Construção civil quer aposentar os termos “pedreiro” e “servente”
Setor propõe novas nomenclaturas, plano de carreira e qualificação para enfrentar a falta de mão de obra nos canteiros
A falta de mão de obra qualificada, um dos principais gargalos da construção civil, levou empresas e trabalhadores a buscar uma mudança na forma como as carreiras são organizadas no setor. Lançadas nesta semana, em São Paulo, as Trilhas Profissionais da Construção estabelecem critérios comuns de qualificação e progressão profissional, independentemente da empresa em que o trabalhador esteja empregado.
O programa foi desenvolvido pelo SindusCon-SP e pela Fiesp, em parceria com Senai-SP, Sintracon-SP e Feticom. A proposta é organizar as carreiras em sete linhas de atuação técnica e sete níveis de evolução, definidos a partir de experiência, capacitação e certificações.
Na prática, a intenção é permitir que um profissional saiba quais competências precisa desenvolver para avançar na carreira, algo que hoje varia de uma construtora para outra, inclusive na nomenclatura dos cargos e nos critérios utilizados para promoções.
Uma das mudanças mais visíveis será justamente nos nomes das funções. Termos tradicionais dos canteiros de obras, como “servente” e “pedreiro”, deverão dar lugar a denominações como “assistente de produção” e “oficial de produção”. O SindusCon-SP pretende buscar também a atualização dessas ocupações na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), mantida pelo Ministério do Trabalho.
Formação dentro do canteiro
A qualificação ficará a cargo das empresas, com cursos desenvolvidos pelo Senai-SP para cada uma das linhas profissionais. As aulas poderão ocorrer nos próprios canteiros, com duas horas semanais da jornada de trabalho destinadas à formação, ou nas unidades da instituição.
A iniciativa tenta enfrentar também a alta rotatividade. Segundo Newton José Soares Cavalieri, diretor do Departamento da Indústria da Construção e Mineração da Fiesp, mais da metade dos trabalhadores formais do setor permanece por até um ano no emprego. “Dando clareza sobre as possibilidades de carreira e criando condições para que possam crescer dentro do setor, cria-se um ambiente de aprendizado contínuo e acúmulo de experiências”, afirma.
A expectativa das entidades é que uma trajetória profissional mais clara ajude a construção a disputar trabalhadores com outras atividades. Segundo o SindusCon-SP, a remuneração média de entrada no setor formal gira em torno de R$ 2.400, enquanto mestres de obras podem receber entre R$ 15 mil e R$ 20 mil em São Paulo.
Reflexos em Ribeirão Preto
Embora o lançamento tenha ocorrido na capital, o modelo alcança o interior paulista e poderá ter reflexos nas construtoras de Ribeirão Preto. O SindusCon-SP mantém uma diretoria regional na cidade.
Para Fernando Junqueira, diretor regional da entidade em Ribeirão Preto, a mudança das nomenclaturas também pode interferir na maneira como as profissões são percebidas dentro dos canteiros. “É uma boa oportunidade de realinharmos as relações de trabalho com nossos colaboradores e também proporcionarmos uma experiência diferenciada no trabalho”, afirma.
O presidente do SindusCon-SP, Yorki Estefan, diz que um dos objetivos é tornar o setor mais atraente para públicos que hoje encontram outras opções de trabalho. Ele cita, entre eles, jovens da geração Z, mulheres, migrantes e trabalhadores atualmente na informalidade.
Projeto começa com 30 empresas
As Trilhas Profissionais serão testadas inicialmente durante 12 meses. Dez construtoras participarão voluntariamente do projeto-piloto, cada uma ligada a duas empreiteiras, totalizando 30 empresas.
Depois desse período, o modelo será avaliado. A intenção das entidades é incorporá-lo às convenções coletivas da construção no Estado de São Paulo e, posteriormente, levá-lo a outros estados em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
Para Gilmar Antonio Guilhen, presidente da Feticom, a proposta é resultado de dois anos de discussões entre representantes das empresas e dos trabalhadores. “Foi um período importante de diálogo para chegar a uma proposta que valorize a qualificação e atenda às necessidades do setor e dos trabalhadores”, afirma.
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