Saúde mental precisa ser discutida durante todo o ano, defendem psicólogos
Setembro Amarelo promove a conscientização sobre a prevenção do suicídio. Especialistas, porém, apontam que a discussão sobre saúde menta precisa avançar para além do período da campanha
Os problemas de saúde mental e a negligência com o sofrimento precisam ser discutidos durante todo o ano. Em setembro, o tema ganha visibilidade com o Setembro Amarelo. A campanha começou no Brasil em 2015, por iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina. O dia 10 de setembro marca o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio. A data foi criada em 2003 pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A cor amarela, adotada na campanha, remete à história de Mike Emme. O jovem norte-americano tinha 17 anos quando morreu por suicídio, em 1994. Seu carro favorito era um Mustang amarelo.
Os dados no Brasil mostram a urgência do tema. Segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, tabulados pelo DATASUS, o Brasil registrou 157.378 mortes por lesões autoprovocadas voluntariamente (suicídios) entre 2015 e 2025. Cerca de 39 mortes por dia. O número cresceu de forma expressiva ao longo do período: foram 11.178 óbitos em 2015, contra 16.470 em 2025, um aumento de 47%. O maior número da série foi registrado em 2023, com 17.002 mortes, seguido por uma pequena redução nos dois anos seguintes. Considerando a estimativa do IBGE de 213 milhões de habitantes do país em 2025, o resultado corresponde a uma taxa bruta de aproximadamente 7,7 mortes por suicídio a cada 100 mil habitantes. Os dados de 2025 são preliminares e podem sofrer alterações.
O perfil das vítimas também revela uma forte predominância masculina. Das 157 mil mortes registradas no período, 123.195 foram de homens (78,3%), contra 34.151 de mulheres (21,7%). A maior concentração está entre adultos: as faixas de 20 a 59 anos somam 117.318 mortes, cerca de 74,5% do total. O maior número absoluto ocorreu entre pessoas de 30 a 39 anos, com 32.873 mortes, seguido pelas faixas de 20 a 29 anos (31.859) e 40 a 49 anos (29.196).
Diferente do senso comum, países mais ricos não apresentam necessariamente as maiores taxas de suicídio. Os dados da Organização Mundial da Saúde mostram que a relação entre renda e suicídio é mais complexa. Em 2012, países de renda média-baixa apresentavam taxa de 14,1 mortes por 100 mil habitantes, acima dos países de baixa renda (13,4) e dos países de alta renda (12,7). Já os países de renda média-alta registravam a menor taxa entre os grupos, com 7,5 mortes por 100 mil habitantes.
O ranking por países reforça essa diferença. Em 2019, as maiores taxas estavam concentradas principalmente em países de menor renda, como Lesoto (87,5), Guiana (40,9), Essuatíni (40,5) e Kiribati (30,6). Isso mostra que riqueza, isoladamente, não explica a ocorrência do suicídio. Condições sociais, acesso à saúde, desigualdade, contexto cultural e outros fatores também interferem no fenômeno.
CRESCIMENTO
O aumento dos suicídios registrados no Brasil nos últimos anos não pode ser explicado apenas por uma melhora nas notificações. Segundo a psicóloga e professora Erica Zampolo Miguel, psicóloga e professora, os dados de mortalidade apontam para um crescimento real dos óbitos, embora a qualidade dos registros também possa interferir nas estatísticas. “É muito importante fazer uma distinção técnica: suicídio e tentativa de suicídio não são medidos exatamente pelo mesmo sistema de informação.” Os óbitos por suicídio são registrados principalmente nos sistemas de mortalidade, enquanto as tentativas e lesões autoprovocadas são acompanhadas por meio das notificações de agravos e outros registros de saúde. Por isso, o aumento das notificações de tentativas não pode ser interpretado automaticamente como crescimento proporcional dos suicídios. Uma tentativa pode não resultar em morte, enquanto o óbito é registrado em outra base.
