O peso do desempenho
Erica Zampolo alerta que a obsessão pelo corpo perfeito pode ameaçar a saúde física e mental

O peso do desempenho

Psicóloga Erica Zampolo Miguel alerta para os riscos à saúde física e mental da cultura da perfeição e do desempenho

Em uma época marcada pela busca por desempenho, produtividade e perfeição, o corpo tornou-se um dos principais territórios de disputa da vida contemporânea. Redes sociais, discursos sobre saúde e padrões estéticos rígidos ampliam cobranças e alimentam sofrimentos que vão além da aparência. Mas em que momento o cuidado legítimo com o corpo se transforma em obsessão? Nesta entrevista, Erica Zampolo Miguel, psicóloga, professora e coordenadora, reflete sobre os impactos psíquicos da cultura da performance, analisa a obesidade como expressão do "mal-estar contemporâneo" e discute como trabalho, vínculos afetivos e expectativas sociais atravessam a forma como nos relacionamos com o próprio corpo. 

 

Em que momento a preocupação com saúde, estética e desempenho deixa de ser um cuidado legítimo e passa a representar um risco à saúde mental?

 

Como no caso do fisiculturista morto recentemente. As preocupações estéticas e a busca incessante por desempenho fazem parte do contexto social contemporâneo em que estamos inseridos. Além disso, a necessidade de identificação e pertencimento tem se tornado cada vez mais relevante, e o discurso da saúde frequentemente ocupa um lugar de aceitação e valorização social. Nesse cenário, o corpo passa a ser o principal instrumento por meio do qual se tenta responder a essas demandas. Essa relação com o corpo sempre envolve algum grau de risco para a saúde mental, pois ele pode ser uma das fontes de manifestação de sintomas. Mas, quando passa a gerar sofrimento, dependência da aprovação externa, uso arriscado de substâncias ou prejuízos às relações interpessoais, o excesso torna-se uma exigência difícil de controlar. Se analisarmos a trajetória pública desse fisiculturista, observamos uma escalada de excessos. Com o crescimento nas redes sociais, o corpo passou a representar também uma fonte de reconhecimento, visibilidade e sustento profissional, culminando em uma rotina extrema de preparação e no uso de hormônios para alcançar resultados cada vez mais expressivos. O problema, portanto, não parece estar no fisiculturismo em si, mas na repetição de uma lógica de excessos que o acompanhou ao longo da vida.

 

A sua pesquisa trata da obesidade como um "mal-estar contemporâneo". De que forma esse mal-estar também aparece nos extremos, como nos transtornos alimentares, na vigorexia e na obsessão por um ideal corporal?

 

Nos transtornos alimentares, por exemplo, observa-se uma tentativa de controle absoluto sobre o corpo e sobre os impulsos, enquanto na vigorexia a construção muscular excessiva pode representar uma busca incessante por completude e reconhecimento. Em ambos, o sujeito busca no corpo uma solução para conflitos que são, na verdade, de ordem psíquica. Quando o sujeito compara sua imagem real a um ideal inatingível, surge um sentimento permanente de insuficiência. Assim, a busca incessante por um corpo perfeito nunca produz satisfação duradoura, pois o ideal está sempre além do que foi alcançado. Então, quanto mais o sujeito acredita que alcançará satisfação por meio da adequação ao ideal corporal, mais se submete a exigências impossíveis de satisfazer. Dessa forma, os extremos relacionados ao corpo não eliminam o mal-estar, ao contrário, tornam-se uma de suas expressões mais evidentes na cultura contemporânea.


Na sua pesquisa de mestrado, você investiga a obesidade como um "mal-estar contemporâneo". O que esse conceito significa e o que ele revela sobre a forma como nossa sociedade olha para os corpos que fogem do padrão?

