PLANEJAMENTO ESCOLAR EM TEMPOS DE PANDEMIA: e agora?,Planejamento, professores, escola

PLANEJAMENTO ESCOLAR EM TEMPOS DE PANDEMIA: e agora?

                                                                         Paula Rezende Hautz Dias 

Elaine Assolini

E eis que finalmente chegamos em 2021! Suportamos o furacão de um ano absurdamente insano que jamais, nem em nossos piores pesadelos, pensamos em enfrentar.  Mas, infelizmente, tem-se a falsa impressão de que ao iniciarmos um ano novo deixaríamos tudo para trás, inclusive a pandemia. Ledo engano!  Embora estejamos com a vacina pronta, muitas vidas ainda serão ceifadas! O homem acostumou-se com este “estado pandêmico” no qual nos encontramos. E nossa luta é para não “morrermos na praia”, pois sobrevivemos bravamente até aqui e necessitamos continuar. 

Enquanto as pessoas não tiverem consciência de que precisam agir com responsabilidade e fazer sua parte para conter a pandemia, não teremos nenhuma garantia de sucesso. Estamos em meio à segunda onda de contaminação pelo Coronavírus, e até já apareceu uma outra cepa do Sars-coV-2, para nossos temores.

As pessoas celebraram o Natal e fizeram confraternizações presenciais, expondo seus entes idosos. Fica claro o imediatismo egoísta que assola o mundo. Não somos apenas figurantes neste drama, mas os protagonistas, e, assim, ficará muito difícil vencermos com êxito essa batalha. Estamos em uma guerra, na qual todos os dias fazemos a contagem das baixas. Movimentos negacionistas ainda acontecem em pleno século XXI, deixando o fardo mais árduo para os poucos pensantes.

Mas o que isto tudo tem a ver com Planejamento Escolar? Tudo! Sem sermos repetitivos, sabemos que todo mundo se reinventou e aprendeu mais tecnologia do que aprenderíamos em uns dez anos. E falando especificamente sobre Educação, as escolas, seus docentes, estudantes e suas famílias fizeram muito nesse ano que a duras penas findamos. Professores e alunos se adaptaram às aulas remotas (onde foram possíveis); pais, de um dia para o outro, viram-se como professores de seus filhos. Assumiram outras posições de sujeitos: posições estas que não foram por opção, mas sim as únicas alternativas plausíveis (reiteramos: onde foi possível). Mas... tudo isso surtiu efeito? Então... É justamente a busca por essa resposta que nos levará a pensar em qual Planejamento devemos e temos condições de fazer em nossas escolas. E ainda mais preocupante é talvez termos algumas certezas: certeza de que muitas de nossas crianças não conseguiram aprender! Certeza de que o abismo na Educação entre os mais abastados e os menos favorecidos se acentuou exponencialmente! No entanto, nós, enquanto educadores, não podemos desistir jamais de nossa missão de educar e lutar pela equidade educacional. E agora, nesse cenário caótico, tudo se torna muitíssimo mais desafiador!

Durante todo este período no qual crianças e professores estiveram distantes fisicamente, acontecia uma batalha invisível e incansável, utilizando-se todos os esforços na tentativa de não se deixar nenhum aluno para trás. Professores fizeram até campanhas e doaram celulares a crianças carentes, pois, muitas delas somente podiam acompanhar as lições virtuais quando seus pais chegavam em casa à noite, com o aparelho. Sendo assim, muitos docentes atendiam seus alunos fora dos horários de suas aulas. Inúmeras pessoas não sabem disso. Não sabem também o quanto esses educadores tiveram que ser fortes mentalmente, sabendo que muitos estudantes, fatidicamente ficariam aquém do esperado para um ano letivo. Ou, na mesma proporção, fortes na superação pelas perdas causadas pela doença, ou da própria recuperação por terem sidos infectados pelo vírus. Relevante também salientar que as famílias tiveram que lidar com suas perdas, e, com isso, quantos pequenos ficaram desamparados econômica e emocionalmente.