Segundo Erica, os dados disponíveis indicam que houve, de fato, aumento dos óbitos ao longo da última década. “Temos evidências de um aumento real da mortalidade por suicídio, ao mesmo tempo em que a qualidade e a cobertura dos registros também precisam ser consideradas.” As razões para esse crescimento são múltiplas. Entre elas estão impactos sociais e econômicos, desigualdades, isolamento, violência, conflitos familiares, uso de álcool e outras drogas, sofrimento psíquico, dificuldades de acesso ao cuidado e experiências de discriminação e exclusão em determinados grupos.
Para a psicologa Ana Flávia de Oliveira Santos, o crescimento também precisa ser compreendido a partir das condições de vida contemporâneas. Ela cita a aceleração do cotidiano, a fragilização dos vínculos, dificuldades econômicas e profissionais, precarização do trabalho, insegurança financeira, perdas, solidão e desigualdades sociais. “O suicídio não se reduz ao sofrimento psíquico, mas precisa ser compreendido em sua articulação com características da vida contemporânea.” A psicóloga também chama atenção para uma sociedade marcada pela exigência de desempenho, comparação e exposição permanente. Nesse contexto, expectativas pessoais e profissionais podem entrar em conflito com as condições concretas de vida, afetando referências de valor e pertencimento.
A psicóloga e professora Juliana Vendruscolo acrescenta que aumento dos casos e aumento das notificações podem estar ocorrendo simultaneamente. Para ela, o cenário também reflete as contradições do período atual, marcado por avanços tecnológicos e mudanças de costumes, mas por regras sociais rígidas e expectativas difíceis de alcançar. “Há uma ‘falsa ideia de liberdade’, sobre valores, atitudes e comportamentos, mas que está alicerçada em regras muito rígidas e implícitas.” Na avaliação de Juliana, a valorização do sucesso profissional, pessoal e econômico convive com o discurso de que cada indivíduo deve fazer aquilo de que gosta. Para grande parte da população, porém, conciliar essas expectativas é inviável. O resultado, afirma, pode ser uma sensação de deslocamento e de não pertencimento, especialmente entre os mais jovens. “Tenho a impressão que, para muitas pessoas, inclusive as mais jovens, tais situações formam uma espécie de vácuo, em que nunca conseguem se situar, chegando a ficar insuportável.”
PARA ALÉM DA CAMPANHA
Embora o Setembro Amarelo tenha papel importante na visibilidade e na quebra do silêncio em torno do suicídio, todos os profissionais de psicologia ouvidos ela reportagem defendem que a atenção à saúde mental não pode se restringir ao mês da campanha. Para Erica Zampolo, prevenção precisa fazer parte de ações permanentes. “Prevenção também é falar sobre sofrimento antes que ele se transforme em uma crise”, afirma Erica. Para ela, isso envolve fortalecer a rede de saúde mental, ampliar o acesso ao atendimento psicológico e psiquiátrico, capacitar profissionais para identificar situações de risco e desenvolver ações em escolas e universidades. O acompanhamento de pessoas que já passaram por uma tentativa de suicídio também deve integrar esse trabalho.
Ana Flávia de Oliveira Santos amplia a discussão e questiona a ideia de que o suicídio possa ser compreendido apenas como uma questão individual. Segundo ela, embora o sofrimento psíquico e os transtornos mentais possam estar presentes, o fenômeno é atravessado por condições sociais, econômicas, relacionais e culturais. “O sofrimento deve ser compreendido dentro das condições concretas de vida da pessoa, e não isoladamente.” A psicóloga também chama atenção para os limites das campanhas sazonais e para o risco de abordagens simplificadoras. A comunicação sobre o suicídio, afirma, precisa considerar tanto pessoas em sofrimento quanto familiares e amigos que enfrentam o luto. Para ela, a prevenção deve se transformar em uma política permanente, articulada entre saúde, educação, assistência social e comunidade, com garantia de acesso a direitos e condições de cuidado.
