Morar no Centro como ato de resistência
Maysa Pettes transforma um apartamento antigo e defende a reocupação do coração da cidade
Quando muitos viram as costas para o Centro, a artista visual Maysa Pettes decidiu ir na direção oposta. “Eu ando na contramão”, define. Foi justamente a desvalorização das moradias em uma das regiões mais históricas da cidade que despertou nela o desejo de morar ali: não apenas como escolha pessoal, mas também como posicionamento cultural e urbano.
Defensora dos centros históricos, Maysa questiona a lógica que empurra moradores para longe do núcleo original das cidades. “A gente viaja para fora e vai visitar onde? Os centros históricos. Aqui, eles estão completamente desvalorizados”, reflete. Para ela, ocupar o Centro é também um gesto de cuidado com a memória, com a cidade e com as pessoas que a habitam.
Elementos originais, como cobogós e acabamentos da década de 1950, foram mantidos e valorizados no projeto
UM APARTAMENTO CHEIO DE HISTÓRIAS
O imóvel escolhido fica em cima do Cine Centenário — o primeiro cinema que Maysa frequentou na vida. “Eu queria aqui. Não importava o preço”, conta. Ainda assim, o valor baixo pago pelo apartamento refletia o estado do imóvel, que exigiria um investimento significativo em restauração. “O que eu paguei foi o que eu gastei na obra.”
Bem construído, com paredes grossas, cobogós originais dos anos 1950 e vista para um jequitibá centenário, o apartamento escondia um enorme potencial. O retrofit respeitou ao máximo as características originais: portas, pisos e o antigo balcão, hoje integrado como varanda, foram preservados. Ao mesmo tempo, algumas paredes precisaram ser removidas para permitir mais luz natural e adequar o espaço à vida de quem mora sozinha.
“O maior desafio foi saber se as paredes aguentariam as aberturas”, relembra. A solução veio com o acompanhamento de um engenheiro civil, que garantiu a segurança da intervenção. Banheiro e cozinha passaram por alterações mais profundas, mas sem perder a essência do imóvel.
A reforma respeitou as características originais do imóvel, como pisos e portas, combinadas a intervenções contemporâneas
VIVER O CENTRO NO DIA A DIA
A experiência de morar no Centro, segundo Maysa, é libertadora. Aos 68 anos, ela decidiu parar de dirigir e encontrou na região a autonomia que buscava. “Tenho táxi na porta, farmácia em frente, padarias boas, restaurantes, cafés. Tudo é muito acessível.”
Mais do que praticidade, o Centro revelou uma comunidade que ela não conhecia. “Existe uma galera mais antiga, conservadora, muito ligada à cultura, que a gente desconhece porque Ribeirão virou uma cidade feudal”, provoca. Para a artista, o modelo de vida em condomínios fechados fragmenta a cidade e afasta as pessoas da convivência urbana real.
A localização no coração da cidade reforça a relação entre morar, memória urbana e cotidiano
OCUPAÇÃO, RESISTÊNCIA E AFETO
Morar no Centro, para Maysa, é uma escolha consciente e uma forma de ocupação. Ao decidir viver em um prédio antigo, ela entende que processos de restauração exigem diálogo, tempo e respeito às características históricas dos imóveis. Ainda assim, acredita que a presença de moradores é fundamental para que essas regiões sejam vistas com outros olhos.
Para a artista, a transformação do Centro passa menos por grandes intervenções e mais pela vivência cotidiana. “Isso depende de nós”, afirma. Depende das pessoas que escolhem morar ali, de iniciativas culturais, do olhar da imprensa e de um movimento coletivo que ajude a ressignificar o coração da cidade. “É uma ocupação cultural interessante, com gente que pensa, que vive a cidade.”
O diálogo entre arquitetura original e intervenções atuais marca o novo desenho do apartamento
UM CONVITE PARA OLHAR DIFERENTE
Para quem pensa em comprar um apartamento antigo e barato no Centro, Maysa é direta: “É para ontem”. Ela compara o momento atual com o que já aconteceu em grandes cidades do mundo, onde os centros se tornaram áreas altamente valorizadas. Mais do que investimento financeiro, no entanto, ela destaca o ganho em qualidade de vida. “É uma vida diferente. Boa.”

A decoração do apartamento reúne obras de diferentes artistas, incluindo trabalhos da própria Maysa Pettes, criando um ambiente que reflete sua trajetória artística e o diálogo entre arte, memória e arquitetura