Ribeirão Preto está mudando
Expansão e verticalização redesenharam a paisagem e as distâncias em Ribeirão Preto

Ribeirão Preto está mudando

Em duas décadas, novos bairros, prédios, negócios e hábitos transformaram a cidade. A Revide apresenta dez mudanças que ajudam a compreender a nova Ribeirão

Há vinte anos, atravessar Ribeirão Preto significava percorrer uma cidade mais compacta, com o Centro concentrando parcela maior do comércio e dos serviços. Desde então, novos bairros ultrapassaram antigos limites, condomínios avançaram para as bordas e edifícios redesenharam o horizonte. Hospitais, escolas, empresas de tecnologia e serviços especializados criaram novas centralidades e novos motivos para circular entre elas.


A escala dessa transformação aparece nos números. Ribeirão tinha 604.682 moradores no Censo de 2010 e chegou a 698.642 no Censo de 2022: quase 94 mil habitantes a mais, crescimento de 15,5%. Em 2026, a estimativa do IBGE alcançou 734.538 pessoas. Mais gente, moradias e atividade econômica ampliam oportunidades, mas também pressionam vias, transporte coletivo, saneamento e áreas verdes.


Para a arquiteta e urbanista Ana Luisa Miranda, a expansão torna visível uma cidade que distribui de forma desigual os custos e benefícios do desenvolvimento. “A cidade é produzida com uma significativa diferenciação socioespacial”, afirma. Na prática, endereço, renda e transporte ajudam a determinar quanto cada morador usufrui de trabalho, educação, saúde, cultura e lazer.
O economista Luciano Nakabashi observa outro lado do processo. Ribeirão diversificou sua economia, fortaleceu os serviços e consolidou sua influência regional. O agro continua decisivo, mas seu dinheiro circula além do campo, movimentando imóveis, comércio, tecnologia, ensino e medicina. A cidade também atrai pessoas por hospitais, universidades e eventos de alcance nacional, vocações que ainda podem crescer.


As mudanças aparecem na vida cotidiana. Estão na família que trocou a casa pelo apartamento, no empresário que permaneceu no Centro, na médica que escolheu Ribeirão para construir a carreira, no negócio que nasceu em um ambiente de inovação e em quem atravessa três regiões para trabalhar e estudar. Estão nas escolhas de consumo, na busca por educação internacional e na cobrança por parques e arborização.


Nas próximas páginas, a Revide apresenta um mapa humano dessa nova Ribeirão. Não é um ranking. Também não se trata de uma celebração sem ressalvas. É um retrato das forças que redesenharam a cidade e das perguntas que precisam orientar sua próxima década.


Luciano Nakabashi: Ribeirão diversificou a economia e ampliou sua influência regional

 

A cidade está crescendo para fora
Novos bairros ampliam as fronteiras urbanas e aumentam as distâncias e a demanda por serviços.

Até onde Ribeirão pode crescer sem comprometer a mobilidade e a prestação de serviços?

Ribeirão Preto cresce para além de seus limites tradicionais. Ao sul e a leste, condomínios prolongaram a mancha urbana; ao norte, grandes conjuntos habitacionais levaram milhares de famílias às bordas da cidade. O Jardim Cristo Redentor ilustra essa escala: foram entregues 6.991 imóveis no bairro, e a Prefeitura anunciou outras 1.521 moradias em sua continuidade.


A expansão abre possibilidades de moradia, mas aumenta as distâncias e o custo de levar ruas, transporte coletivo, água, escolas e unidades de saúde até onde a população passa a viver. O planejamento municipal considera a área interna ao anel viário prioritária para urbanização e, desde 2023, prevê uma cobrança maior para transformar glebas rurais em urbanas quanto mais distantes estiverem da cidade consolidada.


Para a arquiteta e urbanista Ana Luisa Miranda, porém, o mercado ainda determina boa parte desse avanço. “A mobilidade, a infraestrutura e o meio ambiente já foram impactados”, afirma. O desafio não é impedir que Ribeirão cresça, mas fazer com que cada nova frente urbana chegue acompanhada dos serviços que tornam um bairro, de fato, parte da cidade.


