Páscoa em Ribeirão Preto exige pesquisa, muda hábitos e impulsiona pequenos negócios
Pesquisa do Procon aponta variação de até 60% no preço dos ovos e Sebrae destaca caminho para pequenas empresas aproveitarem a data
O consumidor mais atento e com melhor memória pode ter notado que os ovos de páscoa estão mais tímidos em variedade e quantidade nos corredores dos supermercados de Ribeirão Preto. “Neste ano, a indústria refez a rota e nós também notamos uma tentativa de ser mais assertivos na oferta dos produtos que mais tem saída e mais agradam o consumidor”, explica Antônio Noventa, gerente de um supermercado na zona oeste de Ribeirão Preto.
Os números também apontam para uma necessidade de pesquisa maior quando o assunto é economizar na compra do ovo de Páscoa. Um levantamento do Procon-SP identificou variações de até 59,58% no preço de um mesmo produto em Ribeirão. Em um caso específico, o produto pode ser encontrado por R$ 66,99 ou chegar a R$ 106,90, dependendo do estabelecimento.
Para o coordenador regional do Procon, Michel Braga Freitas, a disparidade tem múltiplas explicações. “Essa variação ocorre por fatores como estratégia comercial, custos de transporte, armazenamento e até a localização do estabelecimento. Regiões mais nobres tendem a ter preços mais altos”, afirma. Ele também chama atenção para um detalhe que muitas vezes passa despercebido: o valor agregado dos brindes. “Ovos com personagens ou brinquedos acabam sendo mais caros não necessariamente pela quantidade de chocolate, mas pelo licenciamento e pelas certificações exigidas.”
A consequência direta desse cenário é uma mudança de comportamento. Se antes a escolha passava pelo sabor ou pela marca, agora o preço entrou definitivamente na equação. E não só nos chocolates.
A mesma pesquisa do Procon encontrou variações ainda mais expressivas em itens básicos da ceia de Páscoa, como a batata, que pode
custar até 133% a mais dependendo do local, e a sardinha, com diferença superior a 240%. “Isso mostra que o consumidor precisa ter disposição para pesquisar. Não dá mais para comprar no primeiro lugar”, diz Freitas.
Por trás desse encarecimento, o preço do cacau também ajuda a explicar um aumento geral nos valores dos ovos. Segundo o professor de Economia José Rita Moreira, a matéria-prima registrou aumento de cerca de 40% no mercado internacional, pressionada por problemas de produção na África e pela alta demanda de países como a China. O impacto chega direto às prateleiras. “Os preços dos ovos subiram de 25% a 36% em relação a 2025, superando a inflação oficial. Um ovo de 277 gramas que custava R$ 42 passou para R$ 57. Já um maior, de 540 gramas, foi de R$ 88 para R$ 120”, explica Moreira.
Mesmo em barras, o chocolate, que já foi um item mais acessível, assume cada vez mais um caráter aspiracional. “As famílias acabam gastando de 20% a 30% a mais na cesta de Páscoa. Para uma renda média de cerca de R$ 3.200, isso pesa”, afirma o professor. Com isso, alternativas mais flexíveis e personalizadas passam a ganhar espaço entre os consumidores.
Ainda assim, a data resiste. Parte dos consumidores prefere adaptar a compra, em vez de abrir mão dela. É o que também observa o varejo. Antônio Noventa acompanha de perto o comportamento dos preços e das vendas. “Num produto mais barato, tivemos aumento de cerca de 9%. Nos intermediários, acima de 10%. Mas já percebemos uma tentativa das distribuidoras de reposicionar os preços agora no final, para não perder venda”, diz.
Segundo ele, o movimento também depende da reação do consumidor. “Se as vendas desaceleram, a indústria tende a reduzir preço para girar o estoque. Mas se continua vendendo, mantém o valor. Este ano veio menos produto para o mercado, então tudo fica mais ajustado.”
Se o preço pesa, o comportamento também muda. Para o Procon, um dos principais erros do consumidor ainda é a compra por impulso. “Muitas vezes a pessoa se deixa levar pela embalagem ou pelo brinde e não compara o peso líquido com o preço”, alerta Freitas. Ele lembra que, em muitos casos, barras de chocolate da mesma marca oferecem melhor custo-benefício.
Além disso, há cuidados básicos que seguem sendo negligenciados, como verificar validade, composição e informações obrigatórias, especialmente em produtos com brinquedos. Esse cenário mais atento não significa, no entanto, um consumo em queda. Pelo contrário. Dados do Sebrae-SP mostram que 41% dos consumidores pretendem gastar mais na Páscoa de 2026, enquanto outros 34% devem manter o mesmo nível de consumo. O que muda é a forma de comprar. “Hoje o cliente não compra só chocolate, compra experiência”, resume a confeiteira Letícia Carvalho Botelho dos Santos, antecipando um movimento que ganha força na cidade.
ARTESANAL CRESCE
Se os ovos convencionais enfrentam desafios para equilibrar preço e saída de produtos, os pequenos produtores da região de Ribeirão Preto encontraram um espaço fértil para avançar durante a Páscoa. Segundo o Sebrae, há mais de 83 mil microempreendedores individuais na cidade. Olhando para os consumidores, 42% das pessoas demonstram maior interesse por chocolates artesanais, índice superior ao registrado em grandes estabelecimentos. A explicação passa mais pela experiência do que pelo preço.

Produtos mais personalizados, sabores novos e forte presença na internet podem explicar o sucesso de alguns pequenos e doces negócios. À frente de uma confeitaria na zona sul há dez anos, a Letícia diz ter visto o mercado mudar e precisou se adaptar. “Hoje a confeitaria precisa estar conectada às redes sociais, porque é ali que surgem muitas tendências e onde o comportamento do cliente fica mais evidente. Mas não é abandonar o tradicional, é adaptar”, explica.
Foi assim que surgiu um dos destaques deste ano, um ovo inspirado em um bolo viral. A proposta é oferecer a tão cobiçada experiência. “É um público que valoriza o sabor e a experiência. Não compra só pela data, mas pelo desejo de consumir algo especial.” Esse perfil ajuda a explicar por que, mesmo com preços mais altos, o artesanal encontra espaço. “O cliente aceita pagar mais quando percebe valor. Seja na qualidade, na personalização ou na apresentação”, diz.
O desafio, ainda assim, é equilibrar custos. “O chocolate pesa muito, mas a mão de obra também. É um produto 100% artesanal, feito diariamente, sem conservantes. Isso exige equipe, estrutura e tempo.” Para manter as vendas, a solução tem sido diversificar. “A gente ajustou formatos, criou opções além do chocolate, como brownies e bolos, e trabalha com diferentes tamanhos”, afirma Letícia.
A estratégia dialoga com o comportamento do consumidor. “Para consumo próprio, muitos investem em um produto mais elaborado. Já para presentear, preferem kits menores, para variar, surpreender e atender mais pessoas. Temos produtos clássicos, como o ovo de brownie, que é sucesso desde 2018, e também novidades que despertam curiosidade.”
José Rita Moreira explica que há um aprendizado embutido no processo de compra, venda, presentear e ser presenteado em tempos complicados para o bolso. “A Páscoa deste ano testa a resiliência econômica das famílias, mas também estimula um consumo mais consciente.”