Importância da agricultora é ratificada
Por Tirso Meirelles, presidente do Sistema Faesp/Senar
A decisão da Organização das Nações Unidas de designar 2026 como o Ano Internacional da Mulher Agricultora vem como reconhecimento tardio, mas essencial, da importância das mulheres no campo. Por trás da produção de alimentos, da sustentabilidade das propriedades e da inovação em práticas agrícolas, está também o esforço diário de milhões de mulheres que muitas vezes operam longe dos holofotes e das políticas públicas. Essa designação internacional é um marco que fortalece iniciativas como a Comissão Semeadoras do Agro, da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), justamente por colocar o empreendedorismo feminino rural no centro do debate global.
No Brasil, o crescimento de mulheres à frente de propriedades rurais é um fenômeno que vem ganhando força. Segundo dados do último Censo Agropecuário, há um aumento contínuo no número de propriedades chefiadas ou co-administradas por mulheres, muitas vezes com forte presença em gestão financeira, comercialização e adoção de tecnologias. No mundo, as estimativas da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) apontam que cerca de 43% da força de trabalho agrícola global é composta por mulheres, sendo esse percentual ainda maior em algumas regiões da África Subsaariana e da Ásia. No entanto, elas ainda enfrentam desigualdades marcantes no acesso a terra, crédito, educação e assistência técnica.
Designar 2026 como o Ano Internacional da Mulher Agricultora não é apenas simbólico: é um chamado à ação para governos, setor privado e organizações da sociedade civil. Essa resolução cria uma plataforma global para compartilhar boas práticas, fomentar políticas inclusivas e mobilizar recursos que ampliem a participação feminina na agricultura. Para iniciativas como a Comissão Semeadoras do Agro, essa visibilidade internacional significa maior capacidade de atrair parcerias, projetos e programas que ampliem o empreendedorismo feminino no meio rural.
A Semeadoras do Agro atua exatamente nesse espaço de transformação: apoiar mulheres que empreendem no campo — seja à frente de propriedades familiares, seja liderando negócios rurais, cooperativas ou cadeias de valor. Em três anos foram mais de 360 eventos, que impactaram mais de 30 mil mulheres no campo. Mais que fomentar o empreendedorismo, há uma preocupação adicional com a saúde da mulher rural, que, muitas vezes, abdica de cuidar de sua saúde em favorecimento da lida diária, seja no campo, seja em casa.
Ao reconhecer a importância das mulheres agricultoras, a ONU contribui para tirar da invisibilidade uma parcela significativa do setor agropecuário que já faz a diferença, mas muitas vezes não recebe o devido reconhecimento. Empoderar mulheres no meio rural é também fortalecer famílias, comunidades e economias locais, pois são elas que muitas vezes investem em educação, saúde e bem-estar social.
O impacto da presença feminina no agro vai além da equidade de gênero. Há evidências de que propriedades com participação ativa de mulheres tendem a adotar práticas mais sustentáveis, diversificar culturas e melhorar a eficiência no uso de recursos naturais. Essa perspectiva amplia a capacidade produtiva e contribui para a resiliência do setor face às mudanças climáticas e às demandas por produção responsável.
Portanto, a decisão amplifica o trabalho que já vem sendo feito no Brasil e no mundo. Ela reforça a necessidade de políticas públicas sensíveis ao gênero, de acesso igualitário a recursos, de formação técnica e de redes de apoio que conectem mulheres agricultoras. Mais do que celebrar um ano, o desafio é transformar esse reconhecimento internacional em mudanças concretas que garantam às mulheres do campo não apenas mais espaço, mas voz ativa e protagonismo real na construção do futuro do agro.