Na saúde e na doença
Rafael e Clara: sessenta anos juntos

Na saúde e na doença

Ao perder a visão, Rafael Silva encontrou em Clara o apoio para reconstruir a vida, ingressar na política e manter a família unida

Ao lado um do outro eles parecem um só. Algo raro de se ver nos dias atuais. Uma cumplicidade que nasceu de um voto e não se perdeu no tempo, ao contrário, fortaleceu-se ao longo de seis décadas juntos, contando os anos de namoro. 


Para Maria Clara Machado da Silva, a famosa expressão “na saúde e na doença” dos votos tradicionais de casamento, que significa o compromisso de permanecer ao lado do cônjuge em todos os momentos da vida, sejam alegres ou difíceis, foi mais do que um verso ou uma sentença. Foi um convite, aceito com coragem e amor, de tornar-se o apoio — físico e emocional — para sustentar o matrimônio e a família quando, após 16 anos de união, o marido, Rafael Antônio da Silva, perdeu por completo a visão.  


Miúda, doce, alegre e firme, Clara tem um brilho próprio que ilumina o ambiente e se agiganta ao lado de Rafael Silva, funcionário público aposentado. Juntos, eles alcançaram um feito inédito, eleger o primeiro e único deputado estadual deficiente visual do Brasil. Uma história, sem dúvida, permeada por dificuldades, mas que, neste ponto da vida, para ambos, deixa a sensação de dever cumprido.


Rafael foi eleito deputado estadual pela primeira vez em 1994.  Com uma trajetória de oito mandatos consecutivos na Assembleia Legislativa de São Paulo, além de dois mandatos como vereador em Ribeirão Preto, aos 81 anos, ele encerra a carreira política, motivado mais por questões de saúde do que vontade própria. 


Vida a dois


Rafael e Clara se conheceram em uma quermesse famosa naquela época, do Asilo Padre Euclides. “Era o tipo de festa a que se ia para ver e ser visto, dentro das regras da época. Os homens andavam de um lado, as mulheres do outro”, conta Rafael. Foi ali, numa dessas noites, que o jovem Rafael, então com 20 anos, viu Clara, de 16 anos, e se encantou por ela. “O jeito simples dela me agradou muito”, explica. “Era um homem muito bonito”, confessa Clara. Ele era natural de Jardinópolis; ela, de Brodowski. Mas suas famílias já se conheciam.


Rafael prestou o concurso do Banco do Brasil e passou em quarto lugar. Com quatro anos de namoro veio uma oferta do banco, que precisava de gente em Mineiros, no interior de Goiás. Era uma promoção muito boa e Rafael chegou em casa com uma ideia na cabeça. “Clarinha, é a oportunidade para nos casarmos.”


Foi uma correria. Na igreja perto de casa o padre recusou — sem proclamas corridos não havia casamento. A saída apareceu em Jardinópolis, onde a dona do cartório era prima dele e deu a palavra à juíza de que o primo era solteiro. O vestido de noiva ficou pronto em dois ou três dias. 


Casaram-se em 22 de março de 1970 e logo estavam em Goiás, praticamente dois meninos. “Não tínhamos casa, móveis, nada, mas eu fui”, resume ela, simples e aventureira. Por lá iniciaram a vida juntos, fizeram amigos e um ano depois nasceu o primeiro filho, Rafael Antônio da Silva Junior. Depois voltaram para Ribeirão. Em 1975, nasceu Rodrigo José da Silva; em 1977, Raquel Cristina da Silva Coutinho; e, em 1985, quando já não imaginavam mais ter filhos, foi a vez do caçula aparecer, Ricardo Augusto Machado da Silva, atual prefeito de Ribeirão Preto. A essa altura, foi da médica a decisão: “Quatro filhos, com o marido cego. Vamos fazer laqueadura”, conta Clara em tom de brincadeira.

 

Período difícil


O diagnóstico de Rafael chegou com a casa cheia. Uma inflamação no fundo do olho, o próprio organismo montando defesa contra um inimigo que não existia. A doença autoimune mudou tudo para todos na família. “Naquele tempo a medicina não era tão evoluída como é hoje”, diz Rafael. “Foi chocante, foi triste”, afirma. Depois de dez anos de carreira ele precisou deixar o Banco do Brasil. “Já não dava mais”, confessa. 


Depois, quando a escuridão se instalou de vez sob sua visão, fechou também seu coração. O sentimento, resume, era de perda. “Uma perda de uma coisa muito importante.” Quando isso aconteceu, o caçula, Ricardo, tinha apenas um ano. Dos quatro filhos, portanto, Rafael guarda na memória o rosto de três. Nesse período, Rafael passou quase um ano sem sair de casa. “Ele chorava o tempo todo”, conta Clara. Se sentava no sofá e conversava com Deus. Ele não pedia a visão de volta, pedia um motivo, uma resposta. “Eu queria saber por quê. Por que havia ficado cego?”, declara.


Numa tarde, Clara saiu para visitar a mãe. Sozinho, Rafael foi até a mesinha do telefone e abriu a gaveta. Havia ali um caderno escolar, daqueles grandes e grossos. Pensando nas mensagens psicografadas por Chico Xavier, pôs o dedo sobre uma folha e pediu em voz alta que ali tivesse uma mensagem para ele, que o ajudasse a atravessar essa escuridão. Quando Clara voltou, pediu que ela lesse o que havia naquela página, mas ela estava em branco.