 

Freud em sua obra “O Mal-Estar na Civilização” descreve que a vida em sociedade exige constantes renúncias pulsionais, com isso, ele quer dizer que o sujeito precisa abrir mão de uma satisfação imediata de seus desejos para viver em comunidade, e essa renúncia produz inevitavelmente sofrimento, insatisfação e conflito psíquico. E, assim, o sofrimento humano não pode ser completamente eliminado, pois é constitutivo da própria condição de sujeito. Na contemporaneidade, esse mal-estar assume novas formas. Se na época de Freud a repressão dos impulsos sexuais era um dos principais focos de sofrimento, hoje observamos uma forte exigência social relacionada ao desempenho, à felicidade, à produtividade e à aparência física. Nesse contexto, a obesidade ultrapassa uma compreensão exclusivamente biomédica e passa a ser analisada também como um fenômeno social e subjetivo. Ela revela tensões de uma sociedade que estabelece padrões corporais rígidos, associando magreza à saúde, ao sucesso e ao valor moral. Ao observarmos como os corpos que fogem desses padrões são vistos, percebemos que a obesidade frequentemente é alvo de estigmatização, preconceito e exclusão. Esse olhar produz sofrimento psíquico e social, reforçando sentimentos de inadequação e não pertencimento.

 

O que a história de vida de pessoas que enfrentam sofrimento relacionado ao corpo costuma revelar sobre as condições em que trabalham, se relacionam e vivem?

 

Na história de vida de pessoas que enfrentam sofrimento relacionado ao corpo é comum observar que essa experiência não pode ser compreendida apenas a partir de escolhas individuais ou de fatores biológicos. Frequentemente, ela está atravessada pelas condições concretas de vida, pelas relações afetivas, pelas experiências de exclusão, pelas exigências do trabalho e pelas expectativas sociais às quais esses sujeitos estão submetidos. Olhar para essas histórias de vida é compreender que o corpo não pode ser separado do contexto em que a pessoa vive. Ao escutarmos suas trajetórias, encontramos relatos de preconceito, discriminação, cobranças familiares e experiências marcadas por sofrimento emocional. O corpo passa a carregar marcas dessas vivências e pode se tornar uma forma de expressão de conflitos, angústias e tentativas de adaptação às demandas do meio social. No contexto do trabalho, muitas pessoas relatam pressão relacionada à aparência, à produtividade e à necessidade constante de corresponder a determinados padrões. Nas relações sociais e afetivas, também são frequentes experiências de julgamento e rejeição. Sob uma perspectiva psicanalítica, o sofrimento relacionado ao corpo revela aspectos mais amplos das condições de existência, das formas de sofrimento contemporâneo e das desigualdades presentes na sociedade.


Em uma sociedade que parece exigir performance, controle e perfeição o tempo todo, é possível construir uma relação mais saudável com o próprio corpo? Que caminhos podem ajudar nesse processo?

 

Sim, embora não seja um caminho simples, não existe uma receita a ser prescrita. Vivemos em uma sociedade que frequentemente associa valor pessoal à aparência, ao desempenho e à capacidade de controle, o que pode gerar uma relação marcada por cobrança constante, insatisfação e comparação. Nesse contexto, construir uma relação mais saudável com o próprio corpo implica, antes de tudo, questionar esses ideais e reconhecer que eles são construções culturais, e não exigências naturais ou universais. Do ponto de vista psicanalítico, um dos caminhos possíveis é desenvolver uma escuta mais atenta da própria história e da singularidade de cada sujeito. O sofrimento relacionado ao corpo não se resume à aparência física, mas está ligado às experiências afetivas, aos vínculos, aos desejos e aos significados que cada pessoa atribui ao próprio corpo ao longo da vida. "Estamos diante de um corpo em que os sintomas são falas que precisam ser escutadas." Também é importante deslocar o olhar da busca incessante por um corpo ideal para uma relação de maior cuidado e respeito com o corpo real, que envelhece, muda e apresenta limites. Isso não significa abandonar o cuidado com a saúde, mas dissociá-lo da lógica da perfeição. Talvez um dos maiores desafios da contemporaneidade seja reconhecer que a perfeição é uma promessa impossível. O objetivo não é alcançar um corpo perfeito, mas habitar o próprio corpo com menos sofrimento e mais possibilidade de existência. 

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