Da sacada da Prefeitura ao futuro do Centro

Da sacada da Prefeitura ao futuro do Centro

Por Milton Henrique Ferreira Junior, Gerente Administrativo do escritório Pereira Advogados

Nasci em Ribeirão Preto e morei por vinte anos na Rua Duque de Caxias, no Edifício Jaraguá. Visto de fora, era só mais um prédio no Centro. Para mim, foi a janela de onde vi a cidade crescer. O prédio fica de fundos para a Prefeitura Municipal, e foi ali, na praça em frente ao Palácio, que passei a infância correndo atrás de uma bola.

 

Naquela época eu não fazia ideia de que, a poucos metros do nosso gol improvisado, trabalhava a pessoa mais importante da cidade. Para nós, a praça era só nossa. Mas quase todas as tardes algum prefeito aparecia na sacada da Prefeitura para acenar para a meninada. Era um "oi" simples, dito do alto do prédio mais importante do município para crianças suadas e felizes. Vários prefeitos passaram por ali, e aquele gesto continuou. Hoje entendo o que ele significava: a cidade conhecia os seus moradores, e o poder público morava na mesma rua que a gente.

 

O Centro era o nosso quintal. Na praça da Catedral, joguei bola com os engraxates, meninos que trabalhavam cedo e que, entre um sapato e outro, viravam companheiros de time. Ninguém perguntava quem era quem. Na Praça XV, brinquei até perder a hora, entre as árvores, os bancos e o movimento de gente que ia e vinha como se o mundo inteiro passasse por ali. E, de certa forma, passava mesmo.

 

Cresci vendo a cidade se construir diante dos meus olhos. Vi prédios subirem andar por andar e agências bancárias se instalarem nas esquinas. Os quarteirões foram mudando de cara com o tempo, e o Centro era o motor de Ribeirão Preto. Estava lá quando nasceu o Calçadão da General Osório, que transformou a rua em passeio e trouxe gente, comércio e encontros. E também vivi um dos dias mais tristes da nossa memória: o incêndio do Theatro Pedro II. Quem viu o fogo tomar aquele símbolo nunca esqueceu. Quem acompanhou a sua reconstrução aprendeu que a cidade sabe se reerguer.

 

Vi também algumas despedidas. A Câmara Municipal e o Fórum deixaram o Centro, e com eles foi embora uma parte do vaivém de advogados, vereadores e cidadãos que davam vida às calçadas. Os cinemas, que lotavam nas noites de estreia, perderam o público de antes. As escolas da região central já foram referência de ensino público de excelência. Estudar nelas era motivo de orgulho, e muitas perderam essa força. O terminal de ônibus, que concentrava a chegada e a partida de milhares de pessoas, passou a ser itinerante, e o ponto de encontro de tanta gente se espalhou.

 

Não conto isso por lamento. Conto por gratidão e por esperança. Tive o privilégio de viver o Centro no seu auge. Aprendi ali a conviver com todo tipo de gente, a respeitar o espaço público e a entender que a cidade é de quem a ocupa. Tudo o que o Centro me deu, ele ainda pode dar a outras crianças.

 

Por isso acredito que precisamos nos dedicar de verdade à revitalização desse lugar. Não se trata só de reformar fachadas ou trocar luminárias. É preciso devolver ao Centro o que o fazia pulsar: gente morando, crianças brincando nas praças, escolas públicas fortes, cinemas e teatros cheios, comércio vivo de dia e de noite. É preciso que o poder público volte a olhar para o Centro como aqueles prefeitos olhavam da sacada, com proximidade e cuidado.

 

O Centro de Ribeirão Preto não está perdido. Está esperando. A história dele continua viva nas praças, na Catedral, no Theatro Pedro II e em cada prédio que um dia vimos nascer. Falta que a gente volte a caminhar por ele, a ocupá-lo e a acreditar nele.

 

Eu acredito. E sonho com o dia em que outra criança, jogando bola na praça da Prefeitura, olhe para cima e receba um aceno da sacada, como eu recebi.

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