Foi então que ele se lembrou de um detalhe: ao abrir o caderno, uma folha solta havia passado por ele e caído no chão. Rafael esticou a mão, direto em cima dela, Clara a pegou. “Isso aqui foi escrito para você”, disse, antes de ler para o marido. “Palavra por palavra, tudo o que ele perguntava, a resposta estava ali.”


Ela dobrou e guardou a folha por muitos anos, mas acabou perdida, provavelmente em alguma mudança. Os dois esqueceram completamente as palavras escritas ali, mas ambos consideram aquela mensagem um “milagre” porque foi a partir desse dia que Rafael recuperou o ânimo de viver. “Ele voltou a sair, até no supermercado me pedia para ir. Começou a viver com muita força, garra e determinação”, conta feliz a esposa.

 

Reviravolta


O que a história de Rafael e de Clara revela é como tudo na vida pode ser encarado como tragédia ou como oportunidade. Enquanto, para ele, o mundo, aparentemente, se estreitava, para ela, ao contrário, se ampliava. Habituada ao cotidiano doméstico, cuidando da casa e dos filhos, de repente, Clara se viu obrigada a mudar a rotina completamente.


A política, na vida de Rafael, não era novidade. Desde a fase de namoro. Nas campanhas de Wagner Rossi, João Gilberto Sampaio e outros candidatos ele apoiava.  “Ele se dedicava sem interesse nenhum. Tinha muito ideal. Muitas vezes voltava de madrugada”, recorda a esposa.


Agora, revigorado em sua motivação de viver, Rafael estava determinado a uma eleição concorrer. Clara foi contra, mas sua resposta virou lema de campanha: “Vou mostrar para o mundo que, apesar de cego, estou vivo.” Assim fez. Conquistou uma vaga no partido e ganhou a primeira eleição que disputou. Sempre com Clara junto. “Imagina, eu, caipira, dona de casa. Falei: não, eu não vou.” Mas Rafael não aceitou. O acordo era simples: eles saíam pelas ruas, ela chamava as pessoas e ele conversava. “Eu pedia licença e um pouco de atenção, o resto ele fazia.” 


A partir de então, Clara passou a estar presente em tudo o que Rafael fazia, desde o momento em que acordava até as saídas de casa. “Eu o acompanhava principalmente fora do ambiente doméstico. Era, de certa forma, os olhos dele. Mas dentro de casa ele sempre buscou manter a independência, organizando-se e realizando suas atividades com autonomia. Eu estava ali só para apoiar, e ele sempre demonstrou muita força e determinação”, elogia.


De bancário a político. De dona de casa a assistente parlamentar. Foi uma mudança de rota completa na vida de ambos. “Foi difícil, mas seguimos juntos, enfrentando tudo com união. Ele me arrancou de casa. Hoje, eu agradeço. Passei a ser seus olhos, mas a visão de mundo que eu tenho hoje, devo a ele”, diz Clara. E completa: “Em casa a gente fica muito ignorante. Tem o rádio, a televisão, mas não é igual a você viver. E eu vivi. Vivi bastante.” Filha em um tempo em que os pais educavam a mulher para o casamento, ela tinha parado no colegial. Com os filhos já grandes, ela e Rafael voltaram a estudar. Fizeram juntos, à distância, o curso de Filosofia. “Eu lia tudo em voz alta para ele — jornal, revista, apostila — e gravava, para que pudesse ouvir de novo. Aprendemos muito juntos nesses anos todos.” 

 

Aposentadoria

 

Agora, mais um ciclo de mudanças é encerrado na vida de Rafael. Décadas antes, precisou deixar o Banco do Brasil e interromper uma carreira de dez anos. Depois, foi justamente ao reconstruir a própria vida que encontrou na política um novo caminho. Agora, aos 81 anos, depois de oito mandatos consecutivos como deputado estadual e outros dois como vereador em Ribeirão Preto, ele se afasta da vida pública, desta vez principalmente por questões de saúde. É mais uma mudança de rota em uma trajetória marcada pela necessidade de recomeçar.


Em toda essa trajetória, foi preciso muito apoio da família, principalmente da mãe de Clara, que sempre a ajudou muito no cuidado com os filhos, enquanto ela apoiava o marido. Um preço alto, mas reconhecido. Quando Raquel se casou — a única filha —, o casal morava em São Paulo, por conta da legislatura de Rafael. “Não pude nem ajudá-la a escolher o vestido de noiva”, recorda a mãe.  Dos filhos, Raquel era a que mais sentia sua ausência. Hoje, porém, diz que a compreende. “Um dia ela me disse: ‘mãe, hoje eu vejo como você lutou com o meu pai para deixar uma base melhor para nós’.”


Aposentados da vida política, Rafael e Clara, agora, podem aproveitar mais o tempo com a família — os filhos, dez netos e dois bisnetos. Clara se considera muito realizada por ter conquistado tudo o que desejou na vida. “Minha família é meu maior tesouro. Tenho saúde e gratidão por tudo. Só tenho a agradecer a Deus”, conclui. 

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