Ricardo Silva fecha ano entre entregas, dificuldades estruturais e modernização de políticas públicas
Prefeito Ricardo Silva faz balanço do primeiro ano com avanços, desafios e forte presença nas redes sociais
No primeiro ano à frente da Prefeitura de Ribeirão Preto, Ricardo Silva (PSD) tenta equilibrar um mandato com desafios estruturais — do déficit na Saúde e Educação às disputas sobre o novo Centro Administrativo — com uma gestão que aposta em reformas, ampliação de serviços e modernização.
Ao mesmo tempo, o prefeito projeta uma imagem que tem se tornado cada vez mais comum no meio político: a de um gestor que transforma sua rotina de trabalho – e até treinos na academia – em conteúdo e “prestação de contas” nas redes sociais. À Revide, Ricardo fez um balanço sobre os principais desafios e realizações em 2025.
Recentemente o projeto de permuta com o Marista foi retirado da Câmara. A ideia de uma nova sede para a Prefeitura tem sido uma batalha desde a última gestão. Como o senhor avalia até aqui esse processo e como espera sanar essa disputa?
A decisão começou quando optamos por não construir um novo Centro Administrativo fora do Centro. O governo anterior queria erguer um prédio em área afastada, com custo acima de R$ 200 milhões, parte em empréstimos. Ao assumir, defendi uma solução mais viável e que fizesse sentido para a cidade. Com isso, direcionamos recursos para obras como a UPA Central 24h, o parque Rubem Cione e a Casa do Autista. Entre as alternativas, estudamos a permuta de um terreno ocioso da Prefeitura pelo prédio do Marista, sem custo adicional ao município. Laudos técnicos apontaram que o terreno tinha valor menor que o imóvel. Diante da repercussão, solicitamos ao CreciSP uma nova avaliação de mercado. Agora aguardamos esse parecer e, com os dados em mãos, reapresentarei o projeto à Câmara.
Mas, se por algum motivo não der certo essa negociação, a ideia é manter a Prefeitura no Centro?
Sim. É importante a ideia de um Centro Administrativo onde se reúnem todas as secretarias em um prédio só. Isso facilita para o cidadão, traz mais fluidez para o comando de gestão, vira uma espécie de Poupatempo municipal. Mas vamos manter no Centro, acredito que vamos viabilizar essa questão com o Marista, que tem um prédio maravilhoso. Dando certo, vamos manter a estrutura histórica e fazer com que a comunidade possa utilizar esse prédio.
Agora, sobre seu plano de governo durante as eleições, o senhor prometeu contratar profissionais habilitados em educação especial para crianças e jovens com deficiência. Como está o atendimento a essas crianças atualmente?
Nós temos um planejamento duplo. Primeiro, vamos implantar a Casa do Autista, um prédio dedicado ao atendimento de pessoas com autismo e outros transtornos do neurodesenvolvimento. O serviço funcionará no contraturno escolar, garantindo acompanhamento adequado às crianças. Nas escolas municipais, o primeiro ano foi desafiador, porque o contrato existente para os profissionais de apoio havia sido prorrogado e precisou passar por readequações. Agora estamos em fase de ampliação do atendimento. Meu objetivo, como prefeito, é que todas as crianças tenham amparo — e todas terão. Lidamos, no início da gestão, com limitações do orçamento herdado e contratos ainda vigentes do governo anterior, mas, a partir do próximo ano, vamos oferecer um atendimento digno, como as mães precisam e as crianças têm direito. Estamos modelando essa estrutura para toda a rede municipal.
E qual balanço o senhor faz das filas em creches e escolas municipais?
Teremos esse problema novamente no início do ano letivo de 2026? Nós temos crianças que nascem todos os dias e a demanda por creche sempre é crescente. A Prefeitura está se estruturando para conseguir atender a essa demanda de forma bem racional. Mapeamos os prédios de unidades que podem ser ampliadas. Mais do que construir creches novas, que demandam tempo e muitos recursos, há como ampliar muitas unidades que já existem. Com essa reestruturação da rede e ampliação de unidades escolares já existentes, conseguimos aumentar substancialmente a quantidade de vagas.
