Cuidado masculino

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Câncer de próstata exige diagnóstico precoce e enfrentamento de tabus que ainda afastam homens dos consultórios

O câncer de próstata ainda é cercado por desinformação, vergonha e preconceitos que podem atrasar o diagnóstico e o tratamento. Embora os avanços da medicina tenham ampliado as possibilidades de prevenção, investigação e tratamento, muitos homens ainda adiam os cuidados com a saúde. O câncer de próstata é o tumor mais incidente entre os homens brasileiros, excluídos os casos de câncer de pele não melanoma. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o país deve registrar 77.920 novos casos por ano entre 2026 e 2028, cerca de 214 diagnósticos por dia. Em Ribeirão Preto, o Sistema de Informações Hospitalares do SUS (DATASUS) registrou 181 internações por neoplasia maligna da próstata em 2023, 207 em 2024 e 208 em 2025. Isso representa, em média, uma internação a cada 42 horas no município. De janeiro a agosto de 2026, foram contabilizadas 151 internações.

 

Os dados também revelam a concentração dos registros entre pacientes mais velhos. Em 2025, homens com 60 anos ou mais responderam por 181 das 208 internações, o equivalente a 87% do total. A faixa de 70 a 74 anos concentrou o maior número de registros, com 49 internações, seguida pelos grupos de 65 a 69 anos, com 39, e de 75 a 79 anos, com 37. A doença também representa uma importante causa de mortalidade. Em 2023, foram registrados 17.258 óbitos por câncer de próstata no Brasil, segundo o INCA. O risco aumenta com a idade: nove em cada dez homens diagnosticados têm mais de 55 anos. Histórico familiar e obesidade também estão entre os fatores associados à doença. Na fase inicial, o câncer pode não apresentar sintomas. O Ministério da Saúde não recomenda o rastreamento populacional de homens sem sinais ou sintomas, mas orienta que cada pessoa converse com um profissional de saúde sobre os riscos e benefícios dos exames.

 

Prevenção

 

A ausência de sintomas é um dos principais desafios para o diagnóstico do câncer de próstata. Nas fases iniciais, a doença geralmente não provoca sinais perceptíveis, o que pode levar muitos homens a adiar a procura por atendimento. O oncologista clínico Felipe Maciel Pereira, do Centro de Tratamento Oncológico (CTO) de Ribeirão Preto, alerta que esperar o aparecimento de alterações pode significar perder a oportunidade de identificar o tumor em estágio inicial. “A ausência de sintomas não significa necessariamente ausência de doença”, afirma.

 

Quando aparecem, os sinais podem incluir dificuldade para urinar, redução da força do jato urinário, aumento da frequência de idas ao banheiro, principalmente durante a noite, e presença de sangue na urina. O oncologista Carlos Fruet explica que essas manifestações costumam surgir em situações mais avançadas. “A grande maioria dos pacientes acaba descobrindo o câncer de próstata sem a doença dar sintomas”, diz. Os mesmos sintomas também podem estar relacionados a alterações benignas da próstata, por isso precisam ser avaliados por um profissional de saúde.

 

A idade é um dos principais fatores considerados na avaliação. De maneira geral, os médicos recomendam que homens a partir dos 50 anos conversem com um profissional sobre a saúde da próstata e os possíveis benefícios e riscos dos exames. Para quem tem maior risco, como histórico familiar de câncer de próstata ou alterações genéticas hereditárias, essa discussão pode começar antes, entre os 40 e 45 anos. Fruet também destaca a importância de considerar casos de câncer de mama e ovário na família. “A partir dos 50 anos, avaliação anual com o urologista. Se você tiver histórico de câncer de próstata, mama e ovário, a recomendação é que isso seja mais cedo, a partir dos 40 anos”, orienta.

 

Entre os exames utilizados estão o PSA, feito por meio de coleta de sangue, e o toque retal. O primeiro mede a concentração de uma proteína produzida pela próstata e pode indicar alterações no órgão. O resultado, porém, não confirma a presença de câncer. “É um exame que pode nos levantar uma suspeita”, explica Fruet. O toque retal permite avaliar características da glândula e pode ser indicado conforme a situação clínica. A investigação também pode incluir exames de imagem, como a ressonância magnética.

