Cão de guarda
“A vacina antirrábica é obrigatória, mas cães e gatos precisam de outras vacinas essenciais”, lembra a veterinária Isadora

Cão de guarda

Doenças que atingem animais domésticos também podem ameaçar pessoas; especialistas apontam a imunização como uma das principais barreiras contra esse risco

O cachorro chega correndo para receber o tutor na porta; o gato se acomoda no sofá; crianças brincam no quintal e os animais ocupam, cada vez mais, um lugar de membro da família. Essa convivência tão próxima também traz responsabilidades que vão além da alimentação, do banho ou do carinho.


Vacinar um cão ou um gato não protege apenas aquele animal. Em muitos casos, é uma forma de impedir que doenças potencialmente graves circulem entre os próprios pets, atinjam animais silvestres e, em algumas situações, cheguem aos seres humanos.


O conceito de Saúde Única, estratégia adotada por organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH), conecta saúde humana, animal e ambiental.


“Muitos microrganismos circulam entre diferentes espécies. A Saúde Única reconhece essa relação e busca reduzir os efeitos das ações humanas na emergência e disseminação de zoonoses, pandemias e até da resistência aos antimicrobianos”, explica Lindamar Maria de Souza, professora de Parasitologia da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG).


As zoonoses são justamente as doenças capazes de ser transmitidas entre animais e pessoas. Algumas são conhecidas há décadas, como a raiva e a leptospirose. Outras ganharam importância à medida que cidades cresceram, áreas naturais foram ocupadas e a convivência entre humanos, animais domésticos e fauna silvestre se intensificou.


“A leishmaniose visceral é um exemplo clássico. Era uma doença restrita ao ambiente silvestre e hoje os cães tornaram-se o principal reservatório doméstico”, afirma a pesquisadora.


A raiva ajuda a explicar essa relação. Depois que os sintomas aparecem, a doença apresenta letalidade próxima de 100%, tanto em animais quanto em humanos.


Há um caminho. Foi justamente a vacinação em massa de cães e gatos que mudou o cenário brasileiro nas últimas décadas. Segundo o Ministério da Saúde, o país completou dez anos sem registrar casos de raiva humana transmitida por cães, resultado atribuído ao controle da doença na população canina e ao acesso à profilaxia humana. Hoje, o principal desafio está na circulação do vírus em morcegos e outros animais silvestres. 


“A raiva é rara hoje, justamente porque a gente vacina em massa. Ela não desapareceu. Continua circulando em morcegos e outros reservatórios silvestres, inclusive no interior de São Paulo. Quando a cobertura vacinal cai, o risco volta a aumentar”, alerta a médica veterinária Isadora Minelli.


Segundo dados atualizados do Ministério da Saúde, o número de casos de raiva em cães e gatos caiu drasticamente nas últimas décadas. Entre 1999 e 2025, o Brasil reduziu os registros de aproximadamente 1.200 para apenas 13 casos anuais.


Embora seja a única vacina obrigatória por lei, a antirrábica está longe de ser a única importante. “O médico-veterinário recomenda também as vacinas essenciais, chamadas de ‘core’, para todos os cães e gatos, independentemente do estilo de vida. Nos cães, são as polivalentes V8 ou V10, que protegem contra doenças como cinomose, parvovirose, hepatite infecciosa, adenovirose, parainfluenza e leptospirose. Nos gatos, indicamos a V3, V4 ou V5, conforme cada caso”, explica Isadora.


O protocolo começa cedo. A primeira dose costuma ser aplicada entre seis e oito semanas de vida, seguida de reforços até cerca de quatro meses de idade. Depois disso, entram os reforços periódicos ao longo da vida. 


Mesmo assim, muitos tutores abandonam o calendário depois do primeiro ano. “É muito comum. As pessoas associam a vacina apenas ao filhote. Como o animal cresce saudável, acreditam que não precisa mais. Só que a imunidade diminui com o tempo. O reforço existe justamente para manter essa proteção ativa”, explica a veterinária.


