As mulheres por trás do que permanece
No mês das mães, histórias de mulheres que transformaram cuidado, presença e liderança em formas de construir legado, impacto e permanência
Há fases da vida em que tudo muda de lugar. Nem sempre de forma brusca. Às vezes, a transformação acontece aos poucos, na rotina que ganha outro ritmo, nas prioridades que passam a fazer mais sentido ou na percepção de que sucesso já não está ligado apenas à carreira, mas também à presença, equilíbrio e continuidade.
Para muitas mulheres, a maternidade representa exatamente esse movimento. Não como uma pausa na trajetória profissional, mas como uma mudança de perspectiva.
É quando o tempo passa a ser enxergado de outra forma. O cuidado ganha profundidade. E o propósito se torna mais claro. Talvez seja justamente aí que novas lideranças comecem a surgir.
Hoje, mais de 10 milhões de mulheres lideram negócios no Brasil, segundo dados do Sebrae. Muitas iniciaram suas empresas durante ou após a maternidade, impulsionadas pela busca por autonomia, flexibilidade ou reinvenção profissional. Ao mesmo tempo, seguem dedicando quase o dobro de horas semanais aos cuidados domésticos e familiares em comparação aos homens, de acordo com o IBGE.
Entre reuniões, atendimentos, decisões estratégicas e uma rotina que raramente desacelera, essas mulheres sustentam muito mais do que empresas. Sustentam famílias, histórias e estruturas inteiras.
O cuidado que transforma a forma de enxergar
Na área da saúde, o cuidado sempre esteve no centro de tudo. Mas, atravessado pelas experiências da vida, ele ganha novas camadas de sensibilidade, escuta e presença.
Dentista há anos, a Dra. Lídia Titoto, fundadora da clínica AOD, acompanha diariamente como saúde bucal, autoestima e bem-estar emocional caminham juntos. Ao devolver o sorriso de um paciente, devolve também confiança, identidade e segurança, elementos que vão muito além da estética.
Na dermatologia, o cenário não é diferente. A Dra. Beatriz Elias, médica dermatologista e fundadora da Le Plume Dermatologia, observa uma mudança importante na forma como as mulheres passaram a enxergar autocuidado e autoestima nos últimos anos.
Mais do que aparência, a dermatologia passou a conversar diretamente com bem-estar, confiança e qualidade de vida.
Em uma rotina marcada pela exposição constante, cuidar da própria imagem também se tornou uma forma de fortalecer identidade e segurança emocional.
Existe algo silencioso nesse processo. Uma reconstrução que começa internamente antes mesmo de aparecer por fora. E é justamente desse cuidado individual que nasce um impacto maior.
Educar também é construir futuro
Na educação, o cuidado ultrapassa o acolhimento e passa a gerar impacto coletivo.
Alessandra Freitas atua diretamente na formação de pais e educadores de crianças atípicas, em um contexto que exige preparo emocional, escuta ativa e sensibilidade constante. Em um país onde o número de matrículas de alunos com necessidades específicas cresce ano após ano, inclusão deixou de ser uma pauta secundária.
Tornou-se necessidade.
Mais do que ensinar, educar passou a significar compreender diferentes formas de existir, aprender e se desenvolver.
Esse olhar também aparece nos espaços.
À frente da Movplan, Redjane Santana desenvolve ambientes educacionais pensados para contribuir com a experiência de aprendizagem. Salas, móveis e estruturas deixam de ser apenas funcionais e passam a participar ativamente do desenvolvimento infantil.
Porque ambientes também acolhem. E, quando acolhem, transformam.
Ampliando ainda mais essa discussão, Camila Nocera, da Febracis, direciona o olhar para um tema cada vez mais presente na vida contemporânea: inteligência emocional.
Em uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos, cobranças e velocidade, desenvolver equilíbrio interno e clareza emocional tornou-se uma habilidade essencial.
Construir também é deixar legado
Quando cuidado e desenvolvimento encontram estrutura, deixam de ser apenas intenção. Passam a ocupar o mundo.
Ganham forma em espaços, interiores, cidades e relações que atravessam gerações.
Historicamente masculino, o setor da construção civil vive uma transformação silenciosa. Hoje, mulheres ocupam espaços cada vez mais relevantes em uma das áreas que mais movimentam a economia brasileira.
Mais do que executar projetos, elas também ajudam a redefinir a maneira como as pessoas vivem e se relacionam com os ambientes.
Na Casa Silva, Dulce Correa conduz um negócio construído sobre vínculos familiares. Trabalhando ao lado do marido, do filho e também da família do sócio, transformou a empresa em uma extensão da própria história.
Um encontro entre experiência, continuidade e propósito compartilhado.
