Mombuca resiste
“Percebemos que era hora de abrir as portas da colônia para que mais gente conhecesse nossa história”, explica Wilson Takagi

Mombuca resiste

Em homenagem ao Dia do Agricultor, voltamos à colônia japonesa, onde descendentes provam que preservar a cultura também é encontrar novas formas de permanecer

O trecho de terra batida parece funcionar como um portal entre dois tempos. Bastam cerca de 300 metros desde o asfalto da rodovia Mário Maziero para chegar ao sítio de Masaharu Takagi, 75 anos, morador de Mombuca – colônia japonesa em Guatapará, a 50 km de Ribeirão Preto. Antes mesmo de a casa aparecer, é uma árvore monumental que chama a atenção. Ela foi plantada pelo agricultor em 1969. “Precisava de um tronco para amarrar meu cavalo, enquanto eu almoçava”, lembra Masaharu.


Meio século depois, a árvore, uma espécie de sibipiruna, tornou-se uma metáfora perfeita da comunidade oriental. Criou raízes profundas, resistiu às transformações e continua de pé. Assim como Mombuca, onde vivem atualmente cerca de 120 famílias.


Foi exatamente essa comunidade que a Revide escolheu retratar em outubro de 1986. Na época, a reportagem “Um pedaço do Japão entre nós” apresentou ao leitor uma colônia formada por descendentes de imigrantes que preservavam costumes orientais, viviam da agricultura e começavam a construir uma história própria no interior paulista. Entre os personagens estava justamente Masaharu, então com 35 anos, fotografado ao lado de um arrozal depois de protagonizar um episódio que ficou conhecido como “Crime no arrozal”.


Masaharu é o único entre os retratados na matéria de quase 40 anos atrás que ainda mora em Mombuca. Alguns foram embora para outras partes do país ou para o Japão. Outros já morreram.


Pela cerca que delimita a propriedade de Masaharu, além da imensa sibipiruna, um cachorro percebe a nossa chegada. Na varanda, sentado em uma cadeira de madeira, Masaharu segura uma xícara de café enquanto observa. A esposa, Toshie, aparece logo em seguida. Sem dizer uma palavra, serve o café e volta para dentro de casa. Estão casados há 47 anos. A cena transmite a mesma tranquilidade que domina a pequena comunidade. 


A primeira pergunta quebra o silêncio. O senhor se lembra da reportagem que a Revide fez aqui há quase 40 anos? Masaharu franze a testa. “Sobre o quê?”, pergunta. Quando menciono o tema, a resposta vem com um tom mais sério. “Não lembro. E não quero lembrar”, decreta.


Só mais tarde, após muito papo, o idoso aceita falar sobre o caso que ganhou repercussão na década de 1980 e deixou marcas profundas na família Takagi.

Há mais de 60 anos vivendo em Mombuca, Masaharu segue cultivando raiz de lótus no sítio onde construiu sua história

 

Como a Revide contou há quatro décadas, dezenas de patos apareceram mortos depois de entrarem em uma plantação de arroz recém-tratada com defensivos agrícolas. O episódio ganhou repercussão nacional e transformou Masaharu, então com 35 anos, no principal personagem de uma investigação ambiental. “Minha esposa estava grávida de três meses. Começaram as ameaças por telefone, gente aparecendo aqui sem avisar, televisão entrando na propriedade. Ela passou muito nervoso e acabou perdendo o bebê”, recorda.


Ele foi processado. Durante anos dividiu a rotina entre o sítio, audiências, idas à delegacia e ao Fórum de Ribeirão Preto. Acabou absolvido.


Foi naquele mesmo sítio que a família Takagi começou uma nova vida em 1962. Masaharu tinha apenas 11 anos quando deixou a província de Ibaraki, no Japão, com os pais. Eles estavam entre as primeiras famílias escolhidas para ocupar a recém-criada colônia administrada pela estatal japonesa Jamic Imigração e Colonização Ltda., que pretendia formar um núcleo agrícola modelo no interior paulista. Na época, a área fazia parte da área administrativa de Ribeirão Preto.


Em 1986, Mombuca dava os primeiros passos após conquistar a emancipação da Jamic, oficializada em fevereiro de 1985. Quase todas as famílias sobreviviam da agricultura e acreditavam que a comunidade seguiria crescendo. E ela cresceu.


Masaharu chegou a cultivar 75 hectares de terra, uma área equivalente a 250 vezes o tamanho do sítio onde vive atualmente. Empregou funcionários, diversificou culturas e até comprou propriedades em Minas Gerais. O sonho, porém, acabou interrompido por invasões de terras, furtos praticados por empregados e sucessivas crises econômicas que atingiram o agronegócio brasileiro nas décadas seguintes.


