Delegado Gustavo André Alves detalha os golpes que mais ocorrem em Ribeirão Preto e dá dicas de prevenção
Em 2024, o Brasil registrou mais de 2,1 milhões de estelionatos, o equivalente a quatro golpes por minuto, com forte crescimento dos crimes eletrônicos.
Durante todo o ano de 2024, o Brasil contabilizou mais de 2,1 milhões de estelionatos – crescimento de 408% em relação a 2018 e a proporção de quatro golpes por minuto –, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) na última semana. Desses, 281,2 mil foram praticados nos meios eletrônicos.
A presença crescente da sociedade no universo digital está entre uma das razões desse aumento, confirma o delegado Gustavo André Alves, com carreira de 27 anos na Polícia Civil, iniciada escrivão. Ele iniciou sua trajetória em São Paulo e, depois de passar por cidades pequenas do interior paulista, veio trabalhar na Delegacia Seccional de Ribeirão Preto, onde está desde 2010. Também coordena o centro de inteligência, onde direcionou sua atuação para o combate aos crimes eletrônicos.
Ele fala sobre isso e dá dicas de como se prevenir das mais variadas modalidades de golpes na entrevista a seguir.
Quais são os golpes mais recorrentes atualmente em Ribeirão Preto?
Temos observado uma grande quantidade de golpes de estelionatos, utilizando de forma especial a modalidade eletrônica. A gente verificou que o criminoso tem migrado para o crime eletrônico, porque ele acha que vai ficar escondido atrás de uma tela, protegido pela internet e que não será identificado. O que não é verdade, porque a polícia dispõe de técnicas de investigação para identificá-lo. Podemos citar a clonagem de cartões bancários, o golpe do falso Pix, o golpe do falso advogado, em que o criminoso faz contato com a vítima se passando pelo seu advogado e pedindo o pagamento de alguma taxa de honorários. Temos também os golpes vinculados às redes sociais, com o hackeamento de contas para postagens e anúncios de vendas de produtos que, na verdade, não é a vítima que está anunciando. Por fim, temos o golpe do falso familiar, que é alguém se passando por um parente, pedindo para um familiar pagar uma conta ou que faça uma transferência para quitar um boleto.
O uso da tecnologia tem ampliado a ação dos golpistas?
Sem dúvida. A gente identificou essa migração do criminoso comum para os golpes digitais, muito pela facilidade de acesso a essas plataformas e a essa falsa crença que eles têm de blindagem. Então, isso potencializou muito os golpes virtuais.
O golpe do PIX tem feito muitas vítimas? Como ele costuma ser aplicado?
Os criminosos têm se valido de falsas transferências via Pix para fazer contato com a vítima, pedindo que ela restitua aquele valor que, na verdade, não foi transferido. É importante que a vítima não atenda esse criminoso, porque ele vai tentar criar uma situação de emergência para que ela faça a transferência de forma rápida. Então, a sugestão é que a vítima tome muita cautela ao restituir um Pix para alguém que está dizendo que fez uma transação por engano.
O golpe do WhatsApp clonado ainda é comum? Como ele costuma ser aplicado?
Com relação ao WhatsApp, no início a gente verificava que o criminoso conseguia hackear e substituir a conta da vítima, passando a ter o domínio dela. Mas, com a chegada do fator de dupla verificação, esse golpe, nessa modalidade, foi bastante reduzido, porque isso elimina a possibilidade de o criminoso transferir a conta da vítima para outro equipamento. Porém, o que temos encontrado é a suposta clonagem da conta da vítima. O criminoso, na verdade, não hackeia a conta, mas, de um número diferente, cria uma nova conta e coloca a foto da vítima, levando familiares a fazerem uma transferência bancária, por exemplo.
Como a exposição de dados pessoais nas redes sociais pode facilitar a ação de golpistas? Quais cuidados são essenciais nesse ambiente digital?
Uma das grandes fontes de informações para o criminoso são as redes sociais das vítimas. Por isso, deve-se manter o fator de dupla verificação para o acesso à conta ativo. Também é válido que, nas plataformas, a pessoa só mantenha contato com outras que ela já conheça, e que ela não troque informações, imagens e documentos com pessoas desconhecidas. Até porque essa pessoa pode ser um criminoso, já que eles buscam imagens em redes sociais para utilizá-las em compras.
