Um professor na secretaria
Funcionário de carreira com ascensão na pasta da Educação Municipal, Christian Vianna Oliveira fala sobre os desafios que aceitou junto com o cargo de secretário
Educador físico por formação e funcionário de carreira na rede municipal de ensino de Ribeirão Preto, Christian Vianna Oliveira, 43 anos, tomou posse como secretário municipal de Educação em novembro de 2025, após uma longa jornada administração adentro. De concurso em concurso, foi de agente administrativo a professor e, conforme adquiria mais formação – graduou-se em Educação Física na Unaerp, em Pedagogia na Faculdade Metropolitana, fez mestrado na Unesp e atualmente é doutorando na USP Ribeirão Preto – e se destacava em áreas diversas, galgava novos postos técnicos e de chefia.
No último ano, sua ascensão foi meteórica: no início da atual gestão, foi convidado a assumir a Divisão de Gestão Pedagógica e, apenas três meses depois, assumia a direção do Departamento; em outubro, aceitava convite do então secretário de Educação, Waldir Martins, para ser seu adjunto, e em novembro tornou-se secretário interino, após o mesmo deixar o cargo. Em poucos dias foi efetivado como titular. Na entrevista a seguir, Christian fala sobre os desafios assumidos junto com o cargo:
Como recebeu o convite para assumir o cargo de secretário e o que o motivou a aceitá-lo?
Assustou um pouco porque vejo na nossa rede municipal de Educação uma diversidade muito grande. Sei dos desafios. Vivi muitos e, realmente, tudo o que se faz agrada uma parte e desagrada outra. Além disso, tem a sociedade civil, as necessidades das mães e dos pais, de infraestrutura, do RH [Recursos Humanos], de valorização dos professores, enfim... Ao mesmo tempo, me senti lisonjeado porque foi a primeira vez que um professor na ativa recebeu um convite desse porte. Eu até brincava falando que, quando você é professor, vê os problemas e diz: ‘se eu virar diretor, vou consertar’. Aí você vira diretor, chega lá e não tem dinheiro. Pronto: é a Secretaria da Educação que não trabalha, e dá-lhe pedra na Secretaria. Chega na Secretaria e vê que a coisa não está indo e pensa que é o secretário que não dá conta. Até que você se torna o secretário e leva os problemas para o prefeito e ouve dele: ‘vamos juntos, eu também quero consertar, mas tem essa lei, tem esses entraves jurídicos, orçamentários e financeiros...’. Aí, o desafio é entender que, na verdade, não é só uma pessoa e que precisamos de todo mundo. E precisa do envolvimento da sociedade na educação.
Em que aspectos ser funcionário de carreira na educação ajuda ou trabalha?
Ajuda eu entender a complexidade da máquina dentro do processo de atribuição, os recursos humanos, a grandiosidade, o administrativo, que é muito intenso. Eu entendo os processos da parte técnica. Sei como funciona desde o item da matrícula, que o agente administrativo faz, até como chega à conclusão de um processo licitatório. Chega um ponto em que alguém da equipe me pergunta como resolve tal coisa e eu respondo já conseguindo organizar. Isso me facilitou corrigir alguns processos, nos quais sabia onde mexer porque não funcionava muito bem. Ao mesmo tempo, o dificultador é a expectativa das pessoas, que pensam: ‘ah, ele é professor e vai mudar tudo’. E, na verdade, por mais que eu, o prefeito, toda a equipe queiramos o melhor para as crianças, os servidores, todo mundo, não podemos ultrapassar os limites legais que temos. A Educação é uma pasta que beira R$ 1 bilhão (970 milhões) de orçamento anual, mas consome tudo! Inclusive, no ano passado, foi preciso pedir à Prefeitura ajuda para cobrir os gastos. Explicar tudo isso é difícil. Então, o que eu tenho que fazer muito é dialogar. Felizmente, algumas pessoas entendem, outras não.
Qual considera seu principal desafio do cargo?
Fazer o alinhamento entre três grandes áreas: de Recursos Humanos, Administrativa e Pedagógica. Nosso quadro de RH é gigantesco e precisamos alocar da melhor maneira nossos professores, conjugando com as novas demandas da sociedade. Isso envolve fechar salas em um lugar e abrir em outro, deslocar um professor que trabalhou 10, 15 anos no mesmo local e enviá-lo para outro lado da cidade em função da migração interna. Na parte administrativa e de infraestrutura, temos escolas muito antigas. São mais de 150 unidades para manter e isso gera um custo alto. Ao mesmo tempo, ampliar salas, construir novas, erguer mais escolas. Tudo isso pensando no processo de ensino e aprendizagem, que é o nosso maior compromisso para com a sociedade. Tem que ter essa melhoria dos indicadores, mas sem deixar de lado as competências, habilidades e experiências socioemocionais que os alunos precisam desenvolver através de outras disciplinas, como Artes e Educação Física.
E quanto ao Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica)?