A pandemia deixou marcas na educação de Ribeirão Preto, como uma queda acentuada na nota do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Atualmente, as escolas lutam para que a nota volte a patamares anteriores à pandemia. Como tem sido esse trabalho da Prefeitura e como o senhor avalia esse indicador?
[O Ideb] não está legal. O ensino municipal teve queda nos últimos anos e muitas famílias passaram a optar por escolas estaduais. Nosso foco agora é promover mudanças pedagógicas. Embora o Ideb seja apenas um número, ele é um indicador importante, e constatamos que o ensino da rede não estava orientado para essas avaliações, como o Saresp. A falha não é dos professores, mas de uma política de gestão inadequada. O novo secretário de Educação, Christian Viana Oliveira, tem analisado os dados para ajustar a pedagogia e direcionar o ensino para resultados melhores nessas provas, que também influenciam na arrecadação. Se Ribeirão Preto pontua baixo no Ideb, recebe menos recursos federais.
Também durante a campanha o senhor prometeu investir prioritariamente na Atenção Primária de Saúde, com o objetivo de reduzir a superlotação e filas nas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento). Acredita que progrediu nessa pauta?
Progredimos muito. Herdamos anos de regressão: Ribeirão tinha cinco UPAs: uma foi fechada, e as quatro restantes ficaram lotadas para uma cidade de quase 750 mil habitantes. Agora já está em licitação a reabertura e adequação da UPA Central 24h, cujo primeiro andar será dedicado ao atendimento da mulher. Estamos finalizando a UPA do Ribeirão Verde, chegando a seis unidades. As UPAs passaram a fazer pequenas cirurgias, reduzindo mais da metade dos encaminhamentos aos hospitais. Avança também a construção do novo Hospital das Clínicas, fruto de emendas que somam R$ 80 milhões, e que terá 400 leitos. Paralelamente, reestruturamos UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e reforçamos a Atenção Primária, para que a população não recorra à UPA em casos simples. Lançamos a teleconsulta, que resolve atendimentos básicos sem deslocamento. No orçamento, a saúde tinha déficit previsto de R$ 150 milhões; com economia e reorganização, reduzimos esse valor para R$ 6 milhões.
O senhor também não acha que faltam campanhas de conscientização sobre a finalidade das UPAs, UBSs e inciativas preventivas, como a Estratégia Saúde da Família?
A Estratégia Saúde da Família é incrível, mas ainda pouco difundida no Brasil. Em Ribeirão Preto, queremos ampliar a cobertura e o acesso da população à informação, reforçando a importância da prevenção. Estamos planejando três academias públicas, com equipamentos e orientação profissional, porque promover hábitos saudáveis custa muito menos do que tratar depois.
Já que o senhor tocou na pauta “fitness”, essa exposição da sua rotina de treinos e exercícios nas redes sociais tem sido positiva? O que acha dessa fama de “prefeito fitness”?
Eu tenho postado isso de propósito. Eu sei que se você instigar a saúde, você combate a doença. Eu pesava 110 kg, tinha colesterol alto e recebi várias prescrições antes dos 40 anos. Mudar a rotina melhorou minha saúde e reduziu gastos com remédios — economia que o SUS pode direcionar a quem precisa. Desde que comecei a mostrar meus treinos, recebo mensagens de pessoas que passaram a se exercitar. O prefeito é um líder: se posto comportamentos ruins, incentivo o mesmo. É preciso liderar pelo exemplo.
A sua primeira ação como prefeito foi reestruturar o projeto de corredores de ônibus para o transporte coletivo e avaliar as vagas de área azul. Hoje, qual o balanço o senhor faz dessas ações e quais são os próximos passos?
O trânsito de Ribeirão Preto é muito complexo, e as mudanças foram pensadas para ajudar o comércio. Não fazia sentido manter o corredor da Dom Pedro, onde em alguns horários passava um ônibus a cada 30 minutos ocupando uma faixa inteira. Concluímos obras que estavam paradas no Centro, como nas ruas Marcondes Salgado, São José e avenida Nove de Julho. Essas ações impulsionaram o comércio, resultando em quase 6 mil novos empregos nos primeiros seis meses, tornando Ribeirão Preto a 11ª cidade do estado em geração de vagas. O desafio agora é reestimular o uso do transporte público. Em 2026, vamos reorganizar linhas, já que muitos usuários levam até uma 1h30 para chegar ao destino, o que desanima. Se um Uber faz o percurso em minutos, o ônibus precisa ser mais ágil e conectado — quase um “Uberzão” — para atrair novamente os passageiros.
