Cobertura vacinal abaixo da meta amplia risco de doenças em Ribeirão Preto
Secretário da Saúde Maurício Godinho detalha queda na cobertura vacinal e estratégias para conter riscos no município
A vacina sempre foi uma promessa silenciosa de evitar um mal maior e durante anos Ribeirão Preto – como o restante do país – respondeu bem a esse pacto coletivo. Algo mudou. Hoje, a maioria das vacinas não atinge a meta de cobertura de 95% preconizada pelo Ministério da Saúde. Entre as crianças menores de 2 anos, apenas a primeira dose da tríplice viral mantém o índice esperado.
Ao mesmo tempo, cresce a hesitação, aumentam os esquemas incompletos e se abre espaço para um risco que parecia superado: a reintrodução de doenças graves em uma cidade marcada pela intensa circulação de pessoas.
Na entrevista a seguir, o secretário municipal da Saúde, Maurício Godinho, ex-diretor técnico e coordenador da Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, fala sobre os sinais de alerta, os desafios concretos e o que está em jogo quando a prevenção deixa de ser prioridade.
Muitas vacinas no Brasil não têm atingido mais a meta de 95% de cobertura. Como Ribeirão Preto está hoje em relação a essa meta?
Em Ribeirão Preto, assim como em todo o Brasil, a cobertura vacinal da maior parte das vacinas está abaixo das metas do Ministério da Saúde. Dentre as nove principais vacinas do calendário das crianças menores de 2 anos de idade, apenas a 1ª dose da Tríplice Viral tem alcançado a meta nos últimos anos.
Quais vacinas, hoje, apresentam maior queda de cobertura no município — e quais grupos (crianças, adolescentes, idosos) mais preocupam?
Entre as crianças menores de 2 anos, Vacina Pneumocócica 10-valente, Hepatite A e Influenza. Considerando também os adolescentes, vacina contra HPV possui uma das menores coberturas, sendo 61,4% para o público feminino e 52% para o público masculino.
O que explica essa baixa adesão e quais riscos isso traz a curto e médio prazos?
Vários fatores podem explicar a baixa cobertura dessas vacinas. Uma delas é o esquecimento da necessidade da vacinação pelas populações de faixas etárias após 1 ano de idade. As pessoas se preocupam mais com a vacinação das crianças menores de 1 ano e se esquecem que as outras faixas etárias também precisam receber vacinas de acordo com os calendários. Para a vacina HPV há outros motivos de crenças, receio de que a vacinação estimule a atividade sexual do adolescente, entre outros aspectos pessoais. Muitos associam a vacina com a prevenção de uma IST (Infecção Sexualmente Transmissível) e não com a prevenção do câncer. Por isso, a importância da comunicação com os pais e responsáveis sobre a importância dessa vacina para a vida toda.
Existe, hoje, risco real de retorno de doenças já controladas, como sarampo ou poliomielite, na cidade? O município já identificou sinais de alerta?
O risco de reintrodução de doenças como o sarampo e a poliomielite é real. Atualmente, as pessoas circulam com muita facilidade entre municípios, Estados e até mesmo países. Essas doenças circulam em outros locais e Ribeirão Preto, sendo uma cidade de elevada movimentação da população e com esta desprotegida pelas baixas coberturas vacinais, possui grandes e importantes elementos que facilitam a reintrodução dessas doenças.
Após a pandemia, houve mudança no comportamento da população em relação à vacinação? Os números mostram recuperação ou continuidade da queda?
Desde a pandemia observamos uma elevação na hesitação vacinal, ou seja, as pessoas demonstram maior dificuldade em compreender a importância da vacinação e postergam mais a procura pelas vacinas. Esse movimento se mantém, sendo demonstrado pelas coberturas vacinais do município.
Quantas doses de vacinas foram perdidas recentemente no município por falta de procura ou atraso da população? Isso representa qual impacto financeiro para a saúde pública?
O município faz o controle do número de doses a serem solicitadas, para que não haja perdas. Por esse intenso controle, é possível garantir que as perdas não ocorram por prazo de validade e não haja impacto financeiro para o país, uma vez que os imunobiológicos são adquiridos pelo Ministério da Saúde.
O Brasil vive um cenário de crescimento do negacionismo e da hesitação vacinal. Esse fenômeno também é percebido em Ribeirão Preto? Como se manifesta na prática?
O que podemos afirmar em Ribeirão Preto, pela vivência diária com a população, é que observamos que a hesitação vacinal está presente de forma mais marcante na população. A recusa vacinal não é tão perceptível para a maioria das vacinas, sendo comum para a vacina Covid no público infantil. Na prática, observamos que uma parte ainda pequena da população, que hesita a vacinação, não manifesta claramente o desejo de não receber as vacinas, mas coloca determinados motivos para não receber no momento, seja por alegar algum desconforto momentâneo, problemas de saúde recorrentes, viagens, trabalho, entre outras situações alegadas para postergar a vacinação.
Muitas vacinas exigem mais de uma dose e há alta taxa de abandono entre a primeira e as seguintes. Esse problema também acontece na cidade? Quais são os índices locais?
Quando falamos em coberturas vacinais abaixo das metas, observamos que há pessoas que sequer iniciam o esquema vacinal. No entanto, quando se trata das crianças, como a maior parte das vacinais possui esquema composto por duas ou três doses, é mais comum observarmos que a falha do alcance da cobertura vacinal aconteça muito mais por esquemas de vacinação incompletos do que por crianças que não recebem nenhuma dose do esquema. Diante disso, a taxa de abandono acaba complementando as taxas de cobertura vacinal. Quanto mais doses o esquema vacinal possui, maior o risco de haver um esquecimento de completar o esquema. Por isso é tão importante mantermos a estratégia de busca ativa das crianças faltosas e garantirmos que os responsáveis sejam relembrados da necessidade de finalizar os esquemas vacinais das crianças, para que dessa forma haja o mínimo de abandono possível.
Quais estratégias o município tem adotado para recuperar a cobertura vacinal — como campanhas, busca ativa ou vacinação em escolas — e quais têm dado resultado concreto?
O município tem realizado diferentes estratégias para cada período do ano, levando em consideração questões epidemiológicas, campanhas de vacinação, indicadores de cobertura para cada vacina e público-alvo. No último ano, foram realizadas ações de vacinação escolar, campanhas de vacinação com abertura de postos de vacinação aos sábados, busca ativa de faltosos, divulgação da vacinação em eventos culturais e de saúde, vacinação rural contra a Febre Amarela, vacinação contra Influenza em todas as ILPI [Instituições de Longa Permanência de Idosos], campanhas em universidades, aumento das divulgações na imprensa e mídias sociais, entre outras. Uma importante ação, realizada anualmente, é a parceria com as unidades escolares municipais, para que haja a solicitação da “Declaração de situação vacinal” no ato da matrícula escolar. Isso faz com que os responsáveis pelas crianças as levem à unidade de saúde para atualizarem a carteira de vacinas.
Acredita que medidas mais rígidas são necessárias?
Atualmente o Estatuto da Criança de do Adolescente (ECA) inclui a vacinação como direito da criança e do adolescente. No entanto, os profissionais da saúde são incentivados a praticar o diálogo junto aos familiares, para que possam compreender a importância da vacinação e não para que seja apenas uma obrigatoriedade. Nos casos extremos, são acionados órgão legais, como conselho tutelar, considerando que o Sistema Único de Saúde é corresponsável por zelar pela proteção a saúde da criança.
Leia mais:
Queda na vacinação reacende risco de doenças em Ribeirão Preto
Foto: Revide