Afeto à mesa

Afeto à mesa

Para Fida Aude, o Mabruk é a prova de que comida não é só alimento, mas herança viva

Ela nasceu no Líbano e veio ainda criança para o Brasil. Cresceu entre duas culturas, dois idiomas, dois temperos. Formou-se decoradora, abriu uma escola de pintura em porcelana, trabalhou por 30 anos na construtora da família, participou de mostras e manteve por mais de duas décadas a loja Fida Aude Interiores.

 

Quando voltou ao Líbano, depois de décadas, não foi a paisagem à beira-mar de Anfeh tampouco a casa que a desmontaram, mas o cheiro... Dormir novamente na própria cama, colher uvas, figos e tâmaras do quintal e sentir o gosto exato da infância moveu montanhas dentro dela. “Foi uma experiência incrível”, recorda.

 

Foi a partir dessa reconexão que a gastronomia chegou em sua vida, quase como extensão natural dessas memórias. Após uma ampliação em sua loja, abriu também um espaço para lanches árabes simples: esfirras, quibes, coalhadas. A sobrinha, Renata, ficou à frente e o público gostou.

 

Em 2001, quando optou por fechar a loja, a transição para abertura do restaurante foi orgânica. “Já tínhamos feito história, foi só questão de adaptar o salão e ampliar a cozinha. Uma mudança de cenário apenas”, comenta – mas não um cenário qualquer. O Mabruk é como uma extensão da própria casa, com seus pratos dourados árabes, porcelanas pintadas à mão, fotos pessoais de cidades libanesas. Ele não é cenográfico, mas biográfico.

 

Coisa de vó

 

Muito além do básico — esfiha, quibe, coalhada —, o restaurante coloca na mesa a tradição árabe servida com amor. Os sabores, principalmente do Líbano, estão em cada detalhe. Moram em pratos raiz, como o Chich Barack, que exige paciência quase ritualística. São pequenos capeletes, cozidos na coalhada e perfumados com hortelã. Um trabalho minucioso. Receita de família.

 

“É coisa de vó”, diz Fida. Literalmente. Certa vez, um rapaz que almoçava sozinho no restaurante começou a chorar compulsivamente. Fida se aproximou, preocupada, e ele explicou que a avó havia morrido oito anos antes e ele nunca mais tinha comido aquele prato. Sinal claro de que, ali, há algo que vai além da comida. Não é apenas sobre o lugar, a culinária, a tradição... É sobre pertencimento.

 

Cada pessoa que sai, leva a sensação de casa. “Tem cliente que diz que nunca mais come quibe cru em lugar nenhum, só aqui”, orgulha-se. “Algumas famílias, as crianças vinham quando eram pequenas, e hoje, já adolescentes, pedem para vir almoçar comigo. É muito gostoso”, comenta.

 

Alguns temperos e condimentos vêm importados do Líbano. Outros ingredientes são exclusivos, simplesmente não existem fora. Foram criados aqui, conta Fida. Isso porque a imigração transforma não só o paladar, mas também quem cozinha. “Tem um creme, chamado Ashta, usado nos doces, que aqui a gente adapta. Fica diferente. É outro sabor”, explica.

 

Ribeirão Preto, hoje, tornou-se um polo gastronômico vibrante, no qual, entre releituras e tendências, o Mabruk se destaca como uma forte referência da cozinha raiz árabe. Um dos pratos mais amados pelo público, o Riz Maklub, tem origem Síria, é feito de arroz, berinjela, carne, amêndoas e temperos. Fida almoça no restaurante todos os dias, e seu prato preferido é o Chich Barack. “Começo com homus, babaganuch e coalhada seca, com pão e azeite, lógico, e um pouco de tomate e pepino frescos. Depois como um prato quente”, conta a empresária.

 

O restaurante funciona de terça a domingo, no almoço, agora também por quilo. Uma vez por mês, há um jantar especial, com dança do ventre. Um momento de festa, música e memória, bem ao estilo “Mabruk” — que significa “parabéns” em árabe. Talvez porque celebrar, para Fida, seja isso: reunir pessoas ao redor da mesa e permitir que cada uma encontre ali um pedaço da própria história.

 

Cada pessoa que sai, leva a sensação de casa. “Tem cliente que diz que nunca mais come quibe cru em lugar nenhum, só aqui”, orgulha-se. “Algumas famílias, as crianças vinham quando eram pequenas, e hoje, já adolescentes, pedem para vir almoçar comigo. É muito gostoso”, comenta. Esse, talvez, seja o maior reconhecimento de uma vida. Quando o sabor acolhe, criando um espaço afetivo nas memórias de cada um.


Foto: Guilherme Fuzaro

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