ANA LUISA MIRANDA, arquiteta e urbanista

 

A CIDADE GANHA ALTURA
Prédios mudam a paisagem e traduzem a busca por segurança, localização e conveniência

Como ganhar altura sem sobrecarregar o trânsito, o saneamento e os serviços públicos?

A transformação de Ribeirão também pode ser vista para cima. Segundo o Censo de 2022, a cidade tinha 86.712 apartamentos ocupados, 32,6% dos domicílios particulares permanentes ocupados. Os edifícios passaram a oferecer lazer, segurança e conveniências capazes de atrair diferentes perfis de família.


O empresário Cláudio Cesar Fernandes, de 53 anos, viveu esse movimento. Depois de cerca de quatro anos em uma casa no Guaporé, mudou-se com a família para um apartamento no Villa Guaimbê. A manutenção do imóvel, a localização e a busca por uma rotina mais prática pesaram na decisão. “Trocamos alguns espaços por praticidade, conveniência e uma rotina mais simples”, resume.


O domingo traduz a mudança: basta atravessar a rua para ir ao cinema. Cláudio sente falta da piscina privativa e reconhece que o trânsito da região exige planejamento em determinados horários, mas diz que teria dificuldade para voltar a morar em casa. A verticalização pode aproximar moradores do comércio e dos serviços; sem infraestrutura compatível, porém, também pode ampliar a pressão sobre vias, saneamento e equipamentos públicos.


CLÁUDIO CESAR FERNANDES, empresário


 

O CENTRO NA ENCRUZILHADA
Comércio, imóveis vazios, patrimônio e novos investimentos colocam a região diante do desafio de recuperar moradores e movimento

O Centro precisa ser revitalizado ou reinventado para voltar a ocupar um papel central?


Quando Paulo Roberto Laimgruber chegou de São Paulo, em 1987, o Centro ainda concentrava boa parte da vida econômica de Ribeirão Preto. Sua primeira empresa, uma agência de apostas, funcionou na esquina das ruas Álvares Cabral e Mariana Junqueira. “O Centro era muito mais movimentado em função das lojas, agências bancárias e departamentos públicos”, recorda.


Nas décadas seguintes, bancos, repartições, moradores e lojas migraram. Shoppings e corredores comerciais ganharam força, enquanto a expansão da cidade criou novas centralidades e retirou da região parte de seu protagonismo.


Paulo permaneceu. O Paddock surgiu em 2008 e passou por sua maior expansão em 2014, quando havia quem sugerisse levar o bar para a zona sul. A aposta contrariou os conselhos. Mais de uma década depois, a casa continua atraindo clientes de diferentes regiões.


Mesmo com hábitos de consumo transformados, ele escolheria novamente o Centro, embora com um negócio adaptado ao público atual. “Entendemos que, além de uma empresa, o Paddock significa muito para continuar fortalecendo a região central.”


A recuperação esbarra em imóveis vazios ou malconservados, na insegurança e na necessidade de políticas para a população em situação de rua. Desde 2019, a Prefeitura mantém uma comissão e um canal de denúncias para identificar propriedades abandonadas. A medida, porém, não substitui uma estratégia para toda a região.


Paulo defende a recuperação de prédios antigos, a ocupação de imóveis públicos, incentivos e a volta de moradores. “As medidas devem sair dos discursos, do papel e das gavetas da administração municipal”, afirma. Para ele, o Centro ainda oferece moradias mais acessíveis, deslocamentos fáceis e serviços próximos.


Ana Luisa Miranda também vê potencial na infraestrutura instalada. “O Centro não precisa ser reinventado, mas ser alvo novamente de investimentos públicos e privados”, diz. Como exemplo, cita a futura ocupação do antigo prédio da Recreativa pelo Sesc, capaz de levar movimento ao entorno.


O desafio é preservar o patrimônio sem congelar o Centro, atrair novos usos sem expulsar moradores e transformar ações isoladas em um projeto contínuo. Paulo aposta na recuperação. “Daqui a dez anos estará muito melhor.”

