USP abre inscrições para o projeto “Pronta pra ser Cientista”
Programa leva meninas à prática científica e enfrenta desigualdade de gênero na área
Estão abertas até 21 de abril as inscrições para a edição de 2026 do projeto “Pronta pra ser Cientista”, iniciativa da Universidade de São Paulo que oferece a meninas do Ensino Fundamental II uma imersão no ambiente científico e busca ampliar a presença feminina na área. Realizado no campus da USP em Ribeirão Preto, o projeto ocorre desde 2020 e propõe encontros teórico-práticos com pesquisadoras, em áreas como zoologia, botânica, genética, ecologia e paleontologia. As atividades presenciais estão previstas para os dias 9, 16, 23 e 30 de maio, no Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), com 30 vagas distribuídas por critérios de ações afirmativas.
A iniciativa surge em um cenário de avanço numérico feminino na ciência brasileira, mas ainda com desigualdades persistentes nos níveis mais altos da carreira. Mulheres já são maioria na formação — cerca de 57% das pessoas tituladas na pós-graduação —, mas representam apenas 43% do corpo docente e cerca de 35% dos bolsistas de produtividade do CNPq, indicador associado ao topo da carreira científica. Ou seja, a presença feminina diminui conforme se avança na hierarquia, limitando o acesso aos espaços de maior reconhecimento e poder.
Essa realidade ajuda a explicar o ponto de partida do projeto, já que meninas ainda são afastadas da ciência por estereótipos que associam inteligência e talento científico ao masculino. À frente da iniciativa, Annie Schmaltz Hsiou, professora associada e livre-docente do Departamento de Biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP), afirma que o projeto foi criado para enfrentar essa lógica desde cedo. “A crença equivocada de que o sucesso na Ciência depende de um ‘talento inato’, frequentemente associado aos homens, impacta negativamente a presença de mulheres nesses campos e reforça barreiras estruturais”, diz.
Segundo ela, o projeto atua na base do problema, ao expor meninas à produção científica feita por mulheres e ao funcionamento real da ciência. Ao longo de quatro sábados, as participantes desenvolvem atividades práticas, entram em contato com o método científico e passam a ocupar espaços que, historicamente, foram ocupados majoritariamente por homens. Desde sua criação, a iniciativa já registrou 865 inscrições e impactou diretamente cerca de 180 estudantes. Após uma fase remota durante a pandemia, retomou o formato presencial em 2023, com foco na biodiversidade.
Para Annie, a desigualdade na ciência tem raízes estruturais que atravessam toda a trajetória feminina. “Os principais obstáculos para o ingresso e a permanência de mulheres na ciência ainda estão profundamente ligados a desigualdades estruturais de gênero”, afirma. Entre eles, estão a baixa representatividade em posições de destaque e a permanência de ambientes acadêmicos pouco acolhedores. Soma-se a isso a sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado, que impacta diretamente a continuidade na carreira científica.
Essas barreiras se intensificam entre alunas de escolas públicas. “Muitas dessas estudantes enfrentam limitações no acesso a recursos educacionais, como laboratórios, atividades extracurriculares e incentivo à iniciação científica”, diz Annie. A falta de referências femininas e de contato com a universidade reforça a ideia de que a ciência é um espaço distante.

A professora titular do Departamento de Biologia da FFCLRP-USP, Tiana Kohlsdorf –coordenadora do projeto ao lado de Annie— afirma que esse processo começa cedo. “Crianças crescem expostas às ideias de que existem espaços majoritariamente masculinos, especialmente aqueles ligados à descoberta e à invenção”, diz. Segundo ela, essa construção simbólica faz com que muitas meninas internalizem a ideia de que não pertencem ao ambiente científico. Ao colocar alunas dentro da universidade, o projeto tenta romper esse padrão.
Durante as atividades, as participantes têm contato direto com pesquisadoras, estudantes e pós-doutorandas da USP. “O ‘Pronta pra ser Cientista’ apresenta um novo referencial, no qual o conhecimento científico produzido por mulheres é difundido”, afirma Tiana. A proposta inclui também a formação de facilitadoras pedagógicas, ampliando o impacto para além das participantes diretas.
A professora associada da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCFRP), Simone de Pádua Teixeira, que também integra o projeto, reforça que a desigualdade se mantém ao longo da carreira. “A sub-representação feminina em diversas áreas e as desigualdades impactam menos o ingresso e mais a progressão e o reconhecimento”, afirma. Para ela, o problema não é pontual, mas estrutural e persistente.
Entre alunas de escolas públicas, esse cenário se agrava. “Muitas dessas meninas não se reconhecem como potenciais cientistas devido à falta de oportunidades e, principalmente, à falta de referências femininas”, diz Simone. O projeto, nesse sentido, atua como ponto de ruptura, ao oferecer acesso concreto ao ambiente acadêmico.
A experiência prática aparece como elemento central. As atividades incluem laboratórios, discussões em anfiteatros e visitas de campo, como a realizada na Floresta da USP. “Esse espaço foi pensado para romper estereótipos, já que a floresta é historicamente associada a perfis masculinizados”, afirma Simone.
Como já dá para perceber, a proposta do projeto é romper estereótipos e oferecer às meninas uma formação que amplie suas possibilidades de escolha e autonomia. O nome faz referência à expressão “pronta para casar”, historicamente associada a uma mulher “prendada” e voltada ao espaço doméstico. O “Pronta pra ser Cientista” mostra que meninas estão prontas para ocupar qualquer espaço — inclusive o da ciência.
VIDAS IMPACTADAS
Para quem passou pelo projeto, o impacto é direto. A estudante Ana Laura Possebon Costa conheceu a iniciativa pelas redes sociais ainda na adolescência. “Depois de participar, coloquei na minha cabeça, com 14 anos, que queria ser cientista”, afirma. Hoje, ela cursa Ciências Biológicas na USP e atua como bolsista do próprio projeto.
Ela relata que, antes da experiência, a carreira científica parecia distante. “Eu só consegui enxergar que era possível quando tive a oportunidade de participar”, diz. A fala sintetiza uma das principais barreiras apontadas pelas coordenadoras: a ausência de acesso e de pertencimento.
As ações afirmativas adotadas desde 2023 buscam enfrentar parte dessas desigualdades. As 30 vagas são distribuídas por sorteio, com recortes específicos para estudantes de escolas públicas, alunas pretas, pardas e indígenas e ampla concorrência. Para Simone, a medida tem impacto direto na qualidade da ciência. “A diversidade torna a ciência mais inovadora, representativa e comprometida com os desafios da sociedade”, afirma.
COMO PARTICIPAR
Meninas do 6º ao 9º ano interessadas em participar do projeto “Pronta pra ser Cientista” devem se inscrever por meio de formulário. A participação é aberta a estudantes cis e trans de escolas públicas e privadas. Ao todo, são 30 vagas, distribuídas entre alunas de escolas públicas ou bolsistas, candidatas pretas, pardas e indígenas (PPI) e ampla concorrência. O projeto será realizado presencialmente no Departamento de Biologia da FFCLRP-USP, em Ribeirão Preto, aos sábados, nos dias 9, 16, 23 e 30 de maio. Mais informações podem ser obtidas no Instagram @prontacientista.
Foto: divulgação