Voltando ao tema desse artigo, que é dialogar sobre Planejamento Escolar em tempos de Pandemia, devemos antes discorrer sobre o que é um bom planejamento. Sabemos que para obtermos sucesso em atingir qualquer objetivo em nossas vidas, planejar é fundamental! Traçar metas e estratégias, calcular riscos, fazer ponderações, tudo isso faz parte de um conjunto de ações basilares para se realizar projetos bem-sucedidos. Não é diferente com a Educação. Planejar um ano letivo produtivo junto aos docentes torna-se imperativo na busca de uma educação de qualidade e fundamentalmente justa para nossos alunos, sujeitos aprendentes de nosso mundo contemporâneo.

Para falarmos com propriedade sobre o assunto, recorremos a Libâneo, em “O Planejamento Escolar” (2013).

O planejamento é um processo de racionalização, organização e coordenação da ação docente, articulando a atividade escolar e a problemática do contexto social. A escola, os professores e alunos são integrantes da dinâmica das relações sociais; tudo o que acontece no meio escolar está atravessado por influências econômicas, políticas e culturais que caracterizam a sociedade de classe. Isso significa que os elementos do planejamento escolar – objetivos-conteúdos-métodos – estão recheados de implicações sociais, têm um significado genuinamente político. Por essa razão o planejamento é uma atividade de reflexão acerca das nossas opções e ações; se não pensarmos didaticamente sobre o rumo que devemos dar ao nosso trabalho, ficaremos entregues aos rumos estabelecidos pelos interesses dominantes da sociedade.

Partindo das reflexões do autor, hoje, mais do que nunca, devemos levar em conta a veracidade do fato da atividade escolar estar diretamente ligada à problemática do contexto social. Se em uma  Rede Pública de Educação temos vários contextos e peculiaridades de acordo com cada unidade escolar, a Equipe Gestora, e, em especial, o Coordenador Pedagógico devem estar em absoluta sintonia entre eles mesmos, secretaria, docentes, comunidade e particularidades essenciais de sua Unidade Escolar, pois são imprescindíveis ações em conjunto, nas quais estes “braços” de  trabalho são a própria extensão da Educação em si.

Quando se trabalha o planejamento a partir de reflexões sobre nossas opções e ações, nos permitimos, de algum modo, não ficarmos reféns dos interesses e ideologias dominantes. A ação, reflexão e ação novamente, abrem as possibilidades de nos ressignificarmos e assim traçarmos novas estratégias que nos levem ao alcance dos objetivos elencados, sempre no sentido de formarmos sujeitos críticos, ou seja, cidadãos que conheçam sua história e saibam da importância de suas próprias marcas nela, e que estão neste mundo em busca de transformações que levem a uma sociedade melhor e mais justa.

Mas, evidenciando-se o planejamento escolar em tempos de pandemia, como recomeçar? Sim, recomeçar, pois, muito do projetado para 2020 não aconteceu pedagogicamente, tendo como destaque o fato de que a grande maioria dos planos foram emergenciais. E, ainda pior: grave é a situação para alunos que não tiveram interação por conta de situações econômicas, sociais e políticas. Trazê-los de volta e recuperarmos a aprendizagem desses é crucial e urgente.

Cientes de todo esse contexto, que possivelmente é fato em todo o país, o que priorizar? Este é um questionamento de grande relevância e dificuldade de respostas!

Julgamos pertinente, como ponto primordial a se considerar e tratar, o bem-estar docente, preocupação justa e legítima da professora Dra. Elaine Assolini, que sempre nos faz lembrar da importância e urgência de atentarmos a essa questão. Precisamos nutri-los e ouvi-los, e, mais do que nunca: agora! E, ainda, nas palavras de Edgar Morin, que falou à revista Prosa Verso e Arte: “É preciso educar os educadores!”. Não somente no sentido acadêmico e conteudista, mas enquanto potenciais sujeitos responsáveis que são pela esperança da “Ensinagem Transformadora”! Esse sujeito-professor, enquanto nesta posição, saberia nos dar muitas respostas que a Educação procura, pois, mais do que ninguém, ELE é o elo com o estudante e inspirador de sua identidade, principalmente quando esta criança é acometida pelo fenômeno da transferência (psicanálise) e, então, torna-se capaz de ser um sujeito-autor.