 


PAULO LAIMGRUBER, empresário


 

O AGRO MOVE A CIDADE
A renda gerada no campo circula por indústrias, comércio, imóveis e serviços e amplia os efeitos urbanos de uma potência regional


Como a riqueza produzida pelo agronegócio chega ao cotidiano de quem vive longe das fazendas?

 

O dinheiro do agronegócio não para nas fazendas. Em Ribeirão Preto, ele aparece em indústrias, concessionárias, restaurantes, hospitais, escolas e empresas de tecnologia. A cidade tornou-se o endereço urbano de uma cadeia produtiva espalhada pelo interior.


Segundo o IBGE, o PIB municipal alcançou R$ 52,3 bilhões em 2023. Na última composição setorial detalhada, de 2021, os serviços respondiam por 76,14% do valor adicionado, enquanto a agropecuária realizada no município representava 0,34%. A aparente contradição mostra que a força local do agro está menos na lavoura e mais nos negócios que ela movimenta.


“Se o agro gera mais renda, há pessoas que vêm gastar em Ribeirão, porque a cidade é um polo regional de bens e serviços”, explica o economista Luciano Nakabashi. O efeito alcança o comércio, os imóveis e os serviços especializados.


A trajetória de Talita Cury coloca um rosto nesse movimento. Ela nasceu em uma família ligada ao mercado de nutrição e proteção vegetal desde 1968 e atua no setor há mais de duas décadas. Há pouco mais de dez anos, assumiu com os irmãos a gestão dos negócios fundados pelos pais.


O Grupo Santa Clara reúne quatro empresas nas áreas de fertilizantes, biodefensivos, produção para terceiros e pesquisa. De capital brasileiro, exporta para mais de 30 países e recebeu aporte da BNDESPAR. “Hoje exportamos tecnologia brasileira e nos tornamos uma multinacional brasileira”, afirma Talita.


Para ela, Ribeirão é estratégica porque muitos produtores moram na cidade, embora mantenham propriedades em outras regiões. Reuniões, compras e serviços acabam centralizados aqui. A Agrishow tornou essa ligação visível: a edição de 2026 registrou R$ 11,4 bilhões em intenções de negócios.


A transformação também ocorre nas empresas. Talita criou o Damas do Agro para capacitar mulheres em um setor ainda predominantemente masculino. A entrada delas e de novas gerações, diz, amplia a diversidade das decisões e muda as lideranças.


Nakabashi pondera que Ribeirão está menos dependente dos ciclos agrícolas do que municípios vizinhos e possui economia diversificada. “O agro permanece relevante, mas sua maior influência urbana talvez esteja justamente nisso: gerar renda, conhecimento e demanda para que outros setores também cresçam”, conclui.


Entre o campo e a cidade, o agro continuará moldando Ribeirão. O desafio para os próximos anos será transformar a riqueza gerada pelo setor em inovação, empregos qualificados e desenvolvimento mais amplo para a população.


TALITA CURY, empresária do agronegócio

 

A SAÚDE VIRA VOCAÇÃO
Hospitais, clínicas, profissionais especializados e tecnologia consolidam Ribeirão como referência regional e fonte de empregos qualificados

 

O que transformou Ribeirão em polo de saúde e até onde essa vocação pode crescer?


Hospitais, clínicas, laboratórios e empresas de tecnologia fizeram da saúde uma atividade capaz de movimentar bairros de Ribeirão Preto. A cidade atende moradores da região e atrai profissionais que encontram aqui espaço para construir a carreira.


Um marco dessa expansão foi a inauguração do Hospital Unimed Ribeirão Preto, em maio de 2016. Dez anos depois, a instituição informa ter 256 leitos, mais de 1.300 colaboradores e 780 médicos. No último ano, foram mais de 117 mil atendimentos no pronto atendimento e 19 mil cirurgias. Um hospital também gera empregos e demanda por serviços.


Para o economista Luciano Nakabashi, a saúde ajudou a consolidar Ribeirão como polo regional. Em algumas especialidades, a influência já ultrapassa a região, apoiada por hospitais, universidades e profissionais qualificados.