Juliana Vendruscolo, acrescenta outra ressalva: o próprio conceito de prevenção precisa ser discutido quando aplicado ao suicídio. Ela considera inadequado associá-lo automaticamente à ideia de doença, já que o ato de interromper a própria vida nem sempre está relacionado a uma patologia. “É preciso considerar diferentes aspectos, como bio, psico, sociais e culturais.” A especialista também critica mensagens genéricas de campanhas nas redes sociais, como “Você não está sozinho” e “Estou aqui para te ouvir”. Para ela, essas frases podem provocar em familiares e amigos de pessoas que morreram por suicídio uma sensação de incompetência ou fracasso. Em vez de concentrar a atenção em um único mês, defende uma perspectiva mais ampla e contínua sobre saúde mental. “Deveríamos celebrar todos os meses uma grande paleta de cores, atentos àquilo que se torna prioridade para cada sociedade e para cada indivíduo.”
O PESO DA MASCULINIDADE
Os homens representam a maioria das mortes por suicídio no Brasil. Para o psicólogo André Villela, porém, essa diferença não deve ser interpretada como resultado de uma característica natural masculina. A maior vulnerabilidade está relacionada, entre outros fatores, a modelos de masculinidade construídos social e historicamente. “O ideal cultural de homem está associado à autonomia, ao controle, à virilidade, ao sucesso profissional e afetivo e, principalmente, à ideia de invulnerabilidade.” Segundo Villela, a necessidade de demonstrar força e autossuficiência pode interferir na relação dos homens com o cuidado e dificultar a busca por ajuda.
Em situações de dificuldades profissionais e financeiras, solidão, baixa autoestima ou problemas nos relacionamentos, essas experiências podem ser interpretadas como fracasso pessoal. Um homem que não consegue emprego, independência financeira, reconhecimento social ou um relacionamento pode entender a situação não apenas como uma dificuldade, mas como uma falha em sua própria identidade.
Essa lógica também interfere na maneira de lidar com o sofrimento. “Existe, sim, uma relação importante entre determinados padrões de masculinidade e a dificuldade de buscar ajuda.” Para Villela, admitir medo, dependência ou vulnerabilidade pode ser percebido como incompatível com aquilo que se espera de um homem. O psicólogo ressalta, porém, que isso não significa que homens não procurem acolhimento. O problema é quando a própria ajuda é convertida em uma lógica de superação, desempenho e produtividade. O sofrimento também pode aparecer como isolamento, desesperança, hostilidade, ressentimento ou dificuldade de estabelecer vínculos.
Por isso, Villela defende que os profissionais estejam preparados para reconhecer manifestações que não chegam como tristeza ou pedidos explícitos de ajuda. A prevenção também deve criar espaços em que os homens possam falar sobre suas dificuldades sem transformar a vulnerabilidade em sinal de fraqueza. “É necessário construir ao longo do ano uma cultura na qual um homem possa reconhecer que está vulnerável sem interpretar essa vulnerabilidade como prova de que fracassou enquanto homem.”
AÇÕES MUNICIPAIS
A Prefeitura de Ribeirão Preto, por meio da Secretaria Municipal da Saúde, promove durante setembro ações do Setembro Amarelo voltadas à valorização da vida e ao fortalecimento das redes de apoio em saúde mental. As atividades ocorrem nas unidades básicas e de saúde da família dos quatro distritos, com rodas de conversa, dinâmicas educativas, terapias complementares e orientações sobre os canais de acolhimento. A principal ação ocorreu no dia 10, na USF Dr. Vinício Plastino, no Jardim Marchesi, com discussões sobre sofrimento emocional, ansiedade, depressão, burnout e saúde mental da mulher, além de orientação sobre sinais de alerta e a rede de apoio. Outras unidades realizam rodas de conversa, oficinas de memória, atividades físicas e ações integradas a grupos de reabilitação, música e artesanato. Em todas elas, pacientes recebem informações sobre os pontos de acolhimento disponíveis na cidade.
Foto: Magnific