Sorriso pra frente
Formação de novos profissionais foca na odontologia clínica, funcional e estética

Sorriso pra frente

Pesquisa, planejamento digital e integração com outras áreas da saúde transformam tratamentos e ampliam caminhos para os futuros dentistas

Ela queria aumentar os lábios. A insatisfação com a falta de projeção levou uma paciente a procurar um preenchimento, mas a avaliação odontológica identificou que a ausência de dentes anteriores havia comprometido o suporte da região. Recuperar esse apoio, com a reabilitação oral, permitiu atender à queixa sem recorrer ao procedimento inicialmente desejado. As dores frequentes na face e os sinais de bruxismo também passaram a fazer parte do cuidado.

 

A cirurgiã-dentista Ana Flávia Simões Barbosa, professora de Odontologia da Unaerp, lembra do caso. “Foi justamente o olhar profissional e abrangente que permitiu compreender que a solução não estava simplesmente em aumentar o volume dos lábios, mas em restabelecer o suporte perdido.”

 

A profissão ainda é bastante associada a cáries, aparelhos e implantes, mas oferece caminhos que passam também por hospitais e laboratórios. Nesses espaços, cirurgiões-dentistas recuperam estruturas da face, investigam dores e desenvolvem materiais e tratamentos.

 

Com o Dia Mundial do Dentista, em 3 de outubro, e o Dia do Cirurgião-Dentista no Brasil, em 25 de outubro, o mês convida a olhar para o futuro de uma profissão cada vez mais ligada à pesquisa, à tecnologia e ao trabalho em equipe. No atendimento de Ana Flávia, que atua nas áreas de Dentística, Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial e Harmonização Orofacial, uma queixa aparentemente restrita à estética pode exigir a investigação de diferentes estruturas. No caso da paciente que desejava o preenchimento, o tratamento envolveu ainda encaminhamento para acompanhamento fisioterapêutico e psicológico.

 

A mesma atenção é necessária diante da dor. As disfunções temporomandibulares, conhecidas como DTMs, envolvem os músculos da mastigação, as articulações responsáveis pelos movimentos da mandíbula e estruturas associadas. Podem causar limitações para abrir a boca, travamentos e dificuldades para mastigar ou falar. Já a dor orofacial abrange dores na face e na boca de diferentes origens.

 

“Em alguns casos, a dor pode ser proveniente dos músculos ou das articulações e até ser percebida em uma região diferente daquela em que se origina”, afirma a professora. Identificar essa origem é o que permite direcionar o tratamento e evitar intervenções desnecessárias nos dentes.

 

NO HOSPITAL

 

A recuperação de funções como mastigar, falar e respirar também orienta o trabalho do cirurgião bucomaxilofacial. Professor de Cirurgia Bucomaxilofacial e Odontologia Hospitalar da Unaerp, Marcelo Santos Bahia atua em uma especialidade que trata fraturas da face, infecções graves de origem dentária, cistos e tumores dos maxilares e deformidades dentofaciais, entre outras condições.

 

Conforme a complexidade do caso, o atendimento reúne profissionais da emergência, da cirurgia plástica, da neurocirurgia e da terapia intensiva. Enfermagem, fisioterapia e fonoaudiologia também participam do cuidado e da recuperação. Durante sua formação, Bahia integrou a equipe que atendeu uma criança com um trauma importante na região frontal após ficar presa em um elevador. O tratamento em um hospital infantil exigiu a participação de diferentes especialidades, acompanhamento rigoroso e uma recuperação prolongada. Segundo o professor, a paciente recuperou suas funções sem sequelas e segue em acompanhamento. “Foi necessário acolher uma criança e sua família em um momento de grande fragilidade”, recorda.

 

Mesmo em procedimentos conhecidos pela transformação da aparência, a função ocupa lugar central. É o caso da cirurgia ortognática, indicada para corrigir determinadas alterações na posição dos maxilares que não podem ser resolvidas adequadamente apenas com aparelhos ortodônticos. Essas condições podem comprometer a mastigação e o encaixe dos dentes. “A decisão de operar não deve partir simplesmente da aparência do paciente ou de uma medida isolada”, ressalta Bahia. A avaliação envolve exame clínico, imagens e planejamento conjunto com o ortodontista, considerando as necessidades de cada pessoa.

 

ANTES DO CONSULTÓRIO

 

Outra parte dessa Odontologia acontece longe da cadeira de atendimento. Nos laboratórios, cirurgiões-dentistas investigam materiais, testam técnicas e acompanham os resultados dos tratamentos. A pesquisa abre caminhos na docência, na indústria e no desenvolvimento de produtos, além de orientar as decisões de quem trabalha exclusivamente na clínica.

 

Aline Evangelista de Souza Gabriel, professora associada da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da USP, concilia ensino, atendimento e pesquisa há 20 anos. Entre seus estudos estão a prevenção de doenças bucais, as restaurações, a recuperação de dentes que passaram por tratamento de canal e o uso do laser.

 

“O cirurgião-dentista que concilia a carreira acadêmica com o consultório consegue identificar os problemas do dia a dia, testar novos materiais e técnicas nos laboratórios da Universidade, conduzir estudos com pacientes e avaliar a longevidade dos tratamentos”, afirma.

 

Uma das propostas que orientam esse trabalho é a Odontologia minimamente invasiva. Na prática, significa preservar ao máximo a estrutura natural, com diagnóstico precoce, prevenção e intervenções que evitem desgastes desnecessários.

 

A professora cita a evolução das restaurações. Antes, mesmo lesões pequenas podiam exigir preparo de cavidade com formato capaz de reter o amálgama, material metálico de cor escura. Com a evolução dos materiais adesivos, tornou-se possível restaurar com menor desgaste.

 

Essa preservação também precisa entrar na conversa quando o paciente busca mudanças estéticas. Segundo Aline, clareamento, pequenos ajustes com resina ou tratamento ortodôntico podem atender a diferentes queixas, conforme a avaliação. “Desgaste de dente saudável é irreversível: o esmalte removido não volta.”

 

Para ela, a indicação deve considerar as alternativas menos invasivas. Desgastar dentes saudáveis para acompanhar tendências ou reproduzir um padrão único de sorriso é um exemplo de intervenção desnecessária.

 

TECNOLOGIA COM CRITÉRIO

 

Escaneamentos, impressão tridimensional e programas de planejamento já aproximam essas diferentes atuações. Ana Flávia explica que os recursos digitais podem auxiliar na confecção de restaurações e placas oclusais e na análise das características faciais.

 

Nas cirurgias, Bahia descreve a combinação de tomografias, modelos digitais dos dentes e fotografias tridimensionais para planejar movimentos ósseos e produzir guias personalizados. Isso permite estudar possibilidades antes do procedimento e antecipar dificuldades. Permanecem, porém, limitações de custo, acesso, treinamento e qualidade dos exames. A resposta dos tecidos também pode diferir da simulação.

 

A inteligência artificial integra esse horizonte, com possibilidades de apoio à análise de imagens e ao planejamento. Para o professor, aprender a utilizar as ferramentas precisa vir acompanhado da capacidade de questioná-las. “Não basta aprender a utilizar um software ou uma ferramenta de Inteligência Artificial; é preciso entender o que ela pode oferecer, quais são suas limitações e quando suas recomendações precisam ser questionadas.”

 

O critério vale também para outras tecnologias. Ao abordar o laser, Aline distingue aplicações já incorporadas daquelas ainda em avaliação. “Toda nova tecnologia deve ser incorporada com base em evidência científica sólida, e não apenas em apelo comercial.” 

Compartilhar: