Políticas de Trump reacendem debate sobre identidade latina na América, avalia pesquisadora
Professora de Relações Internacionais da Unaerp analisa como políticas migratórias e econômicas de Donald Trump impactam a América Latina, redefinem o sentimento de pertencimento entre latinos
A professora Maria Alice Venâncio Albuquerque, do curso de Relações Internacionais da Unaerp, analisa os impactos das políticas migratórias e econômicas de Donald Trump sobre a América Latina e a identidade latina. Doutora em Relações Internacionais pela PUC-Rio, mestre em Ciência Política pela UFPE e graduada pela UEPB, ela integra a Rede de Pesquisadores em Sítios de Memória e Consciência e a Rede de Estudos em Paz, Conflito e Estudos Críticos de Segurança (PCECS). Na entrevista, discute pertencimento, entretenimento como arena política e o papel do Brasil diante da nova ofensiva estadunidense na região.
A partir das políticas migratórias e do discurso nacionalista de Donald Trump, é possível dizer que houve uma intensificação de um sentimento latino de pertencimento — inclusive entre grupos historicamente marginalizados dentro dos Estados Unidos?
Eu diria que houve uma ressignificação desse sentimento. As políticas migratórias e o discurso abertamente racista do governo Trump funcionaram como um “alerta” sobre o chamado sonho americano. A perseguição não atinge apenas imigrantes indocumentados, mas também cidadãos nascidos nos EUA que não correspondem ao ideal anglo-saxão. O fator racial ficou explícito: não importa onde você nasceu, se não celebra os valores e o “sangue norte-americano”, você é visto como ameaça. O latino virou “desvio”, construído como criminoso, alguém que “saqueia” o país. Trump chegou a perguntar por que não recebem gente da Noruega, Suécia ou Dinamarca, “pessoas boas”, enquanto associa outros países a sujeira e crime. Isso produz medo, mas também politização. Muitos latinos, especialmente os nascidos nos EUA, passaram a afirmar publicamente seu pertencimento e a se articular contra as ações do ICE. Ao mesmo tempo, parte da elite migrante brasileira se vê como “boa migrante” e apoia essa agenda. Ainda assim, a estigmatização reacendeu memórias comuns de dependência e submissão e fortaleceu uma identidade construída também na resistência.
Quando falamos em “latinos”, estamos falando de uma identidade cultural homogênea ou de uma construção política que ganha força justamente em contextos de exclusão e conflito?
Não estamos falando de algo homogêneo. “Latino” é uma categoria ampla, que reúne trajetórias nacionais, raciais e sociais muito distintas. É, sobretudo, uma construção política, formulada no século XIX por intelectuais norte-americanos para delimitar fronteiras e consolidar a hegemonia dos EUA no continente. Não existe uma identidade latina fixa; trata-se de um campo de disputas que se agrega e se desagrega conforme o contexto. Em certos momentos, evocar essa identidade atende a estratégias políticas, como ocorreu na onda regionalista da UNASUL e da CELAC, quando havia a tentativa de inserção global da região em bloco, sem alinhamento automático a Washington. Mesmo assim, sempre houve tensão sobre quem falaria pela América Latina — o Brasil frequentemente reivindicou essa liderança, enfrentando resistências, inclusive culturais, por ser o único país lusófono entre nações hispânicas. Paradoxalmente, é essa diversidade que revela o que compartilhamos: a colonização e a persistência da colonialidade. A identidade latina emerge, muitas vezes, como resposta ao imperialismo norte-americano e como reafirmação de autonomia, transformando diferenças em ponto de aproximação.
A cultura do entretenimento — música, esporte, grandes eventos midiáticos — pode ser entendida hoje como um espaço legítimo de disputa política e identitária?
Sem dúvida. Música, esporte e cultura pop nunca foram neutros; constroem narrativas sobre pertencimento e legitimidade do poder. O envolvimento de artistas em agendas políticas não é novo, mas ganhou tração com as redes sociais. Vimos artistas se posicionando contra ações do ICE, discursando em premiações e participando de protestos. Celebridades têm alcance intergeracional e conseguem disputar sentidos em escala global. Ao mesmo tempo, a cultura do entretenimento é atravessada pela “globalização perversa”, para usar Milton Santos: algumas culturas são vendidas como universais, enquanto outras são reduzidas a mercadoria exótica. Globalizam-se estereótipos — da mulher latina hipersexualizada, do homem latino criminoso — mais do que pertencimentos reais. Ainda assim, há fissuras. No Super Bowl, por exemplo, um artista latino utilizou um dos maiores palcos do mundo para exaltar tradições, denunciar colonialismo e afirmar que “a América não é só Estados Unidos”. Esses eventos são arenas de disputa simbólica: podem reproduzir hierarquias, mas também subvertê-las, transformando entretenimento em resistência cultural.
