Fogo, coragem e identidade: como Índia Mafiosa transformou a rua em restaurante
Índia transformou a habilidade da família com o milho em símbolo de bravura e sabor, que deu origem a uma respeitada hamburgueria na zona oeste de Ribeirão Preto
A trajetória de Thaysa Silva, mais conhecida como Índia Mafiosa, mistura bravura, senso prático e intuição. De menina da feira, ela usou fogo, persistência, identidade e suas origens para tornar-se reconhecida por seu hambúrguer artesanal grelhado na parrilla – churrasqueira argentina com método diferente de cocção que poucos dominam.
Criada pelos avós maternos até os 11 anos de idade, em Iturama (MG), Índia veio morar com os pais, feirantes, em Ribeirão Preto, e logo começou a ajudá-los com a freguesia. Foi onde ganhou o apelido de Índia, pela ascendência indígena pronunciada na fisionomia. No Ensino Médio da Escola Estadual Eugênia Vilhena de Moraes, ganhou o apelido de “Mafiosa”, então usado como gíria para alguém que se sobressaía em algo. Por volta dos 15 anos, o futebol entrou na vida de Índia, que acabou indo jogar no Botafogo e treinando na Cava do Bosque, pela Secretaria Municipal de Esportes de Ribeirão Preto. “Meu treinador lá falou que meu nome tinha que ser Índia, porque impõe mais respeito”, lembra. O sonho adolescente de viver de esporte, porém, foi arquivado. “Eu já tinha que conciliar o trabalho e o estudo e quando isso começou a me prejudicar tive que abrir mão do futebol”, conta.
O olhar empresarial já pulsava dentro de Índia, e a necessidade de complementar a renda familiar, aliada às dificuldades financeiras que a família de sua então namorada – Brenda – atravessava, atiçaram esse impulso. Aos 18 anos, teve a ideia de começar a vender lanches naturais, milho em bandejinha e curaus que sobravam da barraca da mãe na feira. “O milho vem como um produto de família. Meu avô vendia derivados de milho em Minas Gerais”, comenta hoje, divertida.
A mãe de Brenda, demitida de um emprego de anos como empregada doméstica, colocou o dinheiro da rescisão nas mãos das garotas, para iniciarem o negócio. Investiram em um automóvel Gol usado, um fogãozinho, panelas e no primeiro ponto onde montaram a barraca, em frente ao Senai, na zona Leste da cidade. Quando um novo vendedor apareceu oferecendo o mesmo produto pela metade do preço, Índia foi pesquisar por soluções que a diferenciassem na internet e descobriu que nos Estados Unidos e no Japão grãos de milho eram servidos em copos, mas com temperos adocicados. Intuiu que no Brasil não funcionaria e acertou ao criar copos de milho recheados com ingredientes de pizza.
Quando o formato de food trucks se popularizou, surgiu para a dupla a oportunidade de adquirir um de segunda mão, de um parceiro que aceitou receber parceladamente. Índia percebeu que precisavam diversificar o cardápio e também criar uma marca capaz de concorrer com outras da periferia que vendiam comida de rua. Acabou desenvolvendo no Canva – aplicativo de design gratuito –, incentivada por amigos, o logo do Mafiosa Comida de Rua.
O food truck foi inaugurado em 11 de maio de 2017, no cruzamento de duas avenidas de grande movimento do bairro. Para atrair clientela, Índia apostou na divulgação em redes sociais e obteve retorno, mas não parou de fazer planos. Para aprender como um restaurante funciona e custear um curso profissionalizante de Gastronomia no Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), passou a acumular trabalhos: de semana, em uma marmitaria, das 10h às 14h, e no food truck, a partir das 15h. À noite, estudava, e aos finais de semana, pegava bicos em eventos gastronômicos, nos quais aprendeu tudo sobre comida de rua, na prática.
Apenas um ano depois, já sem Brenda como sócia e namorada, Índia decidiu investir em um ponto fixo. Negociou por três meses o aluguel de um que precisava de ajustes, montou o food truck em frente e continuou tocando-o paralelamente à reforma do imóvel a seu gosto. Em 20 de maio de 2018, reinaugurou o Mafiosa, agora como um restaurante de comida de rua, com quatro lanches no cardápio, que foi aumentando com o tempo, assim como o movimento e a fama do Mafiosa. Tanto que ela chegou a se aventurar a montar uma filial no Shopping Santa Úrsula, mas o projeto não foi para frente. “Serviu como aprendizado’, diz.
Atualmente, Índia chefia uma equipe que inclui de parrileiros treinados por ela a gerente de marketing. O carro-chefe são os hambúrgueres assados na parrilla. “A lenha usada traz uma nota defumada que não se imita”, explica, econômica. O Mafiosa Comida de Rua segue “muito bem, obrigada”, atraindo clientela de todos os pontos da cidade.