Anatomia do aumento

Anatomia do aumento

Alta no preço do óleo diesel, motivado pela escassez do produto no mercado internacional, deve impactar no preço dos outros combustíveis

Na segunda-feira, dia 9 de maio, a Petrobras anunciou o reajuste de 8,87% no preço do óleo diesel para as distribuidoras, após 60 dias do último aumento. O preço do litro do diesel passou de R$ 4,51 para R$ 4,91. De acordo com a estatal, o reajuste foi necessário frente a uma redução da oferta global do diesel. “Os estoques globais estão reduzidos e abaixo das mínimas sazonais dos últimos cinco anos nas principais regiões supridoras. Esse desequilíbrio resultou na elevação dos preços de diesel no mundo inteiro, com a valorização deste combustível muito acima da valorização do petróleo. A diferença entre o preço do diesel e o preço do petróleo nunca esteve tão alta”, informou a Petrobrás. Com o aumento, a parcela da Petrobras no preço final do derivado do petróleo ao consumidor passa de R$ 4,06, em média, para R$ 4,42 por litro. A petrolífera ainda ressalta que o preço praticado é apenas um dos elementos que compõem o preço que chega ao consumidor final. 

Segundo o professor Carlos Roberto de Godoy, da Faculdade de Economia Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP/USP), além da fração que fica com a Petrobras em função dos custos de extração, produção e refino do petróleo, são adicionados os impostos, os custos de revenda e distribuição, e o biodiesel. “Especialmente o diesel, mas também os outros combustíveis, são influenciados pelo preço do petróleo no mercado internacional. O Brasil é um exportador de petróleo bruto e importador de vários produtos derivados de petróleo, sendo o diesel um deles. Além da Petrobras, temos outros agentes do mercado de energia que importam em menor quantidade, e quando o combustível chega ao distribuidor, são adicionados o biocombustível, que também tem um custo, o valor da revenda e o imposto estadual”, explica o professor.

Godoy destaca que uma resolução da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) de 2008, estabeleceu a obrigatoriedade da adição do biodiesel ao óleo diesel, inicialmente na proporção de 2%, como forma de incentivar a produção nacional. A proporção do combustível renovável adicionado ao óleo diesel, de origem fóssil, subiu gradualmente até 2021, quando chegou a 13%. Desde janeiro deste ano a adição reduziu para 10% na mistura obrigatória, por meio de resolução do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovada pelo presidente Jair Bolsonaro e válida para todo ano de 2022.

O custo do biodiesel na composição do preço do diesel, porém, é o menor dos fatores. O ICMS é cobrado sobre uma média do preço final ao consumidor. Se aumentam os preços em uma região, o ICMS oscila em função disso. Quanto maior o preço, mais o ICMS vai impactar. “Em uma avaliação mais ampla, a população brasileira deve escolher se quer a Petrobras como uma empresa privada ou como estatal. A principal empresa produtora dos combustíveis no Brasil é uma empresa estatal, de controle do governo federal e como controlador ele decide as melhores políticas para a empresa, seguindo os desejos da população”, completa Godoy.

EFEITO CASCATA

De acordo com o Sistema de Levantamento de Preços (SLP) da ANP, em Ribeirão Preto, no dia 18 de maio, o preço do diesel comum, também chamado de diesel S500 por possuir 500 partes por milhão (ppm) de enxofre, variava entre R$ 6,49 e R$ 7,04. A média no preço de venda no período do dia 15 a 21 é de R$ 6,77. Já o diesel S10, com menor teor de enxofre na composição, registrou preços entre R$ 6,59 e R$ 7,09, com média de R$ 6,59 e R$ 6,87 no preço de venda, no mesmo período.

Na avalição de Fernando Rocca, membro da associação de postos Núcleo Postos Ribeirão Preto, o recente aumento no preço do óleo diesel impacta diretamente no preço dos outros combustíveis. “Esse aumento do diesel de quase 9% anunciado pela Petrobras, provoca também o aumento do etanol e da gasolina, pois são produtos transportados por caminhões movidos a diesel. Ainda tem um impacto adicional no etanol pois a cana-de-açúcar também é transportada por caminhões, então o aumento no diesel impacta nos outros combustíveis”, detalha.

Ainda segundo o gestor, o preço dos combustíveis é influenciado pela cotação do petróleo no mercado internacional e pela variação do dólar. “A guerra que vem acontecendo entre Rússia e Ucrânia afetou a produção de petróleo. Os estoques foram muito reduzidos e a demanda continua, isso faz com que o preço dispare no mercado internacional e a Petrobras não tem outra alternativa a não ser repassar o aumento de cerca de quarenta centavos por litro, que não é a totalidade do preço no mercado externo, mas é grande parte da defasagem”.

“O mercado nacional tem uma variação de preço no diesel e na gasolina muito afetadas pela produção de petróleo e pela variação cambial, enquanto o etanol depende muito da safra de cana-de-açúcar”, conclui Rocca. 


Foto: Agência Brasil

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