E o golpe do motoboy, como acontece? Por que ele ainda faz tantas vítimas e quais cuidados a população deve tomar?
Esse não é tão frequente quanto o do WhatsApp, porque de alguma forma o criminoso acaba se expondo presencialmente. Há algumas formatações desse golpe. Uma delas é quando há uma engenharia social convencendo a vítima de que houve uma clonagem ou um acesso indevido à sua conta, e o motoboy [do golpista] vai buscar o cartão dela. Aí o motoboy vai retirar esse cartão para, depois, utilizá-lo para fazer transferências ou saques. É muito importante que as pessoas tenham consciência de que os bancos não enviam ninguém para retirar cartões. Tudo é feito através de plataformas digitais ou aplicativos. Então, nunca entregue um cartão para desconhecidos. Além disso, as pessoas, ao fazerem uma transação com pagamento através das maquininhas, devem manter o cartão em sua posse, preferindo a modalidade por aproximação ou Pix, justamente para evitar inserir o cartão em uma máquina que pode estar adulterada para clonar os dados do cartão da vítima. Também é válido acompanhar toda a transação que está sendo realizada na tela da maquininha para ver se o valor está correto. Se a vítima notar que há algo de estranho com o motoboy, acione a polícia naquele momento, porque ela pode propiciar inclusive a prisão daquele sujeito.
O senhor poderia explicar quais estratégias os criminosos usam para enganar as vítimas com o golpe do falso atendente de banco?
Os criminosos costumam utilizar uma engenharia social para convencer a vítima a praticar uma ação que permita que ele invada um equipamento. Assim, ele vai ter acesso às senhas da vítima ou, então, fazer com que ela altere a sua senha do banco, quando, na verdade, ela está passando a senha atual para o criminoso. Geralmente, há um contato com a vítima por WhatsApp, no qual o criminoso se passa por gerente ou funcionário do banco, pedindo para que ela abra algum link, o que faz com que ele obtenha esses dados. É importante que as vítimas não mantenham contato com o banco nessa formatação, pois existem os canais oficiais para isso.
Existe um perfil mais vulnerável entre as vítimas desses golpes?
Na verdade, há perfis de vítimas diferentes para cada tipo de golpe. Então, ninguém fica fora do alvo dos criminosos. Podemos ter desde pessoas com idade mais avançada, pela dificuldade de utilizar plataformas eletrônicas, até um jovem que está afeto a plataformas digitais. Não dá para determinar um único segmento de vítima.
Se alguém cair em um golpe, o que deve fazer nas primeiras horas após a fraude?
É extremamente importante que seja registrado um boletim de ocorrência o mais rápido possível. A pessoa deve coletar o maior número de dados que ela tenha do golpe que a vitimou. Um print das mensagens trocadas com o criminoso ou um comprovante da transferência do Pix que foi feito são muito úteis. Temos delegacias presenciais e online, em que a vítima pode registrar o boletim digitalmente. Muitas pessoas ficam com vergonha de registrar que caíram em um golpe porque tiveram um prejuízo. É de extrema relevância que as vítimas saibam que não haverá nenhum tipo de exposição e que é importante registrar o boletim para evitar que outras pessoas sejam vítimas. Essa subnotificação é muito prejudicial.
Qual é a principal orientação do senhor para quem quer se proteger dessas armadilhas?
As pessoas devem lembrar o seguinte: a ponta vulnerável na internet é o usuário. Então, precisamos tomar muito cuidado, porque a gente não sabe quem está do outro lado. Verifique se é uma pessoa conhecida. Se não for, acenda o sinal de alerta. O criminoso se vale muito da vulnerabilidade, da fragilidade da vítima. Então, é pertinente implementar a dupla verificação em contas de e-mail e redes sociais, além de cuidar da sua conta bancária. Façam as coisas com calma e raciocinem, observem o que está sendo solicitado. Na dúvida, não atenda, procure canais oficiais ou outras pessoas para ter uma orientação se aquilo pode ou não ser um golpe.
Foto: Guilherme Fuzaro / Revide