Recesso escolar desafia rotina de famílias com crianças autistas

Recesso escolar desafia rotina de famílias com crianças autistas

Especialista orienta sobre como lidar com a quebra de rotina durante a “Semana do Saco Cheio”

O recesso escolar conhecido como “Semana do Saco Cheio”, entre os feriados de Nossa Senhora Aparecida (12 de outubro) e o Dia do Professor (15), costuma ser um período de descanso para alunos e professores. Mas, para famílias de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a pausa pode representar mais um desafio do que um alívio.

 

Mudanças na rotina, viagens e ambientes com muitos estímulos podem causar desconforto, crises emocionais e desorganização comportamental em crianças com TEA, impactando também a dinâmica familiar. De acordo com o Censo Demográfico de 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem mais de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo, o equivalente a 1,2% da população. Entre crianças de 5 a 9 anos, a taxa é ainda maior, de 2,6%.

 

A especialista em aprendizagem e alfabetização Alessandra Freitas, que atua há mais de 20 anos com educação inclusiva, explica que a previsibilidade é um dos principais fatores que garantem segurança às crianças com autismo. “Quando a rotina é alterada sem preparo, é comum surgirem reações como irritabilidade, isolamento, choro, agressividade ou aumento nas estereotipias. O ideal é preparar a criança com antecedência para essas mudanças e manter alguns pontos de referência do dia a dia”, orienta.

 

Segundo ela, muitos comportamentos considerados “difíceis” são, na verdade, formas de comunicação. “Quando a criança está mais agitada ou retraída, ela está dizendo que algo está em desequilíbrio. Não se trata de birra, mas de uma tentativa de expressar desconforto”, afirma Alessandra.

 

Estudos reforçam a importância da estabilidade para o bem-estar dessas crianças. Um artigo da Revista Brasileira de Psiquiatria mostra que 34% das crianças com TEA apresentam seletividade alimentar severa, e 27% têm dificuldades comportamentais nas refeições. Mudanças na rotina podem agravar esses sintomas e provocar distúrbios de sono, regressões e resistência a ambientes novos.

 

Uma pesquisa da plataforma Genial Care também revelou que 49% das pessoas com autismo já apresentaram sinais de autolesão, e 7% relataram tentativas de suicídio. Os números reforçam o peso emocional envolvido em situações de estresse e imprevisibilidade.

 

Diante desse cenário, especialistas recomendam que as famílias busquem equilíbrio entre flexibilidade e estrutura. “Mesmo fora da escola, é possível manter elementos da rotina com o uso de quadros visuais, imagens das atividades do dia ou pequenas histórias que antecipem mudanças. O importante é que a criança saiba o que esperar”, explica Alessandra.

 

Ela destaca ainda a importância de respeitar o ritmo de cada criança. “Atividades sensoriais, momentos de pausa e o respeito aos interesses específicos fazem parte do processo. Nem tudo precisa sair como planejado, e está tudo bem. O importante é oferecer acolhimento e segurança para que o período seja leve para todos”, diz.


Foto: Divulgação

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