Cuide do seu quadrado
Em 2026, a Revide decidiu ‘sair do papel’ e participar da mudança da cidade, começando pelo Irajá, bairro sede da revista há muitos anos
Quarenta anos não se comemora apenas com memória, mas com legado. Por isso, a Revide decidiu ir além de contar histórias e participar delas. Em vez de apenas reportar os desafios de Ribeirão Preto, a revista está também agindo em busca de soluções, começando pela questão do lixo.
Nas últimas edições, foram apresentados distintos ângulos desta problemática. Agora, apresentamos o projeto “Eu cuido do meu quadrado”, uma iniciativa da Revide, em parceria com a Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto e importantes entidades da cidade, com o objetivo de aumentar a sensação de pertencimento e inspirar a relação de zelo com a cidade.
“Pensamos em um projeto editorial de aniversário com temas estruturais da cidade, mas, além da cobertura jornalística, decidimos promover encontros e mobilizar a comunidade para gerar transformação concreta. Um desses temas, o lixo, toca diretamente a vida urbana contemporânea e o bairro onde estamos inseridos”, explica Isabel de Farias, diretora da revista.
Além da cobertura jornalística, decidimos gerar transformação concreta”, diz Isabel de Farias
Murilo Pinheiro, diretor da Revide, ressalta a reciclagem, um ponto sensível dessa temática, que depende muito da participação popular. “Na comemoração dos 40 anos, colocamos em prática um projeto social de grande relevância. Dar uma destinação correta ao lixo é uma tarefa que depende do poder público e de cada cidadão. Não é admissível que uma cidade do tamanho de Ribeirão Preto, com os recursos que possui, destine menos de 1% para a coleta seletiva. A cidade está jogando fora recursos que poderiam fazer a diferença na vida de centenas de pessoas. Se cada um ‘cuidar do seu quadrado´ já temos um bom começo”, aponta.
“Não é admissível que Ribeirão Preto destine tão pouco para coleta seletiva”, afirma Murilo Pinheiro
Na visão de ambos, virar o jogo contra o lixo em Ribeirão Preto passa, necessariamente, por duas frentes: engajar a comunidade e educar quem ainda está aprendendo a ver o mundo e a se posicionar nele. Por isso, a ação proposta pela Revide se divide em uma frente comunitária e uma educacional. Na comunitária, o movimento ganha as ruas chamando moradores, comércio local, igrejas, associações, condomínios e instituições a assumirem a corresponsabilidade sobre o território. Na educacional, o aprendizado das crianças se conecta com ações práticas no bairro, por meio de um programa piloto de consciência ambiental, realizado em dez escolas particulares e da rede municipal.
A observação cotidiana sobre o lixo produzido dentro de casa, o descarte no quarteirão, a coleta seletiva, o impacto real das escolhas individuais vão se transformar em vídeos, desenhos, relatos e histórias criativas. Mais do que ensinar, a proposta é fazer ação e educação caminharem juntas.
TEORIA DAS JANELAS QUEBRADAS
O projeto “Eu cuido do meu quadrado” já está saindo do papel. A ideia amadureceu em encontros realizados nos meses de janeiro e fevereiro, que reuniram representantes do poder público, entidades de classe, lideranças comunitárias, empresas do setor de imóveis e limpeza urbana, cooperativas e instituições educacionais.
O território piloto será o Jardim Irajá, bairro onde a revista Revide tem sua sede desde 2003. De modo geral, o projeto engloba o quadrilátero formado pelas Avenidas Leais Paulista, Senador César Vergueiro, Prof. João Fiúza, Wladimir Meirelles Ferreira e Eugênio Rocha Filho. A área reúne escolas, comércio ativo, condomínios e fluxo intenso de pessoas — um microcosmo urbano ideal para testar metodologias de engajamento.
Entre as ações previstas, estão o mapeamento de pontos de descarte específico (óleo de cozinha, isopor, tampinhas, esponjas, blisters); a implantação estratégica de lixeiras para pedestres (estudo técnico da empresa Suma); a divulgação clara dos horários da coleta seletiva; a organização de fios aéreos em parceria com a Coinfarp (Comissão de Infraestrutura Aérea de Ribeirão Preto) e a mobilização de voluntários e lideranças locais.
“Nossa ideia é aplicar a ‘teoria das janelas quebradas’: lugar limpo permanece limpo, lugar sujo a tendência é ficar cada vez mais sujo”, explica Isabel. “O conceito é bem simples: cada um fica responsável por manter limpa a sua calçada. Não precisa se preocupar com a do vizinho da frente ou do lado, apenas a sua. Por isso, o projeto se chama ‘Eu cuido do meu quadrado’. Cada um cuidando do seu pedacinho, com certeza, o bairro terá condição de ficar mais limpo.”
A chamada Teoria das Janelas Quebradas, desenvolvida pelos sociólogos James Q. Wilson e George L. Kelling, amplia o olhar para os “pequenos sinais de desordem”, como uma janela quebrada, lixo acumulado e pichações, que comunicam abandono e estimulam a degradação. Segundo essa teoria, quando o cotidiano é negligenciado, cria-se um ciclo vicioso em que desordem atrai mais desordem, mas o inverso também é verdadeiro. Assim, manutenção constante, atenção aos detalhes e ação rápida geram um ciclo positivo de respeito e pertencimento.
Por isso, o projeto começa com um Mutirão de Limpeza, realizado pela Prefeitura Municipal. Em seguida, condomínios, casas e comércios assumem a responsabilidade de dar continuidade, cuidando da sua calçada. “Este é um projeto inovador e vanguardista que, antes de tudo, visa a resgatar valores caros à sociedade, como a questão do pertencimento e da coisa pública ser um bem que deve ser cuidado por todos, com a valorização da vizinhança, algo tão importante para uma vida em sociedade agradável”, afirma a secretária de Infraestrutura de Ribeirão Preto, Juliana Ogawa, reforçando a importância desse tipo de parceria pública e privada para o desenvolvimento da cidade.
“É um projeto inovador