“O câncer de mama não veio para me matar, veio para me ensinar a viver”
Após diagnóstico de câncer de mama, Josiane de Andrade Quaglio ressignificou sua relação com a vida

“O câncer de mama não veio para me matar, veio para me ensinar a viver”

Histórias de pacientes e especialistas mostram como os avanços médicos, o acolhimento e o acesso ao tratamento influenciam a recuperação e a qualidade de vida.

Em abril de 2022, aos 44 anos, Josiane de Andrade Quaglio recebeu um resultado que mudaria sua vida. Durante os exames anuais de rotina, a mamografia apontou BI-RADS 4, classificação que indica suspeita de alterações. Curiosa, pesquisou o termo na internet. “O Google me matou. Falava sobre câncer, morte, expectativa de vida. Aquilo atormentou muito a minha mente”, lembra. A consulta seguinte confirmou o diagnóstico de carcinoma ductal in situ, um câncer em estágio inicial. “Naquele momento, meu mundo desabou. A única coisa que passava pela minha cabeça era que eu ia morrer.”

 

Josiane começou a organizar documentos e pendências para deixar tudo preparado para as duas filhas. Depois, veio a mastectomia bilateral, com a retirada das duas mamas e a colocação de expansores para a reconstrução. A dor da cirurgia ganhou outra dimensão quando Josiane chegou em casa e, no banho do dia seguinte, viu no espelho que já não tinha mais as mamas. Nesse período, o apoio da mãe e das filhas foi fundamental para atravessar os momentos mais difíceis. A família também esteve ao seu lado durante o tratamento, que não exigiu quimioterapia, pois os linfonodos não estavam comprometidos. 

 

Josiane iniciou o uso de tamoxifeno, medicamento que continua tomando. Hoje, aos 48 anos, está em remissão há quatro anos e vê a experiência como um marco na maneira de encarar a vida. “O câncer de mama não veio para me matar, veio para me ensinar a viver”, afirma. Desde o diagnóstico, ela passou a valorizar ainda mais os momentos em família, a fazer o que gosta e a olhar para si com mais carinho. A fé em Deus também foi uma presença constante durante o tratamento.

 

Para mulheres que acabam de receber o diagnóstico, ela deixa um conselho: “Se tiver vontade de chorar, chore. Mas depois se levante e veja que não é o fim. Ao contrário, agora é o início. Olhe para você com mais carinho, procure informações em fontes confiáveis e não perca a esperança. Você tem o direito de viver, e o câncer não é uma sentença de morte, é uma sentença de vida. Passe um batom, coloque uma roupa bonita, vá passear, faça o que gosta. Não deixe de viver. Viva cada dia de uma vez.”

 

A história de Josiane não é uma exceção. O câncer de mama é o tipo mais incidente entre as mulheres brasileiras, excluídos os tumores de pele não melanoma, e a principal causa de morte por câncer na população feminina. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a estimativa é de 73.610 novos casos em 2025. A idade é um dos principais fatores de risco, com aumento da incidência a partir dos 40 anos. O diagnóstico precoce amplia as possibilidades de tratamento e favorece o prognóstico. Em 2024, o Sistema Único de Saúde (SUS) realizou 4,4 milhões de mamografias, sendo 4 milhões para rastreamento em mulheres sem sintomas. O acesso ao diagnóstico e ao tratamento em tempo adequado, porém, ainda enfrenta desigualdades regionais.

 

REDE DE APOIO

 

Além do apoio da família, Josiane encontrou no REMA (Núcleo de Ensino, Pesquisa e Assistência na Reabilitação de Mastectomizadas), da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP, um espaço de acolhimento e cuidado. Criado em maio de 1989, o núcleo surgiu diante da falta de suporte às mulheres após a alta hospitalar, quando muitas precisavam lidar com consequências físicas, sociais e emocionais do tratamento.

 

O trabalho considera a mulher para além da recuperação física. A assistência envolve uma equipe multiprofissional, com enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos, além de estudantes de graduação e pós-graduação. O REMA também desenvolve pesquisas, contribui para a formação de profissionais e promove ações de prevenção e detecção do câncer ginecológico e mamário. Desde 2018, o núcleo é coordenado pela professora doutora Marislei Sanches Panobianco, que acompanha o serviço desde a década de 1990, quando ingressou como aluna de pós-graduação.

 

Ao longo dos anos, o trabalho ampliou tanto o número de mulheres atendidas quanto as atividades de reabilitação. Para Marislei, uma das necessidades mais importantes é garantir que cada paciente seja ouvida e acolhida. “As necessidades dessas mulheres envolvem, primeiramente, o acolhimento e a escuta atenta de suas dificuldades, dúvidas e angústias”, afirma.

