Uma vida guiada pela inquietação
Odilon Iannetta construiu uma trajetória marcada por estudo, prática e produção científica voltada ao cuidado integral da saúde feminina
Antes da medicina, veio o trabalho. Odilon Iannetta cresceu ajudando o pai em uma panificadora na Penha de França, zona Leste de São Paulo. O dia começava cedo, entre sacos de farinha, fornadas de pão e tarefas que não podiam esperar. À noite, vinha o estudo. Foi assim, nesse cotidiano de disciplina e repetição, que se formou uma ética que atravessaria toda a sua trajetória profissional. “Eu ajudava meu pai desde pequeno. Trabalhava durante o dia e estudava à noite. Aquilo me formou”, lembra.
A medicina não estava nos planos iniciais. Antes dela, Odilon cursou Química Industrial. A mudança de área veio mais tarde, provocada pela curiosidade intelectual e pelo incentivo de um parente. “Ele me disse: ‘você estuda tanto, por que não tenta medicina?’ Eu achei estranho, mas resolvi tentar.”
A decisão de sair de casa para estudar em Ribeirão Preto marcou definitivamente sua vida. Às vésperas da mudança, uma conversa com a mãe ficou gravada. “Ela falou: ‘você ajuda tanto a gente aqui, como vamos ficar?’ E eu respondi: ‘A senhora quer que eu seja médico ou padeiro?’”, recorda-se.
Em 1977, Odilon ingressou na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP). Entrou mais velho que a maioria dos colegas e carregava uma urgência pouco comum. “Eu tinha uma vontade brutal de aprender. Fiz todas as monitorias que pude”, conta. Formou-se em 1981 e decidiu permanecer na cidade. Recusou convites para outros centros e fez de Ribeirão Preto o lugar onde construiria sua carreira acadêmica, clínica e científica.
Foram mais de três décadas dedicadas à docência universitária. “Dar aula sempre foi parte do meu trabalho. A sala de aula era um espaço de troca”, conta. Mas foi no contato direto com as pacientes que sua inquietação ganhou forma.
OLHAR CONSTRUÍDO NA PRÁTICA
Atendendo mulheres, especialmente aquelas que atravessavam o climatério (fase de transição da mulher, entre a vida reprodutiva e a pós-menopausa), Odilon percebeu que muitas queixas não encontravam respostas no modelo tradicional. Sintomas físicos e emocionais eram tratados de forma fragmentada, sem considerar o conjunto. “Eu sentia que faltava um olhar mais amplo. A mulher não podia ser tratada só por partes”, afirma.
Dessa percepção nasceu a proposta de criar, ainda na universidade, um serviço voltado ao climatério, iniciativa inédita à época. O projeto abriu caminho para pesquisas, produção científica e reconhecimento internacional. “Quando comecei, fiquei eufórico. Pensei na minha avó, na minha mãe. Comecei a entender coisas que ninguém explicava”, lembra.
Vieram publicações em revistas científicas fora do Brasil, intercâmbios acadêmicos e a consolidação de uma carreira sustentada por pesquisa. “A pesquisa sempre foi um norte. Ela organiza o pensamento e sustenta o que a gente faz”, diz.
Em 1989, fora do ambiente universitário, Odilon fundou a Climatérium. O projeto nasceu pequeno, em consultório alugado, e cresceu de forma estruturada, reunindo diferentes especialidades em um mesmo espaço e priorizando prevenção, rastreamento e acompanhamento contínuo. Ao longo dos anos, Odilon formou equipes, orientou profissionais e consolidou um modelo próprio de cuidado.
ESCRITA
Paralelamente à atuação clínica, manteve intensa produção intelectual. É autor de três livros — “Osteoporose – uma ex-enfermidade silenciosa”, “As mulheres da minha vida” e “Climatério para mulheres modernas” — nos quais traduz conceitos científicos para uma linguagem acessível. “Escrever me ajudou a organizar ideias e compartilhar experiências”, conta.
O reconhecimento formal veio também por meio de títulos e homenagens, entre eles o de Doutor Honoris Causa, recebido em 2025. Para ele, o título simboliza uma trajetória construída com coerência. “É o reconhecimento de uma vida inteira dedicada à medicina”, declara.
Hoje, aos 80 anos, Odilon segue ativo. Atende pacientes, estuda, escreve e acompanha os rumos da medicina. “Eu me sinto mal quando não venho trabalhar. O trabalho ainda me move.” Envelhecer, para ele, não significa parar, mas ajustar o ritmo. “Não existe idade para produzir.”
Acompanhando de perto a continuidade da Climatérium sob a condução da filha, a ginecologista Renata Iannetta, observa a transição com tranquilidade. “Ela trilhou o próprio caminho. Sempre tive cuidado para não interferir.”
Ao falar sobre legado, prefere a simplicidade. “Eu fiz o que achei correto”, conclui.
PRODUÇÃO CIENTÍFICA
Com mais de 288 trabalhos publicados em revistas científicas no Brasil e no exterior, Odilon Iannetta sustenta, ao longo de décadas, o aforismo que orienta sua atuação médica: se a ciência permite prevenir, então prevenir é uma obrigação ética. Suas pesquisas fundamentam um modelo de cuidado centrado na prevenção, no rastreamento e no acompanhamento contínuo da saúde ao longo do tempo.