Um olhar para o futuro
Diretor regional do Sesc São Paulo, Luiz Galina detalha os planos da nova unidade na avenida Nove de Julho

Um olhar para o futuro

Luiz Galina detalha os planos para a antiga Recra e projeta os próximos passos de uma relação de quase oito décadas entre o Sesc e Ribeirão Preto

O Sesc (Serviço Social do Comércio) chegou a Ribeirão Preto em 1947, apenas um ano depois da criação da instituição. Quase oito décadas mais tarde, prepara uma das maiores transformações de sua presença na cidade. A compra da antiga sede da Sociedade Recreativa e de Esportes, a Recra, na avenida Nove de Julho, abriu caminho para uma nova unidade, mas também trouxe desafios que envolvem patrimônio histórico, projeto arquitetônico e a relação do espaço com seu entorno. Aos 81 anos e com quase 58 deles dedicados ao Sesc, o diretor regional Luiz Galina acompanha esse processo enquanto conduz uma instituição que, segundo ele, precisa se transformar junto com a sociedade. Nesta entrevista à Revide, Galina detalha o caminho até a futura unidade, explica as contrapartidas assumidas com o município e apresenta um cronograma que ajuda a dimensionar a complexidade da obra.  Sociólogo e economista por formação, Galina foi o patrono da 25ª Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, que aconteceu no começo do mês e também falou sobre cultura, leitura e a trajetória que começou como orientador social no fim dos anos 1960.

 

Como a relação entre Sesc e Ribeirão Preto evoluiu até a necessidade de uma nova unidade?

Pela importância de Ribeirão Preto, o Sesc instalou aqui um centro social já em 1947. Essas instalações foram evoluindo. Onde estamos hoje, na rua Tibiriçá, durante certo tempo funcionaram Sesc e Senac. Depois, o Senac foi para uma sede própria e o Sesc continuou ali. Fomos ampliando, comprando terrenos vizinhos, mas, com o crescimento da população de Ribeirão Preto, a unidade ficou pequena para atender à demanda. Tínhamos então um projeto para reformar e construir um novo prédio onde o Sesc funciona atualmente. Desenvolvemos inclusive um projeto arquitetônico, que chegou a ser aprovado pela Prefeitura. Havia, porém, um problema: durante a construção, para onde levaríamos as atividades?

 

E como a Recra entrou nessa história?

Nesse meio-tempo, fomos procurados pela Prefeitura por causa da ação judicial trabalhista relacionada à antiga sede da Recra. Os empregados que haviam trabalhado lá buscavam na Justiça receber seus direitos trabalhistas e previdenciários. O Sesc foi consultado sobre o interesse em adquirir aquela área na Nove de Julho. Recebemos o convite, fizemos os estudos e chegamos à conclusão de que, em vez de reformarmos o prédio da rua Tibiriçá, seria melhor transferir o Sesc para a antiga sede da Recra. Entramos no processo judicial e conseguimos adquirir o imóvel. O valor pago pelo Sesc foi destinado prioritariamente ao pagamento dos direitos desses antigos trabalhadores.

 

A Recra também ocupa um lugar importante na memória de Ribeirão Preto. Isso pesa no projeto?

Não há em Ribeirão Preto quem não conheça e reconheça a importância da Recra na história do lazer, do esporte e da própria sociedade ribeirão-pretana. Foi um clube importantíssimo para a cidade. Agora, para transformar esse espaço em uma futura unidade do Sesc, precisamos primeiro compreender as questões relacionadas aos tombamentos existentes. Precisamos entender claramente quais os nossos limites para a intervenção no prédio. Isso vai orientar o concurso arquitetônico que faremos para contratar o projeto.

 

A aquisição também envolveu uma área que continuava pertencendo ao município. Como foi resolvida essa questão?

Ao lado da propriedade da Recra havia um terreno que tinha sido cedido pela Prefeitura ao clube. Quando o Sesc adquiriu a Recra, não adquiriu esse terreno, porque ele continuava pertencendo ao município.
A partir do entendimento com a Prefeitura, foi encaminhado um projeto de lei à Câmara para permitir que essa área também fosse cedida ao Sesc. Temos que agradecer ao prefeito Ricardo Silva pelo empenho e aos vereadores pela aprovação.

