Desafios da rede

Desafios da rede

Representante do Conselho Municipal de Educação na elaboração do Plano Municipal de Educação, a gestora Thaís Coutinho Barbosa aborda a participação dos professores, as metas de aprendizagem e a valor

Ribeirão Preto iniciou a elaboração do Plano Municipal de Educação (PME) 2027-2037, documento que vai orientar as políticas educacionais do município na próxima década. A construção do plano abre espaço para discutir prioridades como alfabetização, inclusão, aprendizagem e valorização dos profissionais da rede pública. Pedagoga formada pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, licenciada em Matemática e pós-graduada em áreas como alfabetização, educação especial e gestão pública, Thaís Coutinho Barbosa é gestora escolar da rede municipal e representa os gestores no Conselho Municipal de Educação (CME). Para ela, um dos desafios do processo é garantir que as contribuições de professores e da comunidade influenciem as decisões. Em entrevista à Revide, Thaís defende que o novo plano estabeleça metas acompanhadas de prazos, responsabilidades e recursos financeiros. Ela também aborda os resultados da aprendizagem, as condições de trabalho nas escolas e a necessidade de transformar as diretrizes do documento em medidas concretas, evitando que o PME se torne apenas um conjunto de intenções.

 

Como a senhora avalia a participação dos professores da rede pública e da comunidade na elaboração do novo PME?

 

Eles estão sendo ouvidos e suas propostas são consideradas? Considero fundamental que os professores e a comunidade tenham espaços efetivos de participação. Entretanto, precisamos diferenciar a oportunidade de falar da garantia de que aquilo que foi apresentado será analisado e poderá influenciar as decisões. Até o momento, tivemos poucas reuniões da comissão responsável pela discussão do novo Plano Municipal de Educação, apenas duas. Portanto, considero que ainda estamos em uma fase inicial do processo, na qual as discussões mais efetivas sobre as propostas e prioridades do plano ainda precisam avançar. Os professores que participam da comissão demonstram engajamento, interesse e disposição para contribuir. Esses educadores conhecem de perto os desafios da sala de aula, as dificuldades de aprendizagem, a inclusão, a infraestrutura e as necessidades dos estudantes. No entanto, a participação precisa ir além da presença nos espaços de discussão. É fundamental que as contribuições dos professores sejam consideradas e que suas experiências influenciem a definição das metas e estratégias do novo plano. Minha expectativa é que sejam garantidos espaços reais de escuta e participação democrática para os profissionais da educação e a comunidade. O planejamento orientará a educação do município por dez anos, e não podemos abrir mão da contribuição de quem vivencia diariamente os desafios da educação pública. Mais do que ouvir, precisamos garantir que as propostas sejam analisadas com seriedade e transparência. O sucesso do novo PME dependerá da capacidade de transformar essa participação em medidas concretas, capazes de responder às necessidades das escolas e dos estudantes.

 

Na discussão do plano anterior, a interferência da Câmara Municipal em temas como educação sexual, gênero e diversidade gerou controvérsias e desviou o foco das necessidades da educação. Como evitar que disputas em torno de pautas de costumes comprometam a construção do novo PME?

 

Como esses temas devem ser tratados na sua visão? Entendo que o Plano Municipal de Educação precisa ser construído com responsabilidade, fundamentação legal e compromisso com o direito à educação. Seu objetivo principal deve ser estabelecer diretrizes, metas e estratégias capazes de enfrentar os problemas educacionais do município e garantir uma educação pública de qualidade. Os debates democráticos são legítimos, inclusive quando envolvem temas que provocam divergências na sociedade. Entretanto, essas discussões precisam ocorrer com respeito, fundamentação e responsabilidade, sem permitir que disputas políticas ou ideológicas inviabilizem o planejamento educacional. Questões relacionadas à diversidade, à convivência, à proteção das crianças e dos adolescentes e ao respeito às diferenças devem ser tratadas de acordo com a legislação, as diretrizes educacionais e os conhecimentos científicos, considerando as finalidades pedagógicas e as características de cada faixa etária. O que considero indispensável é que o debate não perca de vista o interesse público. Enquanto discutimos o plano, precisamos enfrentar problemas concretos, como a aprendizagem, a alfabetização, a inclusão, a valorização dos profissionais e as condições de funcionamento das escolas. O PME precisa ser um instrumento de política pública, e não um campo de disputas que impeça a construção de soluções para as necessidades reais da educação.