Quando o sogro morreu, deixou para a família uma pequena plantação de raiz de lótus, ingrediente tradicional da culinária japonesa. Masaharu decidiu manter a produção. Aos poucos, abandonou o arroz, reduziu o ritmo de trabalho e especializou-se em uma cultura rara no Brasil.


A raiz de lótus, conhecida no Japão como renkon, cresce submersa em áreas alagadas. Muito utilizada em sopas, conservas, refogados e pratos típicos da culinária oriental, exige água limpa, manejo cuidadoso e uma colheita quase artesanal. O mercado é pequeno, mas fiel. “Hoje eu não preciso correr atrás de comprador. Eles é que vêm atrás de mim”, conta.


Depois de uma vida dedicada ao campo, Masaharu diz que não pretende ampliar a produção nem deixar Mombuca. “Quero viver do jeito que sempre vivi. Cuidando da terra. Daqui eu só saio quando morrer”, garante.


Muitos seguiram por outros caminhos enquanto Masaharu permanecia. Nas décadas de 1990 e 2000, a comunidade viu filhos e netos dos primeiros imigrantes embarcarem rumo ao Japão. Em 1990, uma mudança na legislação japonesa facilitou a concessão de vistos de trabalho para descendentes de japoneses, dando origem ao movimento conhecido como dekassegui, termo que significa, literalmente, “sair para trabalhar temporariamente”. O país oriental precisava de mão de obra para abastecer sua indústria e encontrou nos descendentes brasileiros uma alternativa.


Muitas famílias de Mombuca partiram. Algumas voltaram anos depois. Outras construíram uma nova vida do outro lado do mundo. 


As ruas da comunidade ficaram mais silenciosas. A agricultura mudou. A sucessão familiar tornou-se um dos principais desafios da colônia.

Nascido e criado em Mombuca, Julio Koojiro Ebisawa representa a geração que hoje assume a responsabilidade de preservar as tradições da comunidade - na foto ao lado da família

 

FLORES QUE RESISTEM


Mombuca já não vive apenas da agricultura. Nas últimas décadas, a comunidade encontrou novos caminhos para preservar sua identidade e manter viva uma tradição iniciada pelos primeiros imigrantes japoneses.


Aos 62 anos, o produtor de orquídeas Wilson Takagi vive sozinho em um sítio de 1.500 m². A filha, de 28 anos, faz medicina veterinária e mora atualmente no Japão. Desde 2022, Wilson preside a Associação Agro-Cultural Esportiva de Mombuca. “Assumi quando estávamos tentando superar a pandemia. Percebemos que havia uma demanda pela cultura e gastronomia orientais e criamos a Feira da Colônia, realizada sempre no terceiro domingo de cada mês”, lembra. 


A feira reúne moradores e visitantes de toda a região para um dia de gastronomia japonesa preparada pelas próprias famílias da comunidade, apresentações culturais e venda de produtos agrícolas. “Percebemos que não bastava preservar a tradição apenas para nós. Era preciso abrir as portas da comunidade para que mais gente conhecesse a nossa história”, afirma.

 

Além da gastronomia japonesa, a feira mensal tornou-se uma importante fonte de renda para produtores e famílias

 

Segundo ele, o evento acabou se tornando uma importante fonte de renda para os produtores locais, justamente em um dos momentos mais delicados enfrentados por Mombuca. “A pandemia abalou muito a comunidade. Depois veio a geada de 2023. Perdemos sete granjas e muitos produtores deixaram a atividade. A feira ajudou a movimentar novamente a economia”, conta.


Hoje, a agricultura permanece como principal atividade econômica, mas em escala menor e mais diversificada. A comunidade reúne seis granjas de postura, um produtor de arroz, dois produtores de raiz de lótus, dois de orquídeas, além de cultivos de pitaya, lichia e alho negro.


A história de Wilson também acompanha essas transformações. Durante anos ele trabalhou com avicultura. Depois de se mudar para a região de Mogi das Cruzes, aprendeu o cultivo de orquídeas e descobriu uma atividade que parecia unir rentabilidade e qualidade de vida. Quando retornou a Mombuca, trouxe a experiência consigo. Chegou a cultivar cerca de 60 mil plantas. Hoje restam aproximadamente 6 mil.

 


A geada histórica registrada em 2023 destruiu boa parte da produção. Sensíveis às baixas temperaturas, as orquídeas sofreram danos severos e muitas matrizes não conseguiram se recuperar, reduzindo drasticamente a capacidade de produção do viveiro. “Foi um prejuízo enorme. Não compensou tentar recuperar tudo”, afirma.


Mesmo assim, a produção de Wilson continua abastecendo floriculturas de Ribeirão Preto, mas ele já pensa em encerrar esse ciclo. “Estou colocando o sítio à venda. Acho que chegou a hora de diminuir o ritmo”, reflete.