O Brasil ocupa um “entre-lugar” na América Latina: fora do eixo hispânico, mas marcado por dinâmicas latino-americanas. Essa dificuldade histórica de se reconhecer como latino enfraquece os processos atuais de afirmação identitária na região?
Eu não acredito que enfraqueça, mas reconheço que o Brasil vive um “entre-lugar”. Pesquisas mostram que poucos brasileiros se identificam como latino; preferem “brasileiro” ou “cidadão do mundo”. Isso tem raízes históricas. O termo “América Latina” ganhou sentido étnico-racial nos EUA, associado a países de origem espanhola, o que nos desloca simbolicamente. Além disso, nosso processo de independência foi distinto: tivemos uma relação simbiótica com Portugal, mantivemos a monarquia e não compartilhamos a experiência de guerras emancipadoras lideradas por figuras como Simón Bolívar. Enquanto vizinhos construíram identidade lutando contra a Espanha, nós cultivamos, por muito tempo, uma sensação de proximidade com a Europa. A Guerra do Paraguai também marcou negativamente nossa imagem regional. Ainda assim, vejo nas artes — música, dança, intercâmbios culturais — a fagulha da latinidade. Talvez latinidade seja um sentimento que se descobre pela arte, quando percebemos que nossas diferenças não nos tornam menores, mas parte de uma história comum de colonialismo e resistência.
O que o show de Bad Bunny no Super Bowl revela sobre o uso do entretenimento como ferramenta de afirmação política e soft power? Há espaço para uma discussão sobre representatividade e instrumentalização do uso de símbolos latinos?
O conceito de soft power, formulado por Joseph Nye, envolve a capacidade de influenciar por atração cultural, valores e instituições, e não apenas por força militar ou sanções. Países como os EUA ou a Coreia do Sul utilizam indústria cultural e megaeventos como instrumentos claros de projeção nacional. No caso do show de Bad Bunny, porém, não vejo um exercício clássico de soft power estatal. Embora ele seja orgulhosamente porto-riquenho, sua mensagem não foi nacionalista, mas coletiva. Ele não buscou projetar Porto Rico como marca-país; utilizou o palco para denunciar colonialismo, apagamentos históricos e políticas coercitivas, cantando majoritariamente em espanhol em território estadunidense. Para mim, foi sobretudo um ato de protesto e resistência civil não violenta. Há, sim, discussão sobre representatividade e sobre como símbolos latinos podem ser instrumentalizados pela indústria cultural. Mas ali houve também subversão: ao ocupar um espaço hegemônico, ele afirmou que a América é plural, composta por mais de 30 países, e convidou todos nós a resistirmos ao apagamento identitário.
As políticas migratórias e econômicas de Donald Trump, como tarifas comerciais e endurecimento contra imigrantes, retomam na prática a lógica da Doutrina Monroe — a ideia de uma América Latina subordinada aos interesses dos Estados Unidos? Onde o Brasil se encaixa nesse projeto?
Sim. As políticas de Trump retomam a tradição da Doutrina Monroe, que começou como defesa contra a Europa, mas rapidamente se transformou em justificativa para expansionismo e intervenções no sul do continente. Ao longo do século XX, essa lógica variou entre o Big Stick, intervenções militares e, depois, estratégias econômicas e ideológicas. O que vemos agora é uma versão assumida e sem verniz moral — uma “Doutrina Donroe”, como ele mesmo sugere — baseada em demonstração aberta de força. A América Latina aparece como espaço que deve se submeter para que os EUA “sejam grandes de novo”. O Brasil, nesse contexto, tem atuado como contestador pragmático. Internamente, fala em defesa da soberania diante de sanções e pressões políticas; regionalmente, sinaliza solidariedade a países ameaçados e reafirma princípios de autodeterminação. Ao mesmo tempo, busca preservar interesses econômicos e manter diálogo diplomático. Vejo o Brasil tentando equilibrar resistência e pragmatismo, reforçando o multilateralismo como alternativa às posturas unilaterais e coercitivas de Washington.
Foto: Guilherme Fuzaro