 

O urologista e uro-oncologista Luís César Zaccaro, responsável pelo Ambulatório de Uro-Oncologia da Santa Casa de Ribeirão Preto, ressalta que a decisão sobre investigar a doença deve considerar as condições de cada paciente. “É fundamental que cada homem converse com seu médico sobre benefícios e riscos da investigação, considerando idade, histórico familiar e condições de saúde”, afirma. A frequência dos exames também deve ser individualizada, levando em conta resultados anteriores, fatores de risco e preferências do paciente. Não existe uma indicação única de realização anual para todos os homens.

 

A avaliação individualizada é importante porque os exames podem trazer benefícios, mas também apresentam limitações e riscos, como resultados alterados que exigem investigação adicional. O diagnóstico definitivo pode depender de exames complementares e, quando indicado, de biópsia. Por isso, a orientação médica é essencial para definir quais procedimentos fazem sentido em cada caso.

 

Quando identificado ainda localizado na próstata, o câncer apresenta maiores possibilidades de tratamento com intenção curativa. Os avanços na cirurgia, nos exames de imagem e nas terapias ampliaram as alternativas disponíveis, mas o estágio da doença no momento do diagnóstico continua sendo determinante para a escolha do tratamento. “A boa medicina consiste em identificar quem realmente pode se beneficiar deles”, resume Zaccaro, ao defender que a investigação seja orientada pelas características e necessidades de cada paciente.

 

Sem tabu

 

A procura masculina por serviços de saúde aumentou nos últimos anos, mas o acompanhamento preventivo ainda enfrenta resistência. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, 69,4% dos homens haviam consultado um médico nos 12 meses anteriores à pesquisa de 2019. Já um levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia, realizado em 2023 com homens acima de 40 anos, mostrou que 46% só procuram atendimento quando apresentam sintomas. Entre os usuários exclusivos do SUS, o índice chega a 58%. Na Atenção Primária, os atendimentos masculinos também cresceram entre 2018 e 2024. Ainda assim, em maio de 2025, 69,5% ocorreram por demanda espontânea, indicando que a busca por atendimento continua frequentemente motivada por problemas imediatos, e não por consultas programadas.

 

A resistência de muitos homens em procurar atendimento médico está relacionada a uma construção cultural que associa o cuidado com a saúde à fragilidade. No caso do câncer de próstata, o exame de toque retal acabou cercado por preconceitos ligados à masculinidade, fazendo com que alguns pacientes adiem consultas por vergonha ou medo. Para o oncologista Carlos Fruet, essa associação não tem fundamento. “Vinculou-se que o exame do toque retal é um exame onde o paciente perderá sua masculinidade, o que é uma grande bobagem, não faz nenhum sentido”, afirma.

 

O médico ressalta que o exame não deve ser tratado como uma ameaça à identidade masculina. Além disso, a avaliação da próstata não se resume ao toque retal. Há outros recursos disponíveis, como o exame de PSA, feito por coleta de sangue, e exames de imagem, que podem ser indicados conforme cada caso. O mais importante, segundo Fruet, é que o receio de um procedimento não impeça o homem de procurar orientação profissional.

 

O oncologista Felipe Maciel Pereira, do Centro de Tratamento Oncológico (CTO) de Ribeirão Preto, observa que o medo de descobrir uma doença e a ideia de que o homem deve procurar ajuda apenas quando sente algum problema também contribuem para o adiamento das consultas. Esse comportamento pode comprometer a identificação precoce do câncer e de outras condições, como hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares. “Cuidar da própria saúde não é sinal de fraqueza, mas de responsabilidade consigo mesmo e com as pessoas que amamos”, afirma.

 

Para o urologista e uro-oncologista Luís César Zaccaro, a resistência tem raízes em hábitos aprendidos ao longo da vida. Muitos homens foram educados a minimizar sintomas e a associar a procura por ajuda à perda de força ou autonomia. A mudança depende de tratar a prevenção como parte da rotina, e não como uma obrigação motivada pelo aparecimento de algum desconforto. “A boa medicina consiste em identificar quem realmente pode se beneficiar” da investigação, afirma, ao defender que a decisão sobre exames seja feita de forma individualizada.

 

Os especialistas ressaltam que os recursos disponíveis atualmente permitem avaliações mais precisas e tratamentos menos invasivos. A vergonha e o preconceito em torno dos exames não deveriam se sobrepor à possibilidade de cuidar da saúde. O Novembro Azul ajuda a abrir essa conversa, mas a preocupação não deve ficar restrita ao mês de novembro. Como resume Pereira, a campanha deve ser “um ponto de partida”, acompanhado por hábitos saudáveis e consultas ao longo de todo o ano.

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