Campeã histórica

Campeã histórica

Maratonista Maria Zeferina Baldaia encerra sua carreira na Corrida Internacional de São Silvestre e terá trajetória vitoriosa imortalizada no documentário “Zeferina”

No último dia do ano passado, no sábado, 31 de dezembro, a maratonista Maria Zeferina Baldaia encerrou sua carreira profissional após disputar a 97ª edição da Corrida Internacional de São Silvestre, prova na qual foi campeã 21 anos antes, em 2001, tornando-se a terceira brasileira da história a cruzar a linha da chegada em primeiro lugar. Aos 50 anos, a atleta, natural de Nova Módica, em Minas Gerais, e radicada em Sertãozinho, na Região Metropolitana de Ribeirão Preto, construiu uma trajetória vitoriosa.


Além da conquista da 77ª São Silvestre, em 2001, Maria Zeferina também foi campeã da Volta Internacional da Pampulha no mesmo ano. No ano seguinte, 2002, a corredora conquistou o ouro na Corrida de Reis, em Cuiabá, tornando-se a recordista da prova com o tempo de 34 minutos e 12 segundos. E tem mais. Sagrou-se campeã da Meia Maratona do Rio de Janeiro e da Maratona Internacional de São Paulo, em 2008.


Segundo Zeferina, sua inspiração é a portuguesa Rosa Mota, que venceu a São Silvestre seis vezes consecutivas, entre 1981 e 1986.

 

“Meus pais vieram para Sertãozinho para trabalhar no corte da cana, para sustentar a família. Com 12 anos iniciei minha carreira no esporte. Participei da minha primeira corrida na Igreja do Senhor Bom Jesus da Lapa, no bairro onde morava. Corria descalça e foi assim que tudo começou. Sou de uma família de nove irmãos, então, naquela época, as dificuldades eram muito grandes, mas tínhamos sempre em mente que poderíamos realizar nossos sonhos e o meu era de um dia poder representar Sertãozinho e nosso país na São Silvestre”, conta a maratonista.


A esportista também destaca a persistência na busca pelos seus sonhos como legado de sua trajetória profissional.

 

“Depois de 15 anos, com muita luta e muita dificuldade, consegui realizar meu grande sonho. Em 2001, fui campeã da São Silvestre e minha vida mudou completamente, pois o esporte transforma, forma um cidadão e muda a vida das pessoas. Só tenho gratidão a Deus por tudo que aconteceu na minha vida. Se não tivesse acreditado e tivesse desistido, nada disso seria possível. Hoje, sou a prova viva de que tudo é possível quando a pessoa tem fé, acredita e vai atrás. A mensagem que deixo é de que não desistam de seus sonhos e objetivos”, declara.

 

Legado esportivo


A atleta que aprendeu a correr nos canaviais de Sertãozinho encerra sua carreira no atletismo profissional deixando um legado no esporte e uma história inspiradora de superação, que será imortalizada no documentário “Zeferina”, da Grattitude Filmes. O longa-metragem, com lançamento previsto para 2024, conta com a produção dos diretores Samuel Prisco e Lucas Bretas. Também roteirista, Bretas explica que a missão do documentário é contar a história de luta e de conquistas da atleta, que desafiou todas as probabilidades e se tornou uma referência.

 

“A Grattitude Films foi idealizada e concebida para contar boas e inspiradoras histórias. A ideia do documentário é mostrar que o ser humano é muito mais forte do que ele mesmo imagina e que nossas dúvidas, medos e inseguranças frequentemente nos pregam peças e nos impõem limitações que quase sempre só existem dentro das nossas cabeças. Maria era uma mulher, negra, pobre, cortadora de cana, que treinava e corria descalça. Ela desafiou todas as probabilidades de sucesso e hoje, 50 anos depois, é uma referência”, destaca.


As captações externas para o filme tiveram início em fevereiro de 2022 e seguiram até dezembro, quando a maratonista disputou sua última São Silvestre.

 

“Conseguimos captar a essência do que é a São Silvestre e, especialmente, o que essa corrida significa para a Maria. Foi nessa prova, em 2001, que o nome dela foi catapultado de forma definitiva para história do atletismo brasileiro. As estrangeiras, historicamente, dominam a São Silvestre. A última vitória de uma brasileira foi em 2006, para se ter uma ideia. E, em 2001, a Maria tinha o enorme desafio de enfrentar uma queniana que vinha simplesmente varrendo todas as provas que participava naquele ano. Margaret Okayo era a favorita absoluta. Tinha-se a impressão, ou até mesmo a certeza de que a luta das competidoras seria apenas do segundo lugar para trás. Mas aquele dia, 31 de dezembro de 2001, por uma série de fatores e detalhes, estava reservado para ser da Zeferina, e nós vamos contar tudo isso no filme”, adianta Bretas.


A produção está atualmente em fase de captação de entrevistas e pesquisa por arquivos de imagens para reconstruir essa jornada. “Contar meio século dentro de um filme exige um trabalho minucioso de reconstrução dos fatos a partir das memórias e das lembranças dos personagens. É como montar um quebra-cabeça com as peças que cada uma das pessoas vai te oferecendo ao longo da produção”, completa o produtor. 


Fotos: Divulgação

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