Fé com propósito

Fé com propósito

Foi o que amparou a jornada de Marco Aurélio Martins desde a infância, passando pelo sucesso como empreendedor até o ingresso na política com o objetivo expresso de “servir"

Não é necessário muito tempo de conversa com o empresário Marco Aurélio Martins para saber que, se convidado a partilhar sua visão de um copo com água pela metade, ele o descreverá como “meio cheio” – metáfora de um olhar otimista sobre a vida (pessimistas veriam um copo “meio vazio”). Não por acaso é a característica-base de personalidades confiantes e persistentes, que, por não desistirem facilmente, sempre alcançam suas metas e objetivos, mesmo após tentativas frustradas.

 

No caso de Marco Aurélio, que em pouco mais de três décadas emergiu de desempregado à beira da insolvência financeira a empresário bem-sucedido, a metáfora se encaixa perfeitamente. Empreendedor por natureza, ele começou a trabalhar apenas seis anos após nascer, em 4 de julho de 1970, em família de poucas posses, formada por pai comerciante, mãe professora e mais dois irmãos – Cláudio e Lígia, respectivamente cinco e um ano mais velhos.

 

Iniciou sua jornada empreendedora vendendo frutas colhidas no pomar da chácara em que moravam, em Serrana, com 6 anos de idade. Aos 7 foi engraxate e, aos 8, com a família já estabelecida em Ribeirão, aprendeu três músicas ao violão e foi, pouco tempo depois, oferecer serenatas na praça, em troca de alguns trocados. Aos 14, já dava aulas do instrumento para crianças. A partir dos 16, foi mecânico de motocicletas e guitarrista/vocalista na banda de rock Tanger – primeira do gênero a gravar um LP autoral em Ribeirão Preto. “Desde criança sempre quis empreender e fazer meu próprio dinheiro”, comenta hoje.

 

INVESTIU NA PRÓPRIA EDUCAÇÃO

 

Com 17 anos, Marco Aurélio ingressou direto na faculdade dos sonhos – de Engenharia Industrial), em São Bernardo do Campo, onde passou a dividir uma república com outros seis universitários. Não foi sorte, mas resultado de um esforço calculado de anos batalhando, sob orientação da mãe, por bolsas de estudo ou descontos em mensalidades de escolas particulares com os melhores sistemas de ensino. “Minha mãe sempre valorizou muito a educação, e a escola pública já enfrentava os seus problemas naquela época, embora fosse muito melhor do que hoje”, afirma Marco.

 

Foi ainda no Ensino Fundamental de Marco Aurélio que dona Ely Martins decidiu tentar bolsa de estudos para ele no colégio Nossa Senhora Auxiliadora. “Conseguimos com ajuda da irmã Valentina, que era a diretora na época e, por sinal, ótima educadora. Foi uma passagem muito boa da minha vida essa educação em um colégio católico, pois me ajudou a fortalecer as questões de disciplina e ordem”, conta.

 

Para cursar o Ensino Médio, a primeira escolha foi o COC – então Colégio e Curso Oswaldo Cruz –, no qual ficou pouco tempo, pois ele estava sempre buscando novas oportunidades para não depender de fazer cursinho e ingressar direto em uma faculdade. Concluiu o primeiro e o segundo anos no Anglo, mas os valores das mensalidades ainda eram altos para o orçamento da casa, mesmo com ele ajudando nas despesas com o dinheiro levantado com aulas de violão e conserto de motos.

 

O próprio Marco Aurélio foi, então, conferir uma campanha do colégio Objetivo, que prometia 10% de desconto a quem trouxesse um aluno novo para a escola. Convenceu dez de seus amigos a se transferirem para o colégio com ele e conquistou bolsa de estudos de 100%. Hoje, ele considera o terceiro ano no Objetivo um dos melhores de estudo que teve na vida. “Eu me dediquei de corpo e alma, porque precisava dar um tiro apenas para poder passar na faculdade. Estudei muito e fui um dos melhores alunos, com certeza. Passei com louvor no vestibular da faculdade que eu queria”, recorda. O custo, porém, continuou sendo uma dificuldade. “A faculdade era bem renomada, porém particular. Aí conversei com a minha mãe, que falou: ‘vamos tentar um Crédito Educativo, mas se não conseguirmos a gente dá um jeito’. E minha mãe sempre dava jeito. Conseguimos o Crédito da Caixa Econômica Federal, mas no terceiro semestre as finanças começaram a apertar de novo e precisei voltar”, conta.

 

Ótimas notícias o esperavam em Ribeirão Preto. Sua mãe havia conseguido uma vaga para lecionar nas faculdades de Farmácia e Odontologia da Unaerp (Universidade de Ribeirão Preto), conquistando direito a uma bolsa de 100% para ele no curso de Química Industrial. Foi lá que conheceu Andréa, estudante de Jornalismo com quem iniciou um namoro sério.

 

Antes de se formarem e Marco Aurélio arranjar um emprego como técnico de laboratório no Instituto Lamasson, Andréa engravidou de Pedro. Mesmo ganhando pouco, ele não teve dúvidas. Foi até o pai dela pedir sua mão em casamento. Casaram-se em 1991 e foram morar em uma casa de três cômodos na rua Mem de Sá, próxima ao Cemitério da Saudade, para a qual Marco levou seu Fusca 1300 ano 1978, que usava para compras de mercado e transporte da família; uma Mobilete, com a qual ia trabalhar; e uma motocicleta Yamaha RD 135, que gostava de dirigir aos finais de semana.

 


Com a mãe, Ely Martins, que o apoiou em todos os projetos até hoje: “única pessoa que acreditou que eu conseguiria”

 

NO FUNDO DO POÇO, UM IMPULSO

 

Em 1992, em uma noite de lazer do casal no saudoso Cine Bristol, o Fusca de Marco Aurélio foi furtado. “Meu maior patrimônio perdi naquele dia. Muito mais da metade do que eu tinha estava ali, financeiramente falando. Lembro que aconteceram dificuldades sucessivas naquele ano. Dali a pouco, perdi o emprego, e a economia não estava indo nada bem. Tive que vender a moto para pagar contas”, narra, emocionado.

 

Em vez de se desesperar, ele decidiu usar aquela chegada ao “fundo do poço” para tomar impulso e começou a pesquisar a viabilidade de realizar um sonho antigo, de ter seu próprio negócio. Neto de imigrantes muito trabalhadores, crescera vendo o pai lutar por seu comércio, que começou como uma pequena papelaria, na garagem de casa, e foi crescendo e diversificando os itens à venda. A mãe trabalhou a vida toda para ajudar nas despesas. “Era tudo muito difícil naquela época [de sua infância], mas em minha família sempre fomos muito trabalhadores e dedicados. Cresci com esses exemplos”, comenta.

 

A ideia de empreender aos 22 anos fora desencorajada pela maioria das pessoas de confiança que Marco Aurélio consultou à época, principalmente devido à recessão econômica pós-Plano Collor, que confiscou poupanças de todos os brasileiros, levando empresas de diferentes portes à falência. “Nas melhores das intenções, claro, amigos e parentes diziam que não era o momento. ‘Procure um bom emprego!’, aconselhavam. A única pessoa que acreditou que eu conseguiria foi minha mãe”, diz. Não por acaso, a nova empresa receberia o nome dela.

 

Marco chegou a um contador amigo, sem dinheiro, dizendo que precisava abrir seu pequeno negócio. “Ele falou que não ia me custar nada e faria esta abertura sem custo”, lembra. Sua parada seguinte foi na loja Marcão Móveis para Escritório, que vendia estantes de aço a preços baixos. Comprou uma, que ele próprio montou nos fundos de casa. Em seguida, procurou um fornecedor de ervas e derivados conhecido, em São Paulo. “Falei que estava iniciando meu negócio, ainda não tinha dinheiro e queria começar a trabalhar. “Veja o que precisa; você tem crédito, conheço a sua história”, disse o amigo.

 

Ele comprou, então, 12 espécies de ervas medicinais e começou a trabalhar sozinho, vendendo para as farmácias e lojas de produtos naturais. Sabia, porém, que se tentasse competir com empresas maiores na mesma atividade, não conseguiria sobreviver sem pensar em uma forma diferente que o destacasse. “Consegui, mesmo bem pequeno, criar um conceito de ‘loja de conveniência dos varejistas’. Quer dizer que tudo o que o varejista não conseguia encontrar sozinho, eu encontrava para ele. O negócio foi dando certo. Fui prosperando e ganhando credibilidade com os clientes, cumprindo sempre o que prometia”, diz.

 

SONHO REALIZADO

 

Desde o início, o sonho de Marco Aurélio era montar uma distribuidora de embalagens, itens para farmácias magistrais [sob medida, conforme receita personalizada] e produtos naturais. Conseguiria realizá-lo. “Comecei vendendo em Ribeirão Preto como microempresa e a abrir outros clientes nas cidades do interior, fazendo visitas. Aos poucos, toda a nossa pequena casa no Jardim Macedo foi sendo ocupada pela empresa e chegou um momento em que ela ficou pequena”. Foi o que o levou, em 1997, a comprar um lote de 250 m² e construir nele a primeira sede da Ely Martins Distribuidora, no Jardim Zara. Comprou outros lotes vizinhos nos anos seguintes, ainda em zona mista.

 

Os revezes financeiros, que volta e meia golpeavam as empresas brasileiras, conforme piorava o cenário econômico, Marco Aurélio foi superando com criatividade, assim como obstáculos intrínsecos à atividade. “Eu via, por exemplo, dificuldades de logística, de receber os produtos e de manter estoque nos pontos de varejo. Então inovamos com o conceito de delivery, que na época não era tão popular. Registramos uma marca deste novo conceito logístico e que foi tema do TCC [Trabalho de Conclusão de Curso] da minha pós-graduação em Gestão Empresarial, pela Fundação Getúlio Vargas [FGV]. O cliente fazia seus pedidos quase diariamente e, no dia seguinte, recebia seu pedido”, descreve.

 

Na primeira década dos anos 2000, começou a buscar mais espaço para ampliar seu negócio em Ribeirão Preto. “Eu e diversos amigos empresários não encontramos um ambiente de negócios preparado para crescer nossas empresas. Também busquei, como outros empreendedores, possibilidades em outras localidades e em 2013 vi uma placa na rodovia Anhanguera, altura da cidade de Cravinhos, dizendo: ‘traga a sua empresa para cá; fale direto com o prefeito’”.

 

Ele ligou, foi atendido pessoalmente, entendeu o bom ambiente de negócios da cidade e passou a ajudar – com sua experiência como superintendente da Distrital Norte da Acirp (Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto) por dois mandatos – a forjar a construção de um distrito industrial, levando conectividade entre os empresários. “Mesmo com Ribeirão não oferecendo condições para permanecer, muitos dos nossos recursos humanos, que são a alma do negócio, vieram conosco para Cravinhos. E nós, graças a Deus, prosperamos também lá. Hoje são 20 mil m² de área com operação logística, atendendo todo o Brasil, junto com outras empresas de outros grupos dentro do condomínio”, orgulha-se.

 

Marco Aurélio conta que a indignação de ver várias empresas quebrando, pessoas demitidas e a falta de ações para favorecer quem trabalha e empreende – principalmente os pequenos – fizeram-no começar a considerar o ingresso na política, para lutar por tudo isso. Já era “sondado” por algumas legendas, mas demoraria ainda algum tempo para amadurecer a ideia.

 

INDIGNAÇÃO VIROU MOTIVAÇÃO

 

Em 2009, quando a Distribuidora Ely Martins Distribuidora passou a implementar a certificação ISO 2001 2000, Marco Aurélio conheceu Flávia Sousa. “Fiquei sabendo que era farmacêutica e a começamos a trabalhar juntos nos aspectos técnicos e regulatórios. Várias outras coincidências, os chamados desígnios de Deus, acabaram trazendo a nossa união. Aí nos casamos e tudo começou. Foi e está sendo uma vida maravilhosa e abençoada juntos! Ela é meu pilar de sustentação. Temos três filhos maravilhosos – Duda, de 15 anos; João, de 14, e Lorena, 10 – e mais uma filhotinha do coração [a sobrinha de Flavia, Beatriz, com 18], que perdeu os pais e compartilha os bons momentos conosco. Além de mantermos o amor e o carinho com meus filhos Pedro, hoje com 34 anos, e Bianca, 30”, descreve.

 

Flávia, inicialmente, foi contra o ingresso de Marco Aurélio na política, mas acabou convencida pelos mesmos motivos que o fizeram decidir tentar. Ele conta que foi um movimento ascendente, nascido daquela indignação em perceber que “as coisas não mudam”, a despeito das promessas feitas por políticos de carreira. “Fiz uma leitura de tudo e pensei: ‘não é possível que não exista uma forma de fazer diferente’”. E decidiu, entre outros convites recebidos de diferentes partidos, aceitar o do Partido Novo, único que fez um processo seletivo. “Ingressei no partido no dia 30 de setembro de 2023, sem garantia nenhuma, e dois meses depois já era o pré-candidato selecionado a prefeito de Ribeirão Preto”, lembra-se.

 


Marco Aurélio e Flávia entre a prole: no sentido horário, a sobrinha e “filha do coração” Beatriz, o filho João e as filhas Duda e Lorena

 

Marco Aurélio acredita que conseguiu ser indicado para cargo tão importante, com tão pouco tempo de filiação, por ter se destacado pela comunicação e o espírito de liderança. “Sempre participei de programas sociais e me relacionei muito bem com as pessoas. Busco informação antes de expressar minha opinião, então chegava muito calçado para embasar o que dizia. Isso me deu uma boa reputação”, analisa.

 

Entrou na disputa a prefeito como um total desacreditado, com menos de 1% de intenções de voto nas primeiras pesquisas. “Era um partido novo, sem coligação, sem rádio, sem televisão, sem dinheiro, sem rabo preso com ninguém e contra todos os outros partidos do outro lado, com os caciques da velha política”, lembra. Surpreendeu, porém, ao passar para o segundo turno. “O que aconteceu foi que, com credibilidade, conectando com as pessoas olho no olho, apresentando propostas sérias, a gente conseguiu um número grande de pessoas multiplicadoras de forma orgânica. O boca-a-boca fez a diferença numa cidade com aproximadamente 700 mil habitantes”, avalia.

 

Marco Aurélio Martins saiu da disputa com um saldo de 49,87% dos votos – 130.734 pessoas que tornaram seu nome o quinto mais votado para o cargo da história de Ribeirão Preto e com a menor diferença eleitoral – de 0,13% – para o adversário eleito. Ele pretende aproveitar tal “capital político” em breve, já que decidiu encarar a pré-candidatura a deputado federal nas próximas eleições. “Olhando hoje, com mais experiência, vejo que temos uma escassez de lideranças políticas de Ribeirão e interior ocupando cargos como nossos representantes – atualmente apenas um deputado federal e um estadual ativo. Tenho certeza de que o caminho para prosperarmos é também aumentarmos este número com gente séria, honesta e dedicada”, acredita.

 

QUESTÃO DE FÉ

 

Nascido católico, em família de grande religiosidade, e batizado adulto na Igreja Evangélica Sara Nossa Terra – na qual preside o Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e Política (FENASP), que trata do papel do cristão na transformação social por meio de sua participação na política –, Marco Aurélio se diz um homem de muita fé. Concorda com o conceito segundo o qual, para amar o próximo como a si mesmo, é preciso, antes, amar Deus e a si próprio.

 

“Amor próprio é nossa conexão com Deus e acredito que ela é fundamental. Inclusive, esta conexão está diretamente relacionada ao nosso propósito e tem tudo a ver com a política. Nosso propósito na Terra é o de servir, que foi o que Jesus nos ensinou, e só é percebido por quem tem consciência. O trabalho de uma liderança, na minha opinião, é o de formar essa consciência para forjar uma cultura de prosperidade para todos. Acredito muito nisso”, discorre.

 

Ele acredita que, no final das contas, mantém desde criança o mesmo propósito, aplicado no empreendedorismo e em todas as demais instâncias de sua vida. “Nasci para servir as pessoas, e acredito que não existe outro lugar melhor onde eu possa servir mais e a tantas pessoas do que na política”, diz. Por isso a intenção de implementar um plano de retomada do desenvolvimento de Ribeirão Preto e do interior do estado, para ampliar todos os potenciais econômicos e sociais. “Se Deus me escolheu para fazer isso, eu o farei com amor e dedicação”, garante.


Fotos: acervo

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