Dando continuidade à nossa logística de planejamento, dever-se-á fazer um levantamento minucioso de todo o aproveitamento dos alunos, tendo-se muito cuidado para não se misturar com nenhum tipo de Avaliação Quantitativa, pois sabemos que, principalmente neste momento conturbado no qual estamos, mensurar torna-se algo perigoso e ineficaz. É prudente que este levantamento seja baseado na ordem de qualidade do que fora ofertado e aproveitado. Tanto o é, que algumas escolas optaram por filtrar essa qualidade a partir da interação apresentada por seus alunos. O que acabou gerando dois caminhos trilhados para se corrigir e sanar as falhas que permaneceram: Crianças que interagiram e não produziram conhecimentos de forma satisfatória e crianças que não interagiram por conta das inúmeras dificuldades já listadas neste artigo.

Com os resultados dessa pesquisa em mãos e utilizando-se dados do ano inteiro, devemos então traçar um planejamento que atenda à escola como um todo, mas, obviamente, levando-se em conta e dispensando atenção prioritária a cada detalhe pedagógico e também estrutural, pois, se a unidade escolar tem falhas físicas que não permitirão a execução plena do plano, urge saná-las. Caberá então a intervenção da Direção da Escola junto à sua Secretaria.

O planejamento deverá ser a ponderação para ações plausíveis resultantes de conclusões reais advindas de um comparativo entre o que fora produzido e, especificamente neste ano pandêmico, quais foram as competências e habilidades alcançadas e com que qualidade. Será prerrogativa do Coordenador agir com bastante parcimônia para não correr o risco de se frustrar a equipe.

O currículo adotado deverá ser o norteador deste trabalho, mas não apenas no sentido de quadros curriculares a serem cumpridos, e sim, lutando-se para a maior realização da qual ele é capaz de proporcionar: tornar os sujeitos-alunos transformadores de si mesmos e de suas próprias realidades.

Objetivos deverão ser traçados e transformados em Planos de Ações. Evidencia-se aí o PPP (projeto-político-pedagógico) da escola. Este documento é a ferramenta viva que tem a capacidade nata de levar uma escola ao sucesso ou ao fracasso. Sendo assim, é muito relevante ressaltarmos que estamos falando de um compilado de ações que jamais poderiam ficar “engavetadas”.

 Segundo Celso dos S. Vasconcellos (2002),

O Projeto Político-Pedagógico (ou Projeto Educativo) é o plano global da instituição. Pode ser entendido como a sistematização, nunca definitiva, de um processo de Planejamento Participativo, que se aperfeiçoa e se concretiza na caminhada, que define claramente o tipo de ação educativa que se quer realizar. É um instrumento teórico-metodológico para a intervenção e mudança da realidade. É um elemento de organização e integração da atividade prática da instituição neste processo de transformação.

Nesse sentido, nas palavras do autor, podemos inferir que essa transformação é libertadora de muitas coisas, inclusive, da alienação que sabemos existir ideologicamente em nossa sociedade. E nunca essa ideologia foi tão fortemente escancarada como agora, nesta pandemia. Ainda cabe a nós, educadores, sermos o próprio alicerce de nossas crianças, tornando possível que não se percam enquanto sujeitos do direito de aprender.

Nesse período pelo qual passamos e nos reinventamos, conforme já mencionado no início deste documento, devemos “tocar em outra ferida aberta”: nem todo docente teve condições de estar equipado tecnologicamente para atender às demandas atípicas do ano. Ou seja: alguns professores não puderam desempenhar seus papéis de acordo com o conjecturado. Pois, às vezes, eram problemas de conexão, falta de dados móveis e, em muitas ocasiões, seus aparelhos não eram modernos o suficiente para as aulas remotas. Isso também foi um transtorno que deverá ser sanado junto a nossos alunos. Por isso, os desafios também são maiores.

Importante ressaltar as palavras de Neto (1982) apud GEPALLE[GW1] :

É fundamental entender que a relação entre tecnologia e educação se concretiza em princípios e processos de ação educativa, gerando produtos educativos, todos resultantes da aplicação do conhecimento científico e organizado à solução ou encaminhamento de problemas e processos educacionais.

Quando o autor diz sobre esta relação entre tecnologias e educação, percebe-se que este fato ficou muito explícito nesses tempos em que vivemos. Embora não tenhamos conseguido um patamar desejável de aprendizagem, sem a utilização desses recursos tecnológicos, a educação estaria bem pior. E aqui então chegamos ao ápice de nossos temores em relação aos tempos vindouros ainda em situação de pandemia: Que tipo de planejamento faremos, sem sabermos ainda como estaremos sanitariamente? O melhor será dispormos de “várias cartas na manga”, já que são grandes as chances de trabalharmos com o ensino híbrido”. Abaixo está seu conceito, segundo a revista Nova Escola:

ensino híbrido, ou blended learning, é uma das maiores tendências da Educação do século 21, que promove uma mistura entre o ensino presencial e propostas de ensino online – ou seja, integrando a Educação à tecnologia, que já permeia tantos aspectos da vida do estudante.