 

E o que o Sesc assumiu como contrapartida?

Vamos cuidar da Praça Luís de Camões e de um trecho do jardim da avenida Nove de Julho. Também estamos desenvolvendo, junto com a Prefeitura, uma programação cultural na Nove de Julho, que já está acontecendo.

 

Em que estágio está hoje o projeto da nova unidade?

Estamos na fase de compreender exatamente as restrições impostas pelo tombamento para podermos orientar o concurso arquitetônico. Acredito que em breve vamos lançar esse concurso, que fazemos com o IAB, o Instituto de Arquitetos do Brasil.

 

Esse concurso ainda pode ser lançado em 2026?

Pode ser, mas acho difícil. Depende de definirmos claramente as restrições do tombamento. E um concurso desse tamanho e dessa importância leva meses. Precisamos dar pelo menos quatro meses para que os arquitetos estudem e apresentem seus projetos. Não é uma coisa simples. O concurso como um todo deve levar pelo menos nove meses. Se começarmos ainda este ano, existe a possibilidade de termos a escolha do projeto até o fim de 2027.

 

E quando a obra poderia efetivamente começar?

Depois da escolha, o arquiteto desenvolve o projeto. Um projeto dessa magnitude leva cerca de dois anos para ser completado, porque não é apenas o arquitetônico. Temos acústica, elétrica, hidráulica, estrutura e todos os projetos complementares. Uma unidade do Sesc pode envolver cerca de 50 projetos complementares. Depois disso, apresentamos tudo para aprovação da Prefeitura. Se tivermos o concurso concluído em 2027, poderemos estar em condições de fazer a licitação e começar as obras por volta de 2029.

 

Quando, então, o ribeirão-pretano poderá conhecer o novo Sesc?

A construção e a reforma devem levar cerca de quatro anos. É o tempo necessário para termos a qualidade do Sesc. Não podemos improvisar em um projeto arquitetônico dessa magnitude e importância. É um prédio que estamos fazendo para durar 100 anos. Todas as construções do Sesc são muito bem feitas, muito seguras e precisam permitir que nossas atividades sejam desenvolvidas com tranquilidade. Estamos nessa fase. Mas estamos trabalhando. Nada está parado.

 

O senhor foi patrono da Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto. Que importância iniciativas como essa têm para a formação de leitores?

Se analisarmos a história do Brasil, estamos atrasados. Os portugueses não permitiram que escolas se instalassem aqui e começamos a ter escolas, faculdades e uma presença maior do livro a partir de Dom João VI, nos anos 1800. Temos uma defasagem histórica no acesso ao livro e à literatura. E a questão do analfabetismo ainda persiste. Evoluímos muito, mas temos uma parcela importante da população no chamado analfabetismo funcional. Por isso, o trabalho que a Feira do Livro faz em Ribeirão Preto e que outras feiras e festivais literários realizam pelo Brasil é importantíssimo. Isso se enfrenta mostrando a importância da leitura e da escrita. Estamos avançando, mas há muito a fazer.

 

Essa preocupação com o acesso ao livro ainda é um grande desafio?

O Sesc foi criado para atender uma população que vinha do campo para as cidades, no processo de urbanização e industrialização. A maioria dessas pessoas era analfabeta. Foi criado justamente para apoiá-las, para que tivessem acesso ao livro, ao conhecimento e à educação. Cada vez mais a sociedade brasileira reconhece o livro e a literatura como elementos fundamentais para seu desenvolvimento. Mas o livro é caro. Temos que pensar em uma pessoa que trabalha e tem uma renda baixa e em tantas outras que precisam do Estado para garantir necessidades básicas de alimentação e vestuário. Eu sonho com acesso ao livro, sonho que o livro seja mais barato, que tenhamos livros que possam ser comprados por R$ 10, por R$ 5. Precisamos de políticas públicas de incentivo à produção para que as editoras possam oferecer seus produtos a preços mais acessíveis.

 

Nesse cenário, qual é o papel das bibliotecas?