A secretaria tem plano de ajuste pedagógico para melhoria dos números, em queda desde a pandemia, na rede? O Plano de Governo para a Educação trouxe uma ideia para a alavancagem do índice. Temos feito muitas reuniões e montado comissões para discutir temas diversos, como, por exemplo, o calendário escolar do ano que vem e a própria atribuição de aulas. Montamos uma comissão com gestores, professores, representantes do governo e temos discutido abrir e tentar entrar em um consenso com todos os setores. (...) Temos uma avaliação interna da rede como um todo, com números por escola, por sala e por aluno. Fornecemos esses microdados para cada professor e cada gestor para entenderem o que precisa ser mais e melhor trabalhado com cada aluno. De forma mais macro, vimos, por escola, qual a necessidade de cada uma. Estamos no planejamento de atender diferente quem é diferente. Se a dificuldade maior de determinada escola é em Matemática, vamos atender com mais essa disciplina lá. Se é Português, vamos com mais Português. Mas para a rede como um todo, estamos pensando na alfabetização na idade certa. Tem um pacto nacional pela alfabetização que preconiza que a criança deve ser alfabetizada até o final do segundo ano. Temos trabalhado muito nisso.
Como está, hoje, a relação entre oferta e procura por vagas nas creches e quais os planos da pasta para equilibrar essa relação?
Em relação ao Brasil, Ribeirão Preto tem um atendimento um pouco à frente, com alcance de 88% da demanda manifesta. Isso é um avanço. Geralmente, no início do ano a fila de bebês é bem reduzida e conseguimos atender a praticamente toda a demanda. Porém, as mães que têm seus filhos em novembro e dezembro vão buscar vagas por volta de abril, maio, junho, quando voltam a trabalhar. E é nesse momento que começam a faltar vagas de forma progressiva. Hoje [dezembro], essa defasagem é de 1.700 vagas, das quais 1.500 são para o ciclo 1, que atende bebês de até 1 ano de idade; cerca de 200 vagas para o ciclo 2, que foram as que apareceram no decorrer do ano. O desafio é prever onde está a necessidade e ir colocando nossos recursos humanos lá, além de analisar a possibilidade de transporte – para distância acima de 2 km temos que oferecer, e para bebês é preciso todo um aparato para esse transporte.
Fale sobre os principais resultados da consulta pública realizada pelo município, em novembro último, a respeito de educação digital.
Pedimos opiniões para professores e pais sobre quais necessidades eles veem, ali na ponta, do que os nossos alunos precisam para trabalhar na Educação. Há estudos pelo mundo que revelam a regressão pedagógica das crianças diante da liberação do uso indiscriminado do celular, porque elas aprendem a usar IA e outras ferramentas de pesquisa e ali começam a fazer plágios e a usar o computador para fazer os trabalhos para elas. Então, a ideia é ensinar as crianças a trabalhar com a tecnologia e também ensinar os pais a lidar com a questão, porque, por mais que a escola limite o uso indiscriminado do celular, em casa é mais fácil entregar o aparelho na mão da criança enquanto os pais realizam suas tarefas domésticas. A consulta também mostra que precisaremos fazer um plano para dar formação aos professores, para que aprendam tanto a utilização quanto o ensino do uso das novas ferramentas digitais da melhor maneira, dentro do processo de ensino e aprendizagem.
Há planos ou projetos em andamento para valorização e requalificação dos professores?
A requalificação é periódica. Os professores têm um terço da jornada remunerada para fazer formação. A Secretaria oferece a formação continuada de maneira digital, em rede e individual, semanalmente. Em relação à valorização, temos feito estudos para verificar como podemos e o que podemos fazer, porque quando envolve aporte financeiro precisamos ver de onde vai sair o recurso, pois tem os outros servidores da Prefeitura também.
Há previsão de novos concursos para contratações na área?
Sim. Para 2026 vamos fazer concurso para PEB [Professor de Educação Básica] 2, que é aquele professor geral, que dá aula de todas as disciplinas do 1º ao 5º ano ou de etapas; e PEB 3, que são professores específicos de disciplinas (Português, Inglês, Matemática, Ciências, Educação Física). Para o AEE [Atendimento Educacional Especializado], destinado a crianças com deficiências, ainda não tem concurso porque não tem cargos criados, mas existe o processo seletivo e contratamos de maneira emergencial.
Por fim, como está a questão da inclusão na rede municipal?
Este é um desafio nacional! Há muitas liminares [impetradas para obrigar as escolas a designarem profissionais especializados] e começamos a estruturar um projeto interno para atendimento da educação especial. Com esse plano pronto, vamos conversar com a sociedade, com a comissão na Câmara, com Conselho Municipal e Defensoria Pública para ver se conseguimos ir acabando com essas liminares e regulamentar o atendimento. Nossa demanda de AEE era de 1.611 crianças laudadas no último levantamento, porém, não são todas as crianças laudadas que necessitam de apoio pedagógico, e com planejamento esse atendimento tende a melhorar