No início de seu mandato a equipe de transição falou em um rombo de R$ 2 bilhões. O ex-prefeito Duarte Nogueira falou em um superávit de R$ 347 milhões. Como está a situação financeira da cidade atualmente?
Em nosso governo não houve nenhum atraso para fornecedor. Quando nós assumimos, identificamos um déficit de R$ 150 milhões na saúde e mais R$ 150 milhões na Educação, que nós reduzimos substancialmente. Isso com gestão, economia, sem fazer com que investimentos sofressem quedas bruscas. Em um passado não muito distante, a Prefeitura não pagava seus fornecedores, atrasava pagamentos. Tanto que licitações estavam desertas porque o nome de Ribeirão Preto estava sujo na praça. Temos outro rombo que é do IPM [Instituto de Previdência dos Municipiários], que consome da Prefeitura aportes milionários para poder fazer valer o pagamento dos aposentados, o que temos feito rigorosamente em dia. É um desafio, mas temos dado conta com uma gestão séria e uma equipe técnica muito bem montada na Fazenda e nas demais secretarias.
Uma pergunta que precisa ser feita em relação a 2026, que é ano eleitoral: o senhor continua no cargo ou pretende se candidatar a outro?
Fico no cargo. Vou cumprir meus quatro anos de mandato.
E por falar nesse assunto, como tem sido dividir o partido com o ex-prefeito Duarte Nogueira?
Tenho uma relação meramente formal com o ex-prefeito Duarte Nogueira. Ele decidiu entrar no PSD, acredito eu que olhando o cenário eleitoral, pela facilidade em relação à montagem de chapa. Ele entra no partido, mas o comando segue sendo nosso. Ele entrou ciente disso. O partido foi muito transparente comigo e eu não coloquei nenhum óbice em relação à entrada do ex-prefeito, porque eu não faço política pelo ódio nem por questões pessoais. Eu torço pelo sucesso de todos que possam agregar para a melhoria da cidade.

“Estamos planejando três academias públicas, com equipamentos e orientação profissional, porque promover hábitos saudáveis custa muito menos do que tratar depois.”
Quais seriam os principais feitos que o senhor destaca do primeiro ano de mandato e quais as principais metas para 2026?
Temos um grande desafio na segurança pública. Embora seja responsabilidade do Estado, a Prefeitura não vai se omitir. Enviamos à Câmara o projeto da Operação Delegado, que permite contratar policiais militares de folga para reforçar o policiamento. Também estamos fortalecendo a Guarda Civil Metropolitana. Muitas prefeituras se isentam dizendo que segurança é atribuição estadual; eu não. Aprovamos a Lei do Sossego e vamos intensificar a fiscalização para evitar pancadões irregulares. A cidade pode ter entretenimento, mas com regras.
O senhor mencionou a GCM, que recebeu armamento pesado, como fuzis calibre 5.56. Esse tipo de equipamento é necessário para uma guarda municipal?
A Guarda Civil Metropolitana passa por treinamentos constantes e é uma força altamente capacitada. Quando entra em áreas perigosas, o criminoso vê o guarda como vê um policial militar. Por isso, precisa de armamento que garanta sua defesa. Polícia armada e fardada não existe para intimidar a população, mas para coibir o crime e proteger quem trabalha nas ruas.
E agora uma pergunta de cunho pessoal: ser prefeito foi mais difícil do que o senhor esperava?
Já fui vereador, secretário de Estado e deputado federal, mas ser prefeito tem me proporcionado os melhores — e mais intensos — dias da minha vida. Trabalho nisso 24 horas. Estou feliz por ter uma equipe competente e boas relações com o governador Tarcísio, com o governo federal e com a iniciativa privada. Mesmo diante dos desafios, estamos entregando uma gestão à altura do que a população espera. Sei que os problemas não se resolvem de um dia para o outro, mas estou confiante de que faremos de Ribeirão Preto uma cidade cada vez melhor e mais feliz.
Foto: Guilherme Fuzaro