 

Partindo-se da perspectiva de realmente se colocar em uso o Ensino Híbrido de fato, vale ressaltar que investimentos em tecnologia por parte das secretarias e suas políticas públicas para todos os alunos e professores serão primordiais para que se possa trabalhar com o mínimo de condições de se recuperar as habilidades essenciais que não foram atingidas.

No tocante à formação docente durante esse ano de 2020, grandes foram os esforços de coordenadores pedagógicos no sentido de conectar seu corpo docente e propor formações importantes e efetivas. Cabe destacar que o momento proporcionou encontros virtuais que encurtaram distâncias até continentais, em forma de Congressos Internacionais, entre outros, nos quais os professores tiveram oportunidades de participar e se ressignificarem. E essas, certamente, são ações que continuarão a acontecer em 2021, e de forma ainda mais “lapidada”.

Pois bem, seja lá com quais ferramentas estivermos em mãos, temos a certeza de que utilizaremos materiais impressos, plataformas digitais para encontros e aulas virtuais, parcerias diversas, entre outras alternativas, para legitimamente fazermos um bom trabalho com os alunos. Para este fim, é significativo que façamos um planejamento escolar fidedigno e que seja plausível para o decorrer deste ano. Lembrando-se que: os planos devem sempre ser revisitados e adaptados de acordo com a necessidade.

Não sabemos como será o impacto do retorno às aulas presenciais em 2021. A pandemia ainda não está controlada e precisaríamos da vacina para podermos estar juntos em uma escola, sem correr riscos. Esperamos que nossas autoridades tenham bom senso para tomar as melhores decisões, para que não fiquemos expostos ao perigo de uma contaminação ainda mais impactante.

Se, presencialmente, trabalharemos com 20% ou 30% da capacidade de uma sala de aula, também não temos esta certeza. Mas é fato que não poderemos, de modo algum, deixar alunos para trás! A “Busca Ativa”, termo que usamos bastante no decorrer desse ano passado, continuará em alta neste ano letivo vindouro. A tarefa será árdua e desafiadora: Recuperar Habilidades e Competências não atingidas de TODOS os alunos, manter uma formação docente atual, enriquecedora e que nutra nossos professores diariamente, sempre cuidando para seu bem-estar, novamente nas palavras de Assolini. Manter diálogos e um relacionamento coeso com as secretarias, em busca de soluções coerentes para os tantos problemas a se enfrentar, e, acima de tudo: jamais perdermos nossa essência de Educadores que somos, a fim de proporcionar a nossos estudantes a possibilidade de que esses sejam sujeitos sociais e críticos, capazes de transformar nossa sociedade em um mundo justo e equânime para todos!

 

REFERÊNCIAS

 

ASSOLINI, F. E. P.  PROFESSORES DESNUTRIDOS: Recomeços e Ressignificações

Disponível em: https://www.revide.com.br/blog/elaine-assolini/professores-desnutridos-recomecos-e-ressignificaco/ Acesso em 11/01/21

LIBÂNEO, José Carlos. O planejamento Escolar. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4452090/mod_resource/content/2/Planejamento%20-%20Lib%C3%A2neo.pdf Acesso em 11/01/2021.

MORIN, Edgar. Revista Prosa Verso e Arte. Disponível em: https://www.revistaprosaversoearte.com/e-preciso-educar-os-educadores-edgar-morin/ Acesso em 11/01/2021.

Revista Nova Escola. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/104/ensino-hibrido-entenda-o-conceito-e-entenda-na-pratica Acesso em 11/01/2021.

 

VASCONCELOS, Celso dos Santos. Planejamento: Projeto de Ensino -Aprendizagem e Metodologias para Elaboração e Realização, 10. ed., SP, Liberdad, 2002.

 

 

 


 [GW1]Seria interessante inserir a referência correta deste trecho de Neto (1982), ao final do texto.

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Elaine Assolini
Por Elaine Assolini Pedagoga, linguista, pesquisadora, e-mail:[email protected]
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