A biblioteca facilita o acesso ao livro para as pessoas que têm menos recursos econômicos. Nós, no Sesc, atuamos muito nesse sentido. E sonho também com mais livrarias. Infelizmente, temos poucas livrarias no Brasil. Sonho com cidades onde as pessoas possam caminhar e tropeçar em lojas onde haja livros e revistas. Sonho com isso.

 

Aos 81 anos, o senhor mantém uma rotina de leitura?

Tenho o hábito de ler jornais. Gosto de ler jornal. E sempre tenho alguns livros. Atualmente estou lendo um sobre a história da ciência. A História me encanta muito, essa coisa da ciência, da astronomia, do universo. E também é uma ferramenta que melhora minha atuação profissional. Hoje, a velocidade das transformações é enorme. Mudam a legislação, a tecnologia, a geopolítica, as relações de poder. Tudo está interconectado. Para um gestor de uma instituição cultural, leitura e informação são imprescindíveis para tomar decisões e pensar como se posicionar diante do futuro e das transformações da sociedade.

 

Em novembro, o senhor completa 58 anos de Sesc. Como começou essa história?

Entrei no Sesc junto com o Danilo Santos de Miranda. Nós entramos na mesma turma de orientadores sociais. O Sesc contratava profissionais para um projeto chamado Unimos, Unidade Móvel de Orientação Social. Viajávamos pelo interior desenvolvendo atividades culturais, esportivas e recreativas.Ficávamos um mês, um mês e meio em cada cidade, trabalhando com as lideranças locais e ouvindo o que elas gostariam de fazer. Organizávamos ciclos de cinema, feiras de lazer, feiras de saúde, seminários e cursos diversos. Foi assim que comecei. Tive uma convivência muito intensa com Danilo. Depois de sua morte, assumi a Diretoria Regional no final de 2023. Tenho um grande respeito pelo trabalho que ele desenvolveu no Sesc. Nós começamos juntos como orientadores sociais e, ao longo de todos esses anos, acompanhamos as transformações da instituição.

 

O que mais mudou no Sesc nesses quase 60 anos?

O trabalho foi desenvolvendo suas ações em consonância com as necessidades de cada período. Começou de maneira mais assistencialista, em pequenos centros sociais e casarões alugados. À medida que os recursos aumentaram e a população do Estado de São Paulo cresceu, fomos nos adaptando às novas realidades e aprimorando nossa atuação. Deixamos de ser uma instituição essencialmente assistencialista para trabalhar cada vez mais com cultura, educação permanente e convivência. Na saúde, por exemplo, optamos por atuar fortemente na odontologia, uma área em que havia, e ainda há, deficiência de atendimento público. Também trabalhamos com alimentação e educação alimentar. Não basta servir uma boa refeição: buscamos discutir o que é alimentação balanceada e os impactos dos ultraprocessados. No esporte, a lógica também vai além da competição. Para nós, ele é um fenômeno social, um encontro entre pessoas, uma experiência de convivência. É comemorar a vitória, mas também aprender a perder. E, claro, atividade física significa saúde e bem-estar.

 

E como a cultura ganhou espaço nesse processo?

O Sesc São Paulo entrou muito fortemente no campo da cultura, trabalhando com música, teatro, circo, artes visuais, literatura e bibliotecas. Mas sempre associado à educação. Às vezes, um filme muda nossa maneira de enxergar a sociedade, o relacionamento com o outro e até nos permite reavaliar preconceitos da nossa própria formação. A cultura pode criar esse espaço de reflexão. 

 

Hoje, qual desafio ganhou mais atenção dentro dessa evolução?

Temos dado muita ênfase à educação ambiental e, mais recentemente, à valorização da ciência. A emergência climática, a preservação da água, das florestas e dos recursos naturais são questões fundamentais. Também precisamos reafirmar a importância da ciência para a qualidade de vida. Em nossas atividades, procuramos trazer informações, cientistas e discussões para que cada pessoa possa compreender melhor essas transformações e tomar decisões. Nosso desafio é justamente continuar atentos às necessidades de cada tempo.  


Foto: Holanda Filmes

Compartilhar: