 1980, também preocupa. “Com coberturas mais baixas, aumenta o risco de reintrodução dessas doenças e de surtos”, alerta Luzia.

 

Hoje, o cenário em Ribeirão Preto está longe do ideal. Embora algumas vacinas do primeiro ano de vida ainda alcancem bons índices, a maioria permanece abaixo da meta de 95% recomendada por órgãos como o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

 

E os sinais de alerta vão além: a vacinação contra influenza, por exemplo, tem ficado abaixo de 60% entre grupos prioritários. A cobertura da vacina contra HPV também preocupa, assim como a baixa adesão à segunda dose da vacina contra dengue em adolescentes.

 

HESITAÇÃO: O NOVO DESAFIO

 

Houve um período da história em que o principal obstáculo era o acesso. Hoje, o problema é o que agentes de saúde vêm denominando “hesitação vacinal”.
De acordo com a coordenadora do Programa Municipal de Imunizações, Mayra Fernanda de Oliveira, o fenômeno não significa necessariamente rejeição total às vacinas, mas um adiamento constante, decisões seletivas e dúvidas recorrentes. “Frases como ‘vou tomar depois’ ou ‘prefiro esperar mais pessoas tomarem’ se tornaram comuns”, relata.

 

A raiz desse comportamento é multifatorial. Envolve desde experiências negativas em serviços de saúde até crenças culturais, mas, principalmente, a desinformação. A chamada “infodemia”, caracterizada pelo excesso de informações, muitas vezes contraditórias, tem dificultado a identificação do que é confiável. “As pessoas chegam com medo. Acham que a vacina pode causar a doença, que sobrecarrega o organismo ou até que pode gerar problemas futuros”, explica Mayra.

 

Na prática, isso se traduz em carteiras de vacinação incompletas, baixa adesão em campanhas e salas de vacinação vazias. Um cenário que, segundo ela, precisa mudar.

 

IMPACTO COLETIVO


Para o infectologista Fernando Belíssimo Rodrigues, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto, há um fator curioso por trás da queda na adesão: o próprio sucesso das vacinas. “Quando uma doença deixa de circular, as pessoas passam a subestimar o risco, mas isso não significa que ela deixou de existir.”

 

Ele lembra que doenças altamente transmissíveis, como o sarampo, podem se espalhar rapidamente quando encontram populações com baixa cobertura. “Com índices elevados [de cobertura], o vírus não encontra espaço para circular. Com índices baixos, encontra facilmente quem está vulnerável”, afirma.

Além disso, há um novo componente nesse cenário: a profissionalização da desinformação. “Existe uma indústria lucrativa por trás da disseminação de informações falsas sobre vacinas”, declara.

 

Embora a decisão de se vacinar pareça individual, seus efeitos são coletivos. A queda na cobertura vacinal pode levar ao aumento de casos graves, internações e até mortes, especialmente entre crianças, idosos e pessoas imunossuprimidas. “Vacinar é um ato de responsabilidade social”, reforça Luzia. “Protege quem toma a vacina e quem está ao redor.”

 

Os números mostram o impacto dessa estratégia: estima-se que, no mundo, a vacinação evite entre 4,5 e 5 milhões de mortes por ano. Um número que poderia ser ainda maior com coberturas ideais.

 

Diante desse cenário, o principal desafio não é desenvolver novas vacinas, mas recuperar a confiança nas que já existem.

 

A estratégia passa por comunicação clara, combate às fake news e aproximação com a população. Em Ribeirão Preto, isso inclui campanhas em diferentes canais, ações em escolas e o trabalho contínuo das equipes de atenção básica.

 

Para Mayra, o caminho também passa pela escuta. “As dúvidas são legítimas. O que precisamos é acolher, explicar e construir confiança”, comenta. A mensagem, no fim das contas, é simples, mas urgente: vacinar significa proteger vidas.

 


COMO TUDO COMEÇOU 
A vacinação tem origem em práticas antigas de variolização na China e no Império Otomano, que buscavam provocar formas leves da varíola. O salto científico ocorreu em 1796, quando Edward Jenner inoculou material da varíola bovina em um menino e comprovou a proteção contra a doença humana, criando a primeira vacina. No século 19, Louis Pasteur consolidou a teoria germinal e desenvolveu vacinas a partir de microrganismos atenuados, ampliando o método para outras doenças. Já no século 20, campanhas globais coordenadas pela Organização Mundial da Saúde levaram à erradicação da varíola em 1980. A vacinação evoluiu da observação empírica à ciência experimental e à inovação tecnológica, tornando-se uma das maiores conquistas da saúde pública, sendo responsável por salvar milhões de vidas ao longo da história.


NO BRASIL
A vacinação no Brasil começou no início do século 19, com a chegada da vacina contra a varíola, trazida pela expedição de Francisco Javier de Balmis. No começo, a prática era limitada. A partir de 1904, ganhou força como política pública com Oswaldo Cruz liderando campanhas obrigatórias no Rio de Janeiro, o que desencadeou a Revolta da Vacina. A consolidação da vacinação foi em 1973, com a criação do Programa Nacional de Imunizações, que estrutura campanhas em massa e garante acesso gratuito pelo SUS. Hoje, o Brasil oferece mais de 20 vacinas e distribuiu mais de 270 milhões de doses em 2024.

                                              

 

 

Patrimônio nacional
“As vacinas representam um dos maiores avanços da humanidade. Desde a primeira vacinação contra a varíola, elas evitam sofrimento e morte de milhões de pessoas. No Brasil, tiveram papel fundamental na redução da mortalidade infantil e no aumento da expectativa de vida. Doenças que antes eram comuns, como o sarampo, hoje são controladas. A poliomielite foi erradicada no país graças aos Dias Nacionais de Imunização, que disseminaram para toda população a importância das vacinas. E seguimos avançando com vacinas que previnem meningite, pneumonias, hepatites e outras infecções graves. Temos no Brasil um dos maiores programas de imunização do mundo, gratuito e acessível. Somos afortunados com essa proteção desde antes do nascimento até o final da vida, algo que não acontece em outros países do mundo.”
Dra. Silvia Nunes Szente Fonseca, Hospital Beneficência Portuguesa


Desinformação
“Preocupante a onda de desinformação que tenta desacreditar as vacinas. Esse movimento tem produzido efeitos muito negativos. Na prática, vemos que pessoas que deixam de se vacinar acabam adoecendo. Muitas chegam às unidades com quadros que poderiam ter sido evitados e, em casos mais graves, precisam de internação. A não vacinação contra influenza, por exemplo, frequentemente evolui para pneumonia e ocupação de leitos que poderiam estar disponíveis para outras necessidades. Vacinar-se não é apenas uma escolha individual, mas uma responsabilidade coletiva. Abrir mão da vacina é um risco que não precisamos correr.”
Cássia Amaro Batista de Santana, Hospital Santa Lydia

 

Barreira invisível
“Como infectologista, vejo diariamente o impacto das vacinas na redução de casos graves, internações e mortes que, no passado, causavam grande sofrimento. As vacinas são uma barreira de proteção coletiva. Quanto mais pessoas vacinadas, menor a chance de uma doença se disseminar e isso é importante para proteger os mais vulneráveis – crianças pequenas, idosos e pessoas com doenças crônicas. Importante ressaltar que as vacinas passam por rigorosos testes de segurança e são constantemente monitoradas. Os benefícios são muito maiores do que qualquer risco. Vacinar-se é um ato de cuidado coletivo. Vacinação salva vidas, é essencial para o presente e futuro de todos.”
Rafisa Angélica Lucas da Silva, Santa Casa de Ribeirão Preto

Pacto coletivo
“Vacinas devem ser compreendidas como um pacto coletivo pela sobrevivência da nossa espécie. O Brasil tem uma política vacinal exemplar, mas temos o observado aumento da hesitação vacinal e, com isso, o retorno de doenças antes controladas, como sarampo e coqueluche. Ano passado, por exemplo, mesmo diante do número alarmante de casos de dengue, menos de 30% da população alvo buscou vacinar-se. Urge reconstruirmos a confiança da população na política de imunização e proteger o indivíduo e a comunidade.”
Luís Felipe Visconde, Hospital São Lucas

Vacinas para todos
“Precisamos lembrar que pessoas que se encontram em estados de imunossupressão temporária ou permanente, como pacientes vivendo com HIV, pacientes oncológicos, pacientes em uso de drogas imunossupressoras e pacientes asplênicos (que não tem o baço) necessitam receber vacinas específicas, como, por exemplo, pneumocócicas, meningocócicas e HPV, entre outras. Várias vacinas estão disponíveis no CRIE (Centro de Referência de Imunobiológicos Especiais), que está situado dentro do HC-FMRP. Também podem ser solicitadas via posto de saúde. Algumas vacinas podem ser encontradas na rede privada, como vacina contra o herpes zoster e vírus sincicial respiratório. É muito importante que esse assunto seja abordado durante as consultas, para que o paciente seja adequadamente orientado quanto às imunizações necessárias para sua condição clínica.”
Karen Mirna Loro Morejón, Hospital Unimed

 


De geração em geração
“Todo ano a gente toma vacina da gripe. Vacinar-se é um hábito que minha mãe me ensinou, eu repassei para meus filhos e eles para meus netos. Respeito quem não quer tomar, mas eu acho que devo”
João Domingos Caria Nogueira, representante comercial


Melhor prevenir
“Tomamos a vacina da gripe todos os anos. Isso tem mais de dez anos. Tem anos que parece que funciona melhor e já teve vez de eu pegar uma gripe horrorosa, mesmo tendo tomado a vacina. E tem anos que eu não pego nem um resfriado.”
Maria Regina Chagas Marques Nogueira, aposentada

Para a vida
“A Liz tem três anos e eu a trouxe para vacinar porque, com tanta influenza por aí, é muito importante proteger, ainda mais agora, que começa o período de gripe. Ela está com as vacinas todas em dia e sempre trazemos nas campanhas. Nós também estamos com todas em dia. Eu acho que cada um sabe o que faz, mas sendo responsável por ela, acho importante fazê-la tomar e continuar com esse pensamento de que é importante para a vida.”
Melissa Vieira Gomes, bancária

Falta informação
“Nosso filho de 3 anos já teve um probleminha anterior com vírus sincicial, ligado a problema respiratório, então a vacina da gripe para a gente é muito importante. Tudo o que envolve o sistema respiratório dele, a gente preconiza fazer dentro das datas certinhas, para ele não ter problema, porque o vírus da gripe é um dos causadores que desencadeiam a doença. Acho que falta um pouco de informação a quem não vacina, porque é superimportante. Não podemos deixar de vacinar nossos filhos.”
Giuliano Silvério da Silva, funcionário público estadual

 


Foto: Revide

Compartilhar: