Música, memória e política
Músico, compositor, educador e agente cultural com forte atuação política, Márcio Coelho mostra que segue afiado nas críticas à – falta de – política cultural em Ribeirão Preto
Entre acordes e dissonâncias, há artistas que fazem da própria trajetória um manifesto. Para Márcio Coelho, carioca – apenas nasceu em Campos (RJ), mas cresceu na cidade do Rio de Janeiro – radicado em Ribeirão Preto desde a década de 1980, música nunca foi apenas som, mas gesto político e memória. Músico, compositor, educador e agente cultural com forte atuação nas cenas política artística do interior paulista, nas duas administrações municipais de Antônio Palocci Filho (1993-1996 e 2001-2002) coordenou o projeto Ribeirão Criança, que chegou a envolver mais de 1.800 crianças de famílias de baixa renda em oficinas culturais, na periferia da cidade.
Com Ana Favaretto, mulher e parceira musical, gravou nove discos infantis e soma 25 milhões de visualizações no YouTube. A dupla também completaria dez anos de bloco Os Marcianos – que promovia Carnaval para famílias em Bonfim Paulista – neste ano, mas desistiu pretextando cansaço, pela falta de apoio do poder público. Sem papas na língua, na entrevista a seguir ele fala sobre sua formação musical, a influência da Vanguarda Paulista na criação da banda performática É Tudo Cena Dela, lembra a efervescência e as transformações na cena musical ribeirão-pretana e gestão de cultura dos últimos governos municipais. Ainda aborda os desafios atuais dos artistas autorais e – claro! – o Carnaval em Ribeirão Preto.
Como era a cena musical de Ribeirão Preto na época em que você chegou à cidade?
Quando conheci Ribeirão, vi um calor igualzinho ao da minha terra. Só na avenida Treze de Maio, contei 23 bares com música ao vivo, na época. Então pensei que aqui eu não morreria de fome [risos]. Eu trabalhava no Chafariz de terça-feira a domingo, com banda. Chegamos a ter seis músicos lá. Era muito bom. A gente tinha trabalho autoral aqui, como o Kiko Zambianchi, que ficou conhecido nacionalmente, o Gente Cá da Terra, o Grupo Nós. Eu queria ser compositor de música popular brasileira. Depois de mim veio o Box 32, o Dimi Zumquê, o Véio, que montou a banda UAI – todo mundo foi crescendo. Para mim era difícil. Todo mundo falava para não me chamar, porque eu queria tocar só as minhas músicas [autorais]. A Simone Guimarães, que está de volta aqui, fala que eu fui inspiração para ela, porque [pensou que] se o É Tudo Cena Dela podia, ela também podia. Inspirar a Simone, que é uma cancionista tão competente, já valeu o trabalho, né?
Em que aspectos essa cena mudou desde então?
Mudou muito, mas acho que não foi só em Ribeirão Preto. Fico um pouco incomodado com o tanto de [bandas] covers. Quando eu cantava em bar, todo dia tocava três, quatro músicas de autoria minha. Ainda hoje, se me contratam, vou fazer isso. Hoje não vejo o pessoal fazendo isso. Ano passado, no festival de São Simão, a banda Chic Hernandez fez um intervalo e tocou só músicas deles. Teve muita crítica, até da organização. Se o músico não pode tocar sua própria música, como vão conhecer o trabalho dele? Outra coisa que não gosto é a falta de politização dos músicos. Na minha época, chegamos a fundar uma associação de músicos. Quando trabalhei na Secretaria da Cultura, junto com o Zé Alfredo, que era vereador, criamos uma lei que legalizava o trabalho do músico. Durante a semana, podia tocar até meia-noite, e aos finais de semana – acho que a partir de quinta-feira –, até 2h da manhã. Até então, pela lei que vigorava, o músico só poderia tocar se tivesse tratamento acústico no bar e somente em um estava legalizado nisso, à época. No Lugar Nenhum [bar que marcou a década de 1990, na avenida Treze de Maio] era rock pesado praticamente na calçada e na rua, tendo ao lado uma casa de repouso. Muito músico ficou com raiva porque não entendeu, e até eu conseguir explicar que, na verdade, eu estava legalizando o trabalho de todos nós, e não atrapalhando, foi muito complicado.
Você continua atuante politicamente?
Continuo, mas tenho muita dificuldade com os músicos. O povo tem muito medo, tem músico bolsominion e isso me mata, mas, no geral, ninguém quer falar sobre isso e botar a cara. É realmente é preocupante. Eu e a Ana fizemos o contrário. Colocamos a estrela na testa e fomos brigar. Hoje, cansei um pouquinho. Acho que a militância da cultura está muito particularista, porque a pessoa ser negra, mulher, LGBT e defender sua classe, sua categoria, está tudo certo. Agora, quando a pessoa só se interessa pelo movimento político quando aquilo diz respeito ao movimento em que está engajado, é preocupante. Felizmente, está muito melhor do que quando eu era criança, mas atualmente eu não milito e estou mais ligado ao MST [Movimento dos Trabalhadores Sem Terra]. Não sou mais dirigente do PT, embora continue petista e filiado, mas não vou me candidatar a mais nada [candidatou-se a vereador na última eleição municipal. Acho que cumpri um papel, consegui alguns votos bons. Hoje temos três vereadoras e está bacana para o PT ter três mulheres na Câmara. Estou velhinho também e um pouquinho cansado.
Qual sua opinião sobre a política cultural feita em Ribeirão pelos últimos governos municipais?
Olha, o que aconteceu de bom foi por força de ativistas da área cultural daqui. A gente teve uma secretária no governo do Nogueira que foi um zero à esquerda. Para se ter uma ideia, na primeira leva da lei Aldir Blanc [criada para monetizar a classe artística durante o isolamento social da pandemia] fizeram burocracia com uma grana que era para ser distribuída entre o pessoal com fome. Não eram poucos. Eu ajudei muita gente, porque naquela época eu ainda tinha uma grana guardada, um pouco de direito autoral. Um avanço foi colocar o município no Sistema Nacional de Cultura, que é como o SUS (Sistema Único de Saúde) ou SUAS (Sistema Único de Assistência Social). Facilita sobremaneira a gestão cultural porque traz o Fundo Nacional de Cultura e o Fundo Municipal de Cultura e possibilita fazer transferências Fundo a Fundo, mas quem mexeu esse caldo foi o Flávio Racy, que correu atrás pelo Conselho Municipal de Cultura (hoje Conselho Municipal de Políticas Culturais). Agora, entrou a Magê [secretária Maria Eugênia Biffi] de cujo pai sou amigo – o Agnaldo, que era dono do Chafariz [bar também famoso na cidade na década de 1990]. Vi essa menina no útero. A gestão não está legal porque falta vontade política e, acho, autonomia também. Para mim, ela não está fazendo o papel que deveria fazer.
Sobre Carnaval, foram quantos anos de Bloco Os Marcianos, em Bonfim Paulista?
A gente faria dez anos agora, mas eu a Ana resolvemos não fazer este ano, porque a Prefeitura e a Secretaria da Cultura não fazem nada. No ano passado, o que eles ofereceram pra gente foram duas caixas de som e uma mesa de som de oito canais, que não dá para microfonar a bateria. E ainda temos contrabaixo, piano, violão, vozes. Por muitos anos, a gente tinha que pagar pelos banheiros e pelos seguranças e fazer todo o trâmite legal. Aí melhorou um pouquinho, quando a Secretaria da Cultura começou a fazer os trâmites (é muita coisa), mas a gente tem que assinar um documento assumindo a responsabilidade por qualquer coisa que acontecer. Embora fosse um bloco para toda a família, Os Marcianos tinha muita identificação com as crianças.
Sendo bem estruturado e bem pago, você acha legal esse formato de Carnaval de Rua que a Prefeitura prega?
Eu faço uma defesa também das escolas de samba, que era uma coisa que poderia evoluir, melhorar. Eles acabaram com o desfile das escolas de samba. Não vejo problema nenhum na convivência entre os blocos e as escolas de samba. É caro? Sim, mas a população ia. E tem lei para isso, mas o pessoal não cumpre. Teriam que ajudar mais, fazer Carnaval o ano inteiro, com samba nas quadras. Se tivesse um apoio para tudo isso, a gente faria um Carnaval legal. E Carnaval também é economia girada pela cultura. Vi que Cravinhos tem Carnaval promovido pelo poder público e Ribeirão Preto não tem. Acho até que nem precisava gastar dinheiro da Prefeitura. Com boa gestão, a gente conseguiria patrocínio para fazer tudo, e os blocos ficariam por conta da lei Aldir Blanc e do Fundo Municipal de Cultura. A Prefeitura trata quem faz Carnaval com música como trata quem faz uma feira e coloca som mecânico. E quem faz feira, faz para ganhar dinheiro. A gente está fazendo arte e cultura para o povo. Falta vontade política. O Carnaval tinha morrido em Ribeirão e renasceu com o bloco Berro, do Cauim. Depois veio o bloco Alegrões, muito bacana, mas a Prefeitura não dava estrutura e eles acabaram tendo que parar. Não tinha estrutura de segurança e eles ainda tinham que assinar documento se responsabilizando por tudo. A Prefeitura só se mostra como responsável na hora que vai dar o resultado do Carnaval. Vi a imprensa dizendo que serão 50 pontos de Carnaval este ano, mas são 50 pontos porque a sociedade está fazendo.
Fale um pouco sobre como nasceu a banda performática
É Tudo Cena Dela, na década de 1990, que até hoje tem fãs fiéis. Eu me encantei com a Vanguarda Paulista, que era Arrigo Barnabé, Itamar Assunção, o Grupo Rumo, Premeditando o Breque. O Itamar Assunção tinha um LP (long Play – disco de vinil) chamado “Às próprias custas”, que era o show inteiro gravado ao vivo. Quando ouvi aquilo, pensei: “gente isso é maravilhoso!”. E fui atrás. Acabei sendo orientado no meu mestrado pelo [músico] Luiz Tatit, do grupo Rumo, um grande cancionista, grande teórico e ótimo professor. Depois trabalhei com o Hermelino Neder, em um projeto de musicalização, e fiquei perto desse pessoal, que foi muito bacana para mim. Então, eu tinha que montar uma banda nesses moldes. Naquela época, eu não tinha o conhecimento do Arrigo para fazer música dodecafônica, mas conforme eu ia aprendendo a coisa da música erudita e contemporânea, ia aplicando. Minha sorte foi encontrar um monte de maluco que topou essa ideia.
Quando e como você e a Ana iniciaram seu projeto de música para crianças?
Em 1993, a Editora Ática me contratou para musicar livros infantis juvenis, a partir de uma ideia da Regina Rennó. Eu li tudo o que tinha de livros para criança, uns 140, e selecionei uns dez ou 12. Aí, descobri o José Paulo Paes escrevendo para criança; a Sônia Junqueira, um monte de coisa bacana, e me empolguei. A primeira parte do projeto foi bacana. Fizemos o primeiro show, mas tinha que pagar outras coisas (figurino, arranjo) e eles não custearam nada. Eu não quis fazer disco porque tem que pagar direito autoral. Comecei a compor para crianças porque logo depois passei a trabalhar na educação infantil e naquela época eu não achava música infantil bacana. A partir disso, fomos fazer show e começou tudo. Isso foi por volta de 1995. A Ana cantava e fazia figurinos e viramos dupla. O projeto chamava ‘Curuminzada’, no primeiro disco. Agora, temos nove discos infantis e somos bem conhecidos para quem faz trabalho independente. Temos uns 25 milhões de visualizações no YouTube. Colombianos gravaram música minha e tem outras versões que fizeram na Argentina. Tenho parceria com o argentino Luis Pescetti, que é fantástico, um gênio, e ganhou o prêmio Casa de Las Américas. Quando o conheci, mudou minha maneira de fazer música para criança.
Você tem sonhos e planos que não concretizou e projetos para o futuro?
Serei hiper sincero. Ana e eu estamos sofrendo boicote por nossa atuação política. Aqui na cidade, só o Sesc nos chama para trabalhar. Está super difícil. A USP, onde só dão aulas de música de concerto, usa os meus livros e os da Ana para dar aula na escola pública, mas nunca me chamou para dar uma palestra, um curso. No entanto, consegui muito mais do que imaginei com a minha condição financeira. Cheguei aqui com um violão e dinheiro para ficar uma semana e consegui muita coisa. A gente até ganha um dinheirinho nos streamings. É um trabalho bem conhecido. Estamos caminhando para nos aposentar, porque estamos cansando de sofrer preconceito e desrespeito.