Quem imagina que enfermidades como cinomose ou parvovirose ficaram no passado pode se surpreender. Na rotina clínica, a médica veterinária Nátalie Massaro afirma que elas continuam aparecendo com frequência. “Infelizmente, ainda atendemos casos de doenças que poderiam ser evitadas com a vacinação. Nos gatos, também vemos rinotraqueíte e panleucopenia. O mais triste é que, na maioria das vezes, essas doenças poderiam ter sido prevenidas”, diz.


Na avaliação da veterinária, o principal obstáculo hoje não é financeiro. “A desinformação ainda pesa mais do que o custo. Muitos tutores acreditam que, porque o animal vive dentro de casa ou aparenta estar saudável, ele não precisa mais ser vacinado”, comenta. É justamente um dos mitos mais comuns. “Mesmo sem sair para passear, cães e gatos podem entrar em contato com vírus e bactérias trazidos nos sapatos, roupas ou pelas mãos dos próprios tutores. Além disso, acidentes acontecem. Um portão pode ficar aberto ou o animal pode precisar ir ao veterinário em uma emergência. Todos devem manter a vacinação em dia”, reforça Nátalie.


Além da imunização, cuidados como vermifugação, controle de pulgas e carrapatos, alimentação adequada, consultas periódicas, higiene do ambiente e descarte correto das fezes também são essenciais dentro do conceito de Saúde Única.


A lógica é semelhante à da imunidade coletiva observada na vacinação humana. “A informação previne a hesitação vacinal”, resume Lindamar. “Quando o tutor entende por que a vacina existe e quais doenças ela evita, ele passa a proteger não apenas o próprio animal, mas toda a comunidade.”

 

VACINA DE AMOR


Há dois meses, Bob, um chihuahua que hoje tem quatro meses de idade, chegou para ampliar a família da jornalista Isabela Faustino. A decisão veio depois que uma simples fotografia conquistou todos os moradores da casa. O filhote já havia recebido as primeiras doses da vacina quando foi adotado. Desde então, a família manteve o calendário de reforços e, na última semana, levou Bob para receber a vacina antirrábica. “Sempre que temos alguma dúvida, perguntamos ao veterinário. Todos os anos vamos reforçar as doses necessárias”, afirma.


A tranquilidade com que a família encara a vacinação é resultado de uma longa convivência com outro animal de estimação. Antes de Bob, Isabela viveu quase 17 anos ao lado de Kika, uma fox paulistinha que ganhou quando tinha apenas 6 anos de idade. “Foi a minha primeira cachorrinha, minha primogênita”, conta.


Kika morreu em julho do ano passado, após enfrentar um câncer agressivo. A despedida deixou saudade, mas também reforçou a importância dos cuidados preventivos e do acompanhamento veterinário ao longo de toda a vida dos animais. “Ela sempre será sinônimo de força, amor e coragem”, diz Isabela.


Agora, com Bob, a família pretende repetir o mesmo compromisso com a saúde do novo integrante. “Aconselho procurar um veterinário de confiança para acompanhar todas as vacinas que o filhote precisa tomar e também os reforços necessários”, afirma Isabela.

 

SERVIÇO


Em Ribeirão Preto, o serviço público disponibiliza gratuitamente a vacina antirrábica para cães e gatos saudáveis com mais de três meses de idade. A aplicação é feita na Unidade de Vigilância de Zoonoses, à avenida Eduardo Andrea Matarazzo, 4.255, de segunda a sábado, das 8h30 às 16h, sem necessidade de agendamento.


Em 2025, o município aplicou 8.356 doses, sendo 5.774 em cães e 2.582 em gatos. Em 2026, foram aplicadas 2.205 doses.


Desde 2022, o Estado de São Paulo deixou de realizar campanhas anuais de vacinação antirrábica em massa e passou a adotar a estratégia de vacinação de rotina em pontos fixos durante todo o ano. Por isso, não há estimativa oficial de cobertura vacinal para Ribeirão Preto.

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