 

A recuperação, explica a professora, passa por diferentes dimensões. Além de lidar com limitações físicas e efeitos adversos dos tratamentos, muitas mulheres precisam reconstruir a autoestima, recuperar o equilíbrio emocional e retomar a vida social. Por isso, a assistência deve ser multidisciplinar e considerar as particularidades de cada paciente. O objetivo é contribuir para a qualidade de vida e fortalecer a autonomia das mulheres após o diagnóstico.

 


REMA é um núcleo da USP que oferece acolhimento e reabilitação integral a mulheres mastectomizadas.

 

O medo, porém, continua presente desde a descoberta da doença. Segundo Marislei, isso ocorre porque o câncer de mama ainda é associado à morte, à perda da mama, às mudanças físicas, à duração do tratamento e à incerteza sobre o futuro. Embora essas preocupações sejam compreensíveis, ela ressalta que existem diferentes possibilidades terapêuticas e avanços na medicina. “É importante a mulher saber que não precisa enfrentar esse caminho sozinha”, diz.

 

A professora também destaca o valor de conhecer histórias de mulheres que atravessaram o tratamento e seguiram em frente. Grupos como o REMA oferecem um espaço de troca de experiências, orientação e apoio, no qual as pacientes podem compartilhar dúvidas e angústias com profissionais e outras mulheres que vivem situações semelhantes. “Os grupos de reabilitação integral devem oferecer assistência multidisciplinar, humanizada e adequada às suas necessidades”, afirma Marislei. Esse acompanhamento ajuda a enfrentar as consequências da doença e a recuperar, gradualmente, a confiança para seguir a vida.

 


“A mulher saber que não precisa enfrentar esse caminho sozinha”, ressalta Dra. Marislei

AMOR PRÓPRIO

 

Aos 50 anos, Shirley Bezerra Almeida recebeu o diagnóstico de câncer de mama e sentiu o chão desaparecer. Para enfrentar o tratamento, contou com o apoio da filha, da família, da equipe do REMA. “Eu não estava acreditando no que estava ouvindo. Chorei bastante. Foi muito difícil”, lembra. Hoje, aos 54, ela recorda a trajetória marcada pelo medo, pela quimioterapia, pela radioterapia e pela primeira cirurgia da vida. Nos primeiros ciclos de quimioterapia, passou mal e chegou a longos períodos sem conseguir se alimentar. “Eu reagi ao tratamento com o coração sangrando, com medo do desconhecido.” A fé e o apoio de quem permaneceu ao seu lado foram fundamentais para atravessar o período.

 

Mas Shirley também enfrentou o abandono do companheiro, que foi embora dois meses e cinco dias depois da cirurgia. A experiência não é isolada. Uma pesquisa da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), em parceria com Datafolha e AstraZeneca, ouviu 240 mulheres com câncer de mama em cinco capitais brasileiras, em setembro de 2024. O levantamento apontou que uma em cada dez foi abandonada pelo parceiro após o diagnóstico. O estudo identificou ainda que 40% das entrevistadas enfrentaram demissões durante o tratamento.

 

Quatro anos depois da cirurgia, Shirley olha para a própria história com orgulho. “Pela mulher e ser humano que me transformei, fiquei muito mais humana.” Hoje, diz compreender melhor o valor da vida e deixa uma mensagem a quem enfrenta o tratamento: “Tenham fé em vocês, na sua força de vontade, nas pessoas que realmente estão do seu lado.” E aconselha: “Esse deserto que você está vivendo é um deserto para passar e não um deserto para morar. Por mais que as tempestades venham com força, nós veremos o arco-íris.”

 

Shirley também reforça que o cuidado consigo mesma precisa estar presente durante todo o ano. “Nós, mulheres, temos que nos cuidar, nos amar. Sejam fortes, mulheres, levantem a cabeça.” Para ela, o diagnóstico não define o fim da história: “Descobrir um diagnóstico de câncer não é uma sentença de morte. Nós nos levantamos mais fortes, mais guerreiras e mais belas. Se amem!”

 

“Nos levantamos mais fortes, mais guerreiras e mais belas. Se amem!”, assegura Shirley, após o câncer

“Nos levantamos mais fortes, mais guerreiras e mais belas. Se amem!”, assegura Shirley, após o câncer

 

DIFERENTES FAIXAS ETÁRIAS

 

Embora seja mais frequente com o avanço da idade, o câncer de mama também atinge mulheres com menos de 40 anos. Para o mastologista do Grupo São Lucas, Rafael Pelorca, fatores como predisposição genética, histórico familiar, maternidade tardia, menor número de gestações, consumo de álcool e sedentarismo podem contribuir para o risco. O médico ressalta que o aumento dos diagnósticos também pode refletir a ampliação dos exames e a melhora dos recursos de detecção.

