Leva-e-traz solidário
Levando uma vida simples, o autônomo José Mota Filho faz o que muita gente almeja: trabalhar por um propósito maior
Se pudesse voltar atrás, José Mota Filho faria diferente. Teria ficado na terra vermelha do Mato Grosso do Sul, onde aprendeu cedo o peso da enxada e o valor do tempo. Ficaria por lá, perto dos pais, na vida simples da roça, sem a pressa do relógio para acontecer.
Aos 60 anos, autônomo, o orgulho que lhe resta da vida construída em Ribeirão Preto vem da família, da casa própria – conquistada com dignidade e muito trabalho – e do serviço voluntário que presta à Casinha Azul, entidade que assiste crianças e jovens na região do Parque dos Servidores, em Ribeirão Preto.
Ele nasceu no Paraná e, aos 7 anos de idade, mudou-se com a família para o Mato Grosso do Sul, onde o pai tinha sítio. Criado na roça, entre trabalhos em lavoura, liberdade e horizonte aberto, sabe bem distinguir o que separa a vida na “selva de pedra” daquela no campo: a paz. “Na roça você acabava a lavoura e tinha tempo. Se quisesse viajar, viajava. Era tudo muito diferente”, compara.
Aos 23 anos, veio com a mulher para o interior paulista, onde duas irmãs já moravam. Motivado por discordâncias familiares e alimentando ilusões com a “cidade grande”, chegou acreditando que seria mais fácil por aqui. Não foi. “Quando cheguei, não tinha nem onde morar. Fiquei na casa das minhas irmãs. A verdade é que a gente sente falta da raiz”, lembra.
“Corrida demais”, para quem vinha acostumado ao tempo do campo, a cidade exigiu tudo dele. Disciplina, horários, contas. Tudo “mais apertado”, mas mesmo assim ele ficou, aguentou firme e aprendeu. O primeiro emprego foi cuidando de uma chácara e limpando cocheiras, na Sociedade Hípica. Depois vieram atacadistas e condomínio. Separar materiais, cuidar de gramado, limpar piscina... serviços gerais nunca faltaram e tudo o que precisou, ele fez. Não houve atalhos.
Decidiu trabalhar por conta própria. Começou com um amigo fazendo serviços elétricos e frete. Serviço pequeno ou médio, não importava, o que aparecesse, fazia. Quando os fretes engrenaram, em 2008, finalmente conseguiu comprar uma Kombi e conquistar autonomia. “Dá para viver”, resume, com a simplicidade de quem mede sucesso pela dignidade, não pelo dinheiro.
GRANDEZA ONDE NINGUÉM VÊ
Autônomo há mais de dez anos, hoje José trabalha sozinho e mora pertinho da Casinha Azul, com quem mantém uma relação de parceria que ensina. Conheceu a instituição social há 15 anos, fazendo um bico. Começou transportando doações, foi ficando e acabou contratado. A relação de confiança cresceu e se redesenhou. Eles compraram um caminhão para buscar doações. Hoje ele cuida da manutenção e do transporte e ambos dividem o uso do veículo. Assim ele consegue atender às necessidades da Casinha Azul voluntariamente, mas também pegar fretes maiores. “Às vezes aperta. Tenho que correr com o deles e com o meu”, explica, mas não reclama. “Foi uma solução boa para ambos. É troca justa”, garante.
José busca móveis, roupas, eletrodomésticos, alimentos, de tudo. Segundas e terças-feiras são destinadas à coleta de frutas e alimentos, doados por empresas e supermercados. “Difícil um dia sem trabalho”, comenta. Para ele, o mais bonito é ver como, muitas vezes, alguém troca uma geladeira, por exemplo, e doa a usada em bom estado para a instituição, sem nem imaginar o bem que está fazendo para outra pessoa, que não poderia comprar uma nova. “Para quem recebe, um móvel simples já muda o ambiente da casa. Tem coisa que não é boa pra mim, mas é boa pra você”, diz, com lucidez. Nem toda doação, porém, está em boas condições, mas mesmo isso, José enxerga com seus bons olhos. “Às vezes a pessoa quer ajudar, mas o sofá está rasgado demais para vender.”
José tem dois filhos — Juliano e Mônica — e um neto de 1 ano, Benício. É avô recente, orgulhoso. Começou a vida com Cleusa e com ela continua. “Agora só a morte nos separa, se Deus quiser”, afirma. O sentido da vida para ele é simples: ajudar. “Eu me sinto bem quando ajudo”, responde rápido, sem filosofar. Transportando de um lado para o outro o que um não precisa mais, mas para o outro faz falta, vai fazendo diferença no mundo.