Lousa de algoritmos

Lousa de algoritmos

Escolas e professores testam usos da inteligência artificial em sala de aula, enquanto o debate sobre eficiência, ética e a necessidade de formação específica ganha espaço na rede de ensino

Os laboratórios de inovação das universidades e as salas de aula do ensino básico parecem hoje habitadas por duas espécies de código: professores que trazem para o quadro, físico ou digital, décadas de prática, exercícios corrigidos à mão e uma pedagogia cimentada em presença; e algoritmos que prometem acelerar correções, criar materiais sob demanda, mapear lacunas de aprendizagem e, em alguns casos, conversar com alunos como se fossem tutores. Entre esses polos há um território híbrido, ruidoso e em transformação: a escola que tenta aprender a usar a ferramenta mais potente que já chegou ao cotidiano pedagógico sem perder sua função humana.


Não é exagero dizer que o debate deixou a sala de professores e entrou nos fóruns internacionais de políticas educacionais. Organismos como a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) vêm oferecendo orientações para que a Inteligência Artificial (IA) sirva aos objetivos de educação e não o contrário, enquanto organismos de análise de políticas pedem um redesenho da formação docente.


“O aluno nasce conectado. O professor, nem sempre”, diz Gabriel Bazo, professor e coordenador na Barão de Mauá. “A maioria é, sim, aberta; vejo pouca resistência quanto ao uso. A desconfiança, acredito, é maior. Temos que descolar os termos. Aceitação e confiança não são sinônimos.” 


Os profissionais ouvidos pela reportagem são unânimes em afirmar que receptividade existe, mas a curva de confiança e de compreensão técnica é desigual.


Gustavo Bueno, coordenador pedagógico da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) Ribeirão Preto, também encontra curiosidade: “a maior parte dos professores e dos alunos está muito curiosa e muito disposta a utilizar essas novas inteligências, mas elas devem ser usadas com muita responsabilidade e cuidado.” 


Usar IA significa tomar decisões micro e macro sobre privacidade, autoria, avaliação e transparência, tarefas que muitas equipes gestoras ainda estão aprendendo a sistematizar. Seu uso sem mediação pode virar uma substituição simbólica do esforço cognitivo. “O problema está no modo de utilização. Muitas vezes a tecnologia é explorada de forma superficial, como um mecanismo de perguntas e respostas. A mediação do professor é fundamental e jamais será substituída pela IA”, acredita o professor do Moura Lacerda Vitor Queiroz Santos.


Para além do receio, há curiosidade técnica. Lucas Baggio Figueira, da Fatec (Faculdade de Tecnologia), enfatiza a vantagem operacional: “várias rotinas operacionais podem ser cumpridas pelas IAs — sumarização, criação de conteúdo, auxílio na correção — o que libera o professor para tarefas de mediação e análise crítica.” 


A economia de tempo pode ser bem usada, desde que não transforme o professor em revisor de saída automática.

 

Afinal, quais usos da IA merecem ser incentivados e quais exigem protocolos? 


Há convergência entre os profissionais, mas também há alertas. Produzir materiais é hoje a aplicação mais difundida. “A IA já atua na preparação da aula, em produção de textos, slides, infográficos, quizzes, e em disciplinas como Direção de Arte e Design os softwares que incorporam IA viraram rotina”, conta Gabriel Bazo. Em ciência da computação, ele lembra, o uso é ainda mais específico: “não mais como chat, mas por meio de agentes de codificação que auxiliam o desenvolvimento de programas.” Em instituições que cultivam inovação docente, isso virou prática formal: fóruns, grupos de estudo e projetos de extensão onde se compartilha o que funcionou. Possibilidades que, se bem implementadas, podem reduzir as defasagens.


Mas há dilemas. “Estamos criando um protocolo para o uso de IAs, de modo que o trabalho indique se parte dele foi feito com IA, qual ferramenta e como”, adianta Bazo. A transparência aparece aqui como antídoto contra plágio e falseamento de autoria. “Se eu gerei aquele conteúdo, a propriedade dele é minha? Em geral, acredito que não”, acrescenta. 


Outro ponto delicado é a dependência. Vitor Santos formula explica que, ao delegar escrita e resolução à máquina, o estudante perde repertório linguístico e ferramentas cognitivas essenciais à formação. 

 

Cursos e protocolos não bastam


Recentemente, o Conselho Nacional de Educação colocou a IA na pauta, discutindo a entrada do tema na formação inicial de professores, e o Ministério da Educação afirma promover seminários e cursos para profissionais da rede. Essas iniciativas, dizem especialistas, são importantes para evitar que a adição de tecnologia se repita como um modismo sem base formativa. 


Mas pulverizar cursos e protocolos não basta. A adoção responsável também pede ferramentas de auditoria, práticas de governança de dados e padrões para proteção de privacidade, sob pena de escolas se tornarem pontos de coleta de dados vulneráveis. A literatura técnica recomenda auditorias independentes de algoritmos e transparência das bases que alimentam modelos educacionais, justamente para impedir que vieses ou práticas comerciais comprometam o processo educativo. “Os professores devem ser também pesquisadores e atuantes”, afirma Gustavo Bueno.


“Não há melhor maneira de entender uma IA do que interagindo com ela e trocando informações com usuários mais experientes”, afirma Lucas Baggio. Essa abordagem é também a recomendação de relatórios internacionais que pedem investimento massivo em formação, não apenas em cursos técnicos, mas em atualização pedagógica que integre ética, engenharia de prompt e avaliação crítica.

 

Recursos já à disposição


Um exemplo citado, em sala de aula, é o uso de plataformas baseadas em algoritmos de recomendação, capazes de indicar conteúdos personalizados de acordo com o ritmo de cada estudante. 
Outro recurso adotado é a análise de dados de desempenho, que permite ao professor identificar lacunas de conhecimento e ajustar a abordagem de forma quase imediata. Essas práticas, defendem professores e coordenadores ouvidos pela reportagem, reforçam o papel do diálogo e da interação. A tecnologia organiza e sugere caminhos, mas a construção do sentido continua acontecendo na relação entre professor e aluno.


“Nós fizemos uma simulação do teste, onde um grupo de alunos fazia perguntas e em uma outra sala, outro grupo de alunos respondia essas perguntas e o chat GPT também. Então, depois os alunos recebiam as respostas sem saber qual era de IA e qual era humana. O desafio foi diferenciá-las. O que a gente percebeu é que quando eram assuntos do cotidiano, os jovens identificavam com facilidade e os professores não. Mas, quando as respostas eram mais técnicas, sobre conteúdo das disciplinas, os alunos tinham dificuldade de identificar quem era o chat GPT e quem era o ser humano, já os professores identificavam com facilidade”, conta Gustavo Bueno.

 

Veredito


Sobre o futuro, Lucas acredita que “talvez possamos ter uma sala de aula dinâmica onde os estudantes tenham acesso ao conteúdo e o professor atue para consolidar esse conhecimento”. “Não acredito em substituição do professor, mas em mudança do formato”, adianta.


O veredito prático é que a inteligência artificial já entrou nas rotinas escolares. A pergunta urgente não é “se usá-la”, mas “como e sob que regras”. E, mais do que isso, requer que as escolas e universidades repensem a formação dos professores para que o acesso à tecnologia resulte em aprendizagem genuína e não em uma ilusão de produtividade. 


“Tudo ainda é muito novo, e estamos, de maneira geral, em um processo de descoberta e teste do que funciona bem ou não”, arremata Gabriel. 


Foto: pch.vector para a Freepik (imagem ilustrativa)

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