A vocação, as dificuldades e a realização
Filho de um sapateiro e uma dona de casa, Carlos Cezar Barbosa narra como, com esforço e renúncias, alcançou o sonho de tornar-se promotor de Justiça
"Em um país de grande desigualdade social, sem ensino público de qualidade e segurança alimentar aos menos favorecidos, como o nosso, é uma absoluta utopia se falar em igualdade de oportunidades. Uma boa educação familiar, porém, pode impulsionar a consecução de melhores objetivos de vida.
Fiz essa introdução para registrar que, apesar de haver nascido filho de um sapateiro e de uma dona de casa e de ter vivido em um ambiente muito pobre, mas sem privação do necessário para a subsistência, considero-me uma pessoa vitoriosa por ter conquistado um sonho que nasceu na adolescência – o de ser promotor de justiça. Boa educação familiar, foco e muitas renúncias foram os ingredientes utilizados na minha conquista.
Em minha infância, a pelada de futebol era substituída pelo trabalho como ambulante. Os finais de semana eram regados a graxas, escovas e flanelas, utilizadas para engraxar sapatos em busca de uns trocados. Eu não trabalhava a mando de meus pais, mas já naquela idade o fazia por um futuro melhor. Doía, naquela época, ver meu pai se empenhar em horas extras de trabalho, na fábrica de calçados da qual era empregado. Ele trabalhava à noite para engordar um pouco o salário.
Meu primeiro emprego formal, aos 13 anos de idade, impunha a utilização diária de uma pesada bicicleta de carga para entregar peças automotivas em distâncias consideráreis. Alguém se lembra da [empresa] Santal, ou da Penha? Esses eram caminhos frequentes para mim. Ainda era tempo de ginásio (hoje Ensino Fundamental) e as aulas noturnas eram a “pá de cal” para me derrubar de cansaço. Depois veio o trabalho numa concessionária de veículos, e me recordo que, em um período de Natal, acometido de pneumonia, mas trabalhando, desmaiei na rua, quando fazia um longo trajeto para a entrega de brindes a clientes. Na sequência veio o trabalho como office boy em uma famosa fábrica de balas.
Quero deixar registrado que não aconselho aos pais o trabalho de crianças e jovens antes dos 16 anos. Não é saudável suprimir etapas importantes da vida, como a infância e o início da adolescência, para dedicação ao trabalho. O resultado psíquico disso não é legal. Daí a importância de se exigir do Executivo e do Legislativo políticas públicas que estimulem o acesso à educação integral e de qualidade, além de programas sociais, para que as famílias não necessitem estimular o trabalho dos filhos menores.
Continuando, um emprego mais digno foi minha primeira conquista importante. Aos 17 anos fui aprovado em concurso público para trabalhar como auxiliar administrativo na saudosa Ceterp [Centrais Telefônicas de Ribeirão Preto]. Ali já aparecia o resultado da dedicação e das renúncias. Na prova escrita, fui o primeiro colocado e, não fosse esse emprego, eu não teria conseguido pagar a faculdade de Direito, na qual ingressei também aos 17, concomitantemente ao novo trabalho. Naquele tempo, o curso se concluía em quatro anos, de modo que com 20 eu já era bacharel.
As renúncias continuaram. O objetivo de ingressar na carreira do Ministério Público me impunha estudo em todo o período não ocupado pelo trabalho, incluindo finais de semana e madrugadas. Para a grande maioria, aquele era o período de baladas. Para mim era estudar, estudar e estudar.
Em dezembro de 1986, realizei o meu sonho e maior objetivo de vida. Fui aprovado no concurso. Neste ano completarei 40 anos de serviços prestados ao Ministério Público, à Justiça e aos mais necessitados. Hoje também sou professor universitário nas áreas de Direito Civil e Direito Público, mestre em Direito, palestrante nas áreas de Direito Público, Administração Pública, Direito do Consumidor, Liderança e outros temas, além de manter o canal @Resenha Plural, no Youtube. De 2017 a 2020, fui vice-prefeito de Ribeirão Preto.
Em uma sociedade onde o dinheiro se tornou o bem maior, alguns poderão dizer que traçar como principal objetivo de vida ingressar em uma carreira pública, que não propicia enriquecimento financeiro, é sonhar pequeno. Talvez fosse mesmo algo medíocre para um carreirista, para quem a vida não ofereceu outros horizontes, mas posso afirmar o quanto é gratificante contemplar minha vocação para homem público e servidor da sociedade – que sempre me acometeu – fazendo parte de uma instituição que ao longo dos anos tem militado para que tenhamos um tecido social mais justo e igualitário."