A mudança não se faz sozinha
Empresário do agronegócio e presidente da Casa da Memória Italiana, Eduardo Marchesi Amorim conta como um almoço virou o Instituto Ribeirão 2030
"Era ano eleitoral, fim de 2016. Ribeirão estava sacudida pelos escândalos de corrupção revelados pela Operação Sevandija. Nesse cenário difícil para a cidade, almocei com meu amigo Henrique Furquim. Sentimos que a sociedade precisaria de meios para cobrar as autoridades de maneira mais técnica e direta dali em diante.
Desde cedo aprendi o valor de participar da vida coletiva. Minha mãe dava aulas de arte na Casa das Mangueiras, onde fui conselheiro com as famílias atendidas. Participei, ainda, da fundação de uma entidade de recuperação para dependentes químicos.
Com esse impulso, mas agora em escala de cidade, o que começou naquele almoço se tornou o Instituto Ribeirão 2030, entidade com quase sessenta mantenedores e voluntários que, há oito anos, pensa o futuro de Ribeirão nas áreas de transparência, educação e planejamento urbano com total independência, apartidarismo e autonomia. Meu papel foi dar o arranque e servir de elo, trazendo boas pessoas para a missão, exercendo a presidência ao lado delas por dois mandatos consecutivos.
Começamos com reuniões numa sala cedida pelo Ciesp. Além do Henrique, os primeiros a se juntar foram André Ali Mere, Heitor Massa, Rodrigo Nóbrega, Márcio Minoru, Dirceu Chrysostomo, Caetano Biagi, José Marin, Eduardo Pereira, Sílvio Contart, Adriana Silva e André Ignácio. Pouco depois, uniu-se a nós o grupo liderado por Maurílio Biagi Filho, com Alberto Matias, André Rezende, Dorival Balbino e José Batista Ferreira.
Quanto ao nome escolhido, foi em razão de projetarmos a cidade dali a dez anos. Coincidentemente, esse horizonte se alinhou à agenda da ONU para o desenvolvimento sustentável até 2030.
Desenvolvemos um estudo seminal, que depois viria a ser aprofundado, o Plano de Cidade 2020|2030, conduzido por Adriana Silva e Cristiano Pavini. Foi um roteiro de dez anos para o desenvolvimento de Ribeirão, construído após ampla escuta com dezenas de entidades e especialistas, do qual resultam 30 metas de gestão pública, economia, qualidade de vida e sustentabilidade. Acompanhei de perto o nascimento daquelas páginas que, com força técnica, propuseram soluções práticas como, por exemplo, para o rombo do IPM (Instituto de Previdência dos Municipiários) em Ribeirão, que consumia mais de R$ 200 milhões ao ano dos cofres públicos. Essa contribuição foi acolhida e aprovada na Câmara e no Executivo.
No mesmo trabalho, há seis anos, já alertávamos sobre a urgência da resiliência climática se tornar uma meta municipal, mas não fomos ouvidos. A tempestade de 24 de julho mostrou o preço que a cidade paga quando o governo ignora estudos baseados em dados e evidências.
Vi também essa miopia política se repetir na educação, quando realizamos um estudo minucioso e apontamos um mapa do que poderia ser feito. Nossos alertas foram sumariamente engavetados. O resultado desse tipo de postura é o tombo histórico na rede municipal, que amarga desde 2013 um declínio contínuo nos indicadores que monitoramos: o Ideb, o ICA e o Saresp.
Também me marcou demais ter visto como é feito o planejamento urbano de Curitiba pelo IPPUC, em viagem com o Sílvio, o Alberto e o Dirceu, além de dois políticos. A visita não deixou dúvidas do quanto Ribeirão precisa contar com um órgão público dedicado exclusivamente a planejar a cidade a longo prazo. Na publicação sobre o assunto, Gabriela Couto Rosa formaliza tecnicamente essa recomendação.
A questão da transparência ainda me preocupa enquanto cidadão. No instituto, seguimos lutando por um governo aberto, que vá além da simples prestação de contas, esclarecendo planos e decisões, abrindo espaço para a participação e o controle social.
Todos esses estudos e propostas já bateram na porta do poder público, onde quase tudo acaba na gaveta, e o que só reforça a necessidade de insistirmos. Não miramos vitórias sazonais, mas reformas estruturantes, capazes de aprimorar a máquina pública de modo a garantir que as boas práticas continuem independente de mandatos; que elas se consolidem como políticas de estado.
Uma andorinha só não faz verão: caminhar com este grupo eclético, diverso ideologicamente e de competências extraordinárias é um grande privilégio! Oro para que Deus continue nos iluminando nesta maratona em prol de uma Ribeirão melhor."