Essa reputação pesou na escolha da médica Priscila Gimenez. Natural de Guararapes e formada em Franca, ela chegou no final de 2022 para atuar em Dermatologia. “A força da cidade na Medicina influenciou diretamente minha escolha, principalmente pela ampla estrutura disponível e pelas oportunidades de crescimento”, conta.


O início dos atendimentos na Medclin/Benevida foi decisivo para que conquistasse espaço. Priscila passou a receber pacientes de outras cidades e acompanhou a procura por tratamentos seguros, resultados naturais e atendimento individualizado. “Ribeirão se tornou parte da minha história”, afirma.

Priscila Gimenez, médica dermatologista

 

A saúde também atrai profissionais que não estão na assistência direta. Formado em Engenharia de Produção, Paulo Victor Dionysio Abreu trabalhou na indústria, no varejo e na Unimed Uberlândia antes de se mudar para Ribeirão, em 2026, para atuar como analista sênior de qualidade na Unimed local.


Sua trajetória mostra que o setor também depende de gestão, dados, processos e tecnologia. “É um setor que movimenta bastante a cidade e gera oportunidades tanto para profissionais ligados à assistência quanto para áreas de qualidade, tecnologia e administração”, diz Paulo.


A vocação vai além do número de hospitais. Ela se mede pela capacidade de combinar pesquisa, formação, tecnologia, atendimento e gestão. O desafio é fazer essa evolução ampliar a projeção regional de Ribeirão e, ao mesmo tempo, o acesso e a qualidade do cuidado oferecido à população.


Paulo Victor Abreu, engenheiro de produção


 

A DISPUTA PELO FUTURO
Ensino internacional, tecnologia e formação socioemocional ampliam as escolhas e as exigências das famílias de Ribeirão Preto


O que os pais procuram hoje em uma escola que talvez não procurassem há vinte anos?

 

A concorrência entre escolas de Ribeirão Preto deixou de ocorrer apenas pelas aprovações no vestibular. Ensino bilíngue, currículo internacional, tecnologia, segurança e acolhimento passaram a integrar as exigências das famílias. O Censo Escolar ajuda a medir essa disputa. Cerca de 50.219 estudantes estudam em instituições particulares de educação básica na cidade, 37,6% das 133.463 matrículas. Mais de 200 escolas privadas funcionam no município.


Para Débora Alcalde da Cunha Jiquiriçá, diretora pedagógica do Liceu Albert Sabin, houve uma mudança cultural. “Antes, as famílias nos procuravam com o foco quase exclusivo na aprovação no vestibular tradicional. Hoje, a expectativa é pela formação integral”, afirma.


O desempenho acadêmico continua essencial, mas divide espaço com competências socioemocionais, idiomas, pensamento crítico e letramento digital. A inteligência artificial também pressiona a revisão dos métodos. Agora, decorar perde importância diante de avaliações orais e projetos que mostrem como o aluno raciocina.


Essa mudança aparece na família de Alexandre Augusto Silva e Claudia Carossi Armelin. Depois de viver na Colômbia, o casal buscou para as filhas Eloa, de 16 anos, e Estela, de 14, uma escola bilíngue ligada ao International Baccalaureate, o IB. “O mundo hoje não tem mais fronteiras e o inglês é um requisito básico e indispensável”, diz a família. A escolha exigiu reorganizar o orçamento e reduzir treinos esportivos por causa da carga horária. Para os pais, os resultados e a satisfação das filhas compensaram o esforço.


Sérgio Esber Sant’Anna e Renata Machado de Oliveira Sant’Anna também escolheram o IB para Enrico, de 15 anos. Desde o início de 2026, perceberam mais autonomia, organização e interesse por debates sobre sociedade e economia. Nas viagens internacionais, ele passou a se comunicar com maior segurança.


Débora avalia que a concorrência estimulou investimentos em infraestrutura, tecnologia e formação de professores. O desafio é demonstrar resultados concretos. Para as famílias, a escolha envolve conciliar expectativas globais, bem-estar, rotina e orçamento. A escola do futuro precisa preparar para o mundo sem deixar de compreender o aluno que está diante dela.