Para Andrea Del Lama, os ambientes deixaram de ser apenas funcionais. À frente da Del Lama Acabamentos, acompanha uma demanda crescente por espaços que expressem identidade, acolhimento e estilo de vida.
As casas passaram a refletir não apenas estética, mas também pertencimento. Cada detalhe passou a carregar significado.
Fabiana Souza atua em um setor que influencia diretamente o desenho das cidades e a forma como as pessoas vivem suas rotinas. À frente do posicionamento estratégico da Pafil Empreendimentos, acompanha de perto as transformações urbanas e os novos modos de habitar os espaços contemporâneos.
Mais do que edifícios, empreendimentos definem convivências, acessos, deslocamentos e experiências humanas. Construir, nesse contexto, vai muito além da obra física. É criar possibilidades de vida.
A imagem também comunica presença
Em um cenário onde visibilidade se tornou parte estratégica dos negócios, comunicar deixou de significar apenas aparecer. Passou a representar construção de percepção. Reputação. E autoridade.
Jornalista, empresária e fundadora da Focco Comunicação, Grace Kelly Cano acompanha há mais de 20 anos a transformação da relação entre imagem, posicionamento e reconhecimento público. À frente da agência, desenvolve estratégias de relacionamento e reputação para empresários, especialistas e marcas que buscam ocupar espaços de relevância de forma consistente.
Em um ambiente cada vez mais acelerado e competitivo, tornar-se referência exige mais do que exposição. Exige coerência, narrativa e credibilidade.
Mais do que projetar imagens, Grace atua na construção de conexões duradouras entre pessoas, marcas e reconhecimento.
Para Karina Sauer, imagem nunca foi apenas estética.
Formada em moda e com trajetória empreendedora em diferentes segmentos, encontrou na consultoria de imagem uma forma de unir experiência, identidade e desenvolvimento humano. Hoje, trabalha o posicionamento de empresários e profissionais a partir da conexão entre imagem, comunicação e autoconfiança.
Em um mercado cada vez mais visual e imediato, imagem passou a ser linguagem. E, muitas vezes, fala antes mesmo da primeira palavra.
Reinventar-se também é uma forma de força
Para muitas mulheres, empreender não nasce de uma oportunidade ideal. Nasce da necessidade.
Foi durante a gestação que Priscila Almeida encontrou na Mary Kay uma alternativa de renda. O que começou como uma solução temporária cresceu, ganhou estrutura e passou a sustentar a família.
Mas, por trás da expansão do negócio, existe uma realidade comum a milhares de mães brasileiras: a tentativa diária de equilibrar produtividade, presença, autonomia financeira e a culpa silenciosa.
Empreender, muitas vezes, significa aprender a existir em múltiplos papéis ao mesmo tempo. E seguir, apesar do cansaço.
Onde todas as histórias se encontram
Entre essas trajetórias, também está Erica Carvalho, comerciante, influenciadora digital, mãe de dois filhos e diretora comercial da Villu Brinquedos, uma das lojas mais tradicionais de Ribeirão Preto. Em um universo ligado à infância, acompanha de perto como o brincar ajuda a criar vínculos, memórias afetivas e experiências que atravessam gerações.
Esse olhar para as relações humanas também aparece em outros espaços onde encontros se transformam em lembranças duradouras.
À frente do Espaço Vila Boldrin, Fernanda Boldrin transforma celebrações em experiências marcadas por acolhimento e conexão. Casamentos, aniversários, confraternizações e reencontros representam mais do que eventos sociais.
São momentos que aproximam pessoas. Fortalecem laços. E permanecem na memória.
Talvez exista algo simbólico nisso.
Porque, no fim, todas essas mulheres trabalham, de maneiras diferentes, para construir experiências humanas que permanecem.
Umas cuidam. Outras educam. Outras constroem. Outras acolhem. Outras comunicam. Outras reinventam caminhos. Todas deixam marcas.
O que permanece
Os números ajudam a explicar parte dessa transformação. Mas não conseguem traduzir completamente o que existe por trás dela.
A maternidade exige reorganização constante. Amplia responsabilidades, altera prioridades e redefine a forma como muitas mulheres enxergam sucesso, tempo e presença.
Mas também fortalece.
Fortalece decisões. Amplia perspectivas. Desenvolve resistência. E transforma cuidado em potência.
No mês das mães, essas trajetórias revelam algo que vai além do empreendedorismo feminino ou da liderança profissional.
Revelam mulheres que aprenderam a construir permanência em meio ao movimento. E que seguem, todos os dias, transformando o mundo de maneira silenciosa, consistente e profundamente humana.
Fotos: divulgação