 

Nos Estados Unidos, dados da American Cancer Society mostram que a incidência da doença entre mulheres com menos de 50 anos cresceu, em média, 1,4% ao ano entre 2012 e 2021. Entre as mulheres com 50 anos ou mais, o aumento foi de 0,7%. Pelorca destaca a importância de avaliar o histórico pessoal e familiar para identificar quem pode precisar de acompanhamento antes dos 40 anos. A partir dessa idade, sociedades médicas brasileiras recomendam mamografia anual. Independentemente da faixa etária, nódulos, retrações na pele, alterações recentes nas mamas, secreção espontânea pelo mamilo ou caroços nas axilas devem ser avaliados por um profissional.

 

Os avanços no diagnóstico e no tratamento também ampliaram as perspectivas das pacientes. Segundo Pelorca, tumores identificados em estágio inicial apresentam chances de cura e sobrevida em cinco anos superiores a 95%. Cirurgias conservadoras e terapias direcionadas às características de cada tumor permitem tratamentos mais individualizados. “O câncer de mama não é uma doença única, mas sim um conjunto de doenças com comportamentos biológicos distintos”, afirma.

 

DIAGNÓSTICO E TRATAMENTOS

 

Nódulos, alterações na pele e mudanças no formato das mamas são sinais que merecem atenção. Segundo o mastologista William Clagnan, cooperado da Unimed Ribeirão Preto e médico assistente do Hospital das Clínicas da USP, a ausência de histórico familiar não elimina o risco da doença. “A maioria dos casos ocorre em mulheres sem histórico familiar significativo”, afirma.

 

Entre as alterações que devem levar à avaliação médica estão nódulos palpáveis, áreas de endurecimento, retrações da pele ou do mamilo, vermelhidão persistente, mudanças na textura da pele e saída espontânea de secreção sanguinolenta pelo mamilo. Feridas persistentes na região da aréola também precisam ser investigadas. Esses sinais não significam necessariamente câncer, mas exigem avaliação sem demora.

 

A mamografia tem papel central na detecção precoce, conforme a faixa etária e o risco individual. Em situações específicas, a ultrassonografia e a ressonância magnética complementam a investigação. Quando há suspeita, biópsias minimamente invasivas orientadas por exames de imagem permitem confirmar o diagnóstico e identificar características biológicas fundamentais para definir a conduta.

 

O tratamento depende de fatores como tamanho do tumor, comprometimento dos linfonodos, presença de receptores hormonais, expressão da proteína HER2, idade e condições clínicas da paciente. “O tratamento deve ser individualizado, buscando sempre o melhor resultado oncológico com o menor impacto possível na qualidade de vida”, explica Clagnan.

 

A cirurgia pode retirar apenas parte da mama ou exigir a mastectomia, que consiste na retirada de todo o órgão. A radioterapia é indicada na maioria das cirurgias conservadoras; após a mastectomia, a necessidade depende do risco de recorrência e de características do tumor. A quimioterapia também não é necessária em todos os casos. Dependendo do subtipo da doença, podem ser utilizadas terapias hormonais, medicamentos direcionados a alvos específicos e imunoterapia. Em algumas situações, a combinação de medicamentos antes da cirurgia aumenta as chances de controle da doença.

 

Os avanços permitem identificar subtipos tumorais com maior precisão e selecionar tratamentos mais adequados. “Hoje, o objetivo não é apenas aumentar as chances de cura, mas também reduzir os efeitos colaterais e preservar a qualidade de vida durante e após o tratamento”, afirma o mastologista. O diagnóstico em fases iniciais também pode viabilizar cirurgias menos extensas e reduzir o comprometimento dos linfonodos axilares, diminuindo o risco de complicações como o linfedema, inchaço que pode atingir o braço.

 

A recuperação, porém, envolve mais do que o controle da doença. Para Marislei Sanches Panobianco, o cuidado precisa considerar os efeitos físicos e emocionais da cirurgia. “O acolhimento e o acompanhamento multiprofissional são fundamentais para que a mulher possa reconstruir a relação com o próprio corpo e encontrar novos sentidos para sua vida”, diz.

 

Marislei também aponta a necessidade de ampliar o acesso à mamografia de qualidade, agilizar a investigação de alterações suspeitas e reduzir o intervalo entre a confirmação diagnóstica e o início do tratamento. Para ela, a assistência deve combinar tecnologia, acesso oportuno e atendimento humanizado, respeitando as necessidades de cada mulher. 

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