 

IDEIAS QUE GANHAM ESCALA
Startups transformam conhecimento local em tecnologia e negócios capazes de alcançar todo o país

 

Ribeirão consegue transformar conhecimento em empresas e mantê-las na cidade quando elas crescem?

 

ibeirão Preto foi identificada por décadas pelo comércio, pelos serviços e pelos negócios ligados ao agro. Agora, essa identidade divide espaço com empresas nascidas de pesquisas e problemas especializados, capazes de atender todo o país sem deixar a cidade.

 
Criado pela Prefeitura e pela USP, o Supera Parque aproxima universidade, poder público e mercado. Sua incubadora apoia negócios inovadores desde 2003 e, hoje, mais de 120 empresas participam do ecossistema, entre residentes, participantes da incubação virtual e parceiras.


A história profissional de Erika Monteiro resume essa nova geração. Formada em Nutrição e Metabolismo pela USP de Ribeirão, começou a empreender ainda na faculdade. Em 2017, junto a equipes de auditoria do Grupo São Francisco, percebeu a dificuldade de hospitais e planos de saúde para processar autorizações, internações e contas médicas.


Desse problema nasceu a Carefy, da qual Erika é cofundadora e diretora de operações. A plataforma usa inteligência artificial para analisar despesas, indicar possíveis inconsistências e encaminhar aos médicos e enfermeiros os casos que exigem maior atenção. A tecnologia reduz tarefas repetitivas e amplia a capacidade de decisão das equipes.


Segundo Erika, a Carefy analisa informações de mais de 8,5 milhões de pessoas, já examinou mais de R$ 30 bilhões em gastos de saúde e atende dezenas de instituições. A cada R$ 1 milhão avaliado, encontra, em média, R$ 375 mil em potenciais inconsistências ou cobranças indevidas.


A USP forneceu a formação; o polo de saúde aproximou a empresa do problema; e o Supera ajudou a transformar conhecimento em negócio. “Ribeirão não é apenas onde a Carefy nasceu. A cidade faz parte da construção do que a empresa se tornou”, afirma Erika.


A distância já não impede uma empresa local de alcançar o mercado nacional. Ainda assim, crescer exige viagens aos grandes centros em busca de investidores, parceiros e clientes. Para Erika, mais conexões com os polos de inovação aumentam as chances de os negócios locais ganharem escala.


Erika também atua como mentora do Sebrae e já orientou mais de 100 startups em programas do Sebrae e do Supera. A experiência reforça um desafio local: converter o conhecimento universitário em negócios. “Acredito que Ribeirão já produz muito conhecimento de qualidade. A grande oportunidade agora é transformar cada vez mais esse conhecimento em inovação, tecnologia e empresas capazes de ganhar escala”, afirma.


 

O JEITO DE CONSUMIR MUDOU
Lojas, shoppings, delivery e marketplaces dividem a atenção e o orçamento do consumidor

 

Onde o ribeirão-pretano está gastando seu dinheiro hoje?

 

A compra deixou de acontecer em um único endereço. Centro, shoppings, aplicativos de entrega e marketplaces agora dividem a atenção — e o orçamento — do consumidor. Em duas décadas, a internet chegou a 85% dos domicílios urbanos brasileiros, segundo a TIC Domicílios 2024, e passou a acompanhar o cliente em todas as etapas.


A estudante de Jornalismo Joyce Vitoreli representa esse consumo híbrido. Ela procura o Centro pela variedade, vai aos shoppings para comprar roupas e passear e recorre à internet para adquirir materiais usados no crochê e acessórios mais baratos. Preço e variedade pesam no ambiente digital; nas lojas, vencem a possibilidade de experimentar e a confiança de sair com o produto.


A pandemia reforçou o hábito de navegar sem uma compra definida, comparar valores e deixar itens no carrinho. O delivery também se incorporou à rotina. “É só entrar no aplicativo e pedir. A única coisa que você tem que fazer é pagar e esperar”, diz Joyce. A loja física não desapareceu, mas ganhou novas funções: virou espaço de experiência, lazer e contato. Consumir hoje é circular entre a rua e a tela conforme o produto, o preço e o momento.