A mudança de perfil da agricultura também alterou a paisagem da comunidade. Grande parte dos agricultores que deixaram a atividade optou por arrendar suas propriedades às usinas sucroenergéticas da região.


“Hoje é muito mais fácil arrendar a terra. Todo mês entra o dinheiro e não existe o risco da produção nem a preocupação de encontrar mão de obra. Aos poucos, muita área acabou virando canavial”, observa.

 

UNDOUKAI

Crianças, adultos e idosos compartilham o espírito coletivo do tradicional Undoukai

 

Apesar das mudanças, algumas tradições permanecem praticamente intactas em Mombuca. É o caso do Undoukai, tradicional festival esportivo criado no Japão no século 19 e realizado anualmente em Mombuca. Muito mais do que uma competição, o encontro reúne crianças, adultos e idosos em provas que valorizam a convivência e o espírito comunitário. As equipes são divididas por cores e disputam cerca de 30 atividades, entre corridas, cabo de guerra, brincadeiras com ovos, provas de habilidade e desafios coletivos. Entre uma competição e outra, todos almoçam juntos e participam de apresentações culturais, como o bon odori, dança folclórica japonesa realizada para homenagear e agradecer aos antepassados. 


Segundo o engenheiro agrônomo Julio Takaki, um dos organizadores do evento, a edição deste ano, realizada em 18 de julho, reuniu aproximadamente 250 participantes. “O Undoukai nunca foi sobre ganhar. É uma maneira de reunir as famílias, fortalecer amizades e manter viva uma tradição que atravessa gerações”, resume.


Para Julio Koojiro Ebisawa, a feira também se tornou uma ferramenta importante para manter as famílias na comunidade. “Muitas pequenas propriedades já não conseguem garantir o sustento como antes. A feira surgiu como uma renda complementar e, a cada edição, cresce o número de famílias que participam e de visitantes que chegam à colônia.” 


QUARENTA ANOS DEPOIS


Voltar às páginas da Revide de outubro de 1986 é encontrar uma Mombuca mais numerosa, mais jovem e ainda profundamente ligada ao trabalho no campo. Na reportagem “Um pedaço do Japão entre nós”, agricultores, donas de casa e lideranças comunitárias apareciam como personagens de uma colônia que havia acabado de conquistar autonomia administrativa e tentava definir o próprio futuro.
Naquela época, o cotidiano era marcado pelas plantações de arroz, pelas granjas, pelas reuniões da associação e pela preservação de hábitos trazidos do Japão. A reportagem mostrava uma comunidade organizada em torno da agricultura, mas também empenhada em manter a língua, a culinária, as festas e a convivência entre as famílias.


Hoje, onde antes predominavam arrozais, hortas e pequenas propriedades, parte da paisagem foi ocupada pelos canaviais que cercam a comunidade. As famílias diminuíram, os filhos seguiram outros caminhos e parte das antigas propriedades passou a ser arrendada.


O que não mudou foi a relação entre Mombuca e a memória de seus primeiros moradores. As histórias contadas em 1986 ainda aparecem nas conversas, nas fotografias guardadas em casa, nas receitas preparadas durante os festivais e nas atividades promovidas pela associação.


Quem nasceu em Mombuca também percebe essa continuidade. Aos 43 anos, o servidor público Julio Koojiro Ebisawa viu a comunidade mudar sem perder aquilo que considera sua essência. Filho de descendentes de japoneses, ele acompanhou a transição da associação, antes administrada pelos imigrantes e hoje conduzida por brasileiros descendentes da primeira geração.


“Estamos passando por uma transição. Até quatro anos atrás, a associação era administrada por japoneses. Hoje somos nós, nikkeis nascidos no Brasil, que estamos à frente, mas continuamos preservando as tradições, a cultura e os ideais que deram origem à colônia”, afirma.


Segundo Julio, todas as atividades da associação são realizadas de forma voluntária. Os departamentos de agricultura, cultura, esportes, juventude, educação e das senhoras trabalham para manter vivas as tradições e aproximar os mais jovens da história da comunidade. “A ideia é transmitir esse conhecimento para as novas gerações. É assim que fazemos com que todos continuem conectados às nossas raízes”, explica. 


A preocupação com a manutenção do legado já aparecia na matéria antiga, quando moradores falavam sobre a necessidade de manter os jovens na comunidade, garantir renda aos agricultores e preservar as tradições japonesas.


A transmissão cultural parece estar funcionando. No campo da associação cultural, muitas crianças ajudavam na organização dos jogos e vestiam as cores de suas equipes. “Vejo que nossos filhos não quiseram muito seguir por aqui, mas os netos parecem animados com a ideia”, aposta Masaharu. 

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