 

O Ideb de 2025 apontou queda no desempenho da rede municipal. Como esse resultado deve influenciar as metas do novo plano e as ações para melhorar a aprendizagem?

 

Uma queda no desempenho precisa ser encarada com seriedade, como um alerta que exige análise, planejamento e ações concretas. Não basta reconhecer o resultado ou estabelecer metas numéricas para melhorar os indicadores. Precisamos compreender os fatores que contribuíram para esse cenário e identificar quais intervenções são necessárias. Espero que o novo PME estabeleça metas progressivas de aprendizagem, com indicadores claros, prazos, responsabilidades e previsão de recursos financeiros. Também é fundamental acompanhar os resultados, identificar desigualdades e garantir intervenções pedagógicas adequadas às necessidades dos estudantes. Precisamos ter cuidado para não reduzir a qualidade da educação a um único indicador. É necessário considerar também a alfabetização, a permanência dos estudantes, a frequência, a inclusão, as condições de ensino e o desenvolvimento integral das crianças. Na Educação Infantil, a avaliação da qualidade deve respeitar as especificidades dessa etapa, sem reduzi-la à lógica dos indicadores do Ensino Fundamental. A aprendizagem depende de fatores como formação, planejamento, infraestrutura, disponibilidade de profissionais e condições oferecidas pelo poder público. O novo plano precisa transformar os resultados das avaliações em decisões efetivas, com acompanhamento, intervenções e ações consistentes para melhorar a aprendizagem.

 

Como o novo plano pode avançar em questões como remuneração, plano de carreira e valorização dos profissionais da educação?

 

A valorização dos profissionais precisa deixar de aparecer apenas como um princípio genérico nos documentos e se transformar em compromissos concretos. Isso envolve remuneração digna, cumprimento da legislação referente ao piso salarial, planos de carreira consistentes, critérios de evolução profissional, cargos efetivos e condições de trabalho adequadas. A valorização também deve contemplar todos os profissionais que atuam nas escolas. A educação pública não depende apenas dos docentes, mas de equipes dimensionadas, preparadas e reconhecidas. A alta rotatividade de terceirizados dificulta a criação de vínculos com as unidades e os alunos. O novo PME deve estabelecer objetivos claros, articulados ao orçamento municipal. É necessário indicar medidas, recursos, prazos e formas de acompanhamento dos compromissos assumidos. Também é fundamental manter o diálogo com os profissionais e suas representações, para que as políticas considerem as necessidades reais da rede. Valorizar os profissionais da educação é um investimento indispensável para a qualidade do ensino, a continuidade das equipes e a garantia do direito à educação.

 

Como representante do Conselho Municipal de Educação, quais pontos a senhora considera indispensáveis no novo PME para que as metas estabelecidas respondam aos problemas reais das escolas e às demandas dos professores e estudantes?

 

Considero indispensável que o novo Plano Municipal de Educação seja construído a partir de um diagnóstico consistente da realidade de Ribeirão Preto e que suas metas estejam vinculadas a estratégias viáveis, responsabilidades definidas, prazos, indicadores de acompanhamento e previsão orçamentária. Entre as prioridades, destaco a valorização dos profissionais, a melhoria das condições de trabalho, a alfabetização, a educação inclusiva, a infraestrutura das escolas, a formação continuada e o financiamento das políticas educacionais. Também precisamos garantir a participação dos profissionais e da comunidade, com transparência no acompanhamento das metas. É fundamental respeitar as especificidades das diferentes etapas e modalidades de ensino, pois realidades distintas exigem soluções próprias. O financiamento é central. Uma meta sem recursos, prazos e responsabilidades definidos corre o risco de se tornar apenas uma intenção no papel. O PME também precisa ter continuidade para além de uma gestão municipal. O plano deve ser um compromisso público, com metas acompanháveis, recursos para execução e responsabilidade para cumprir o que foi estabelecido. A qualidade da educação depende de políticas consistentes e de condições reais para garantir o direito de aprender a todos os estudantes. 

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