 

MOBILIDADE VIROU UM DOS GRANDES DESAFIOS
O crescimento aumentou as distâncias e tornou o automóvel quase indispensável em muitas rotinas

 

A infraestrutura está acompanhando o crescimento?

 

Na mesma casa do Salgado Filho 2 desde 1992, Arlete Almeida e Flávio Victorelli viram Ribeirão crescer e as distâncias aumentarem. Dona de casa, Arlete passou a procurar médicos, dentistas e supermercados em regiões que antes não frequentava. Para chegar a uma consulta “do outro lado da cidade”, recorreu ao aplicativo de navegação. “Era uma parte de Ribeirão onde eu nunca tinha ido”, conta.


Motorista, Flávio percebe a mudança pelo trânsito. “Não está tendo mais muito horário: qualquer hora está complicado”, afirma. Para ele, um transporte coletivo melhor ajudaria os moradores a deixar o automóvel na garagem.


O relato coincide com o diagnóstico do especialista Anderson Manzoli: a cidade cresceu mais rápido do que sua estrutura de mobilidade. A distância entre moradias, empregos e serviços multiplicou viagens e ampliou a dependência do carro e da motocicleta. Instituído em 2023, o Plano de Mobilidade prioriza o transporte coletivo e os modos não motorizados. O desafio, diz Manzoli, é mudar o foco: “Ribeirão precisa deixar de planejar apenas o deslocamento dos veículos e começar a planejar o deslocamento das pessoas”.

 

VIVER BEM ENTROU NO MAPA
Parques, arborização e espaços de convivência ganham valor, mas a execução ainda não acompanha o discurso

 

O desejo por uma cidade mais verde já se transformou em cuidado permanente?
 

Preço, tamanho e localização já não resumem a escolha de onde morar. Na nova Ribeirão, sombra, parques, áreas para caminhar, esporte, lazer e espaços de convivência ganharam peso. Qualidade de vida também passou a integrar o valor de um endereço.


O empresário Gula Biagi acompanha essa mudança por meio do ArboreSer, projeto voluntário de arborização e educação ambiental criado em 2007. Após 19 anos, percebe maior interesse por espaços públicos e sustentabilidade, mas não identifica avanço equivalente na arborização. “O discurso melhorou em todos os sentidos, mas é muito pouco efetivo. Todos querem, mas poucos fazem”, afirma.


Segundo Gula, regiões mais novas e planejadas costumam nascer com áreas verdes estruturadas, favorecidas pela legislação e pelo investimento inicial. O problema surge depois da entrega, quando o cuidado diminui e a vegetação passa a depender da manutenção pública.


Reservar terreno ou plantar uma muda não basta. Árvores precisam de espécie adequada, espaço, adubação, poda e acompanhamento. Também envelhecem e precisam ser substituídas. “Plantar é a parte mais fácil. É preciso cuidar, e esse cuidado nunca termina”, diz Gula.


Em uma cidade de calor intenso e baixa umidade, o impacto ultrapassa a paisagem. A arborização produz sombra, reduz a temperatura, retém poluentes e torna as ruas mais convidativas. Gula também destaca os efeitos sobre a saúde mental: ambientes verdes favorecem descanso e convivência, em contraste com espaços dominados pelo concreto.


Uma iniciativa recente procura dividir essa responsabilidade. Pelo programa Click Árvore, o morador solicita gratuitamente à Prefeitura o plantio em frente ao imóvel. A equipe municipal avalia calçada, fiação e espaço, indica a espécie e executa o serviço. Os cuidados iniciais com a muda ficam a cargo do solicitante.


Para Gula, participação social não dispensa investimento público: moradores precisam cobrar planejamento e manutenção. Luciano Nakabashi acrescenta que parques e áreas verdes podem fortalecer o turismo e a capacidade de Ribeirão atrair pessoas.


Depois de crescer para fora e para cima, a cidade precisa cuidar do espaço entre seus edifícios. A nova Ribeirão não será medida apenas pelo número de moradores, empresas ou construções, mas pela possibilidade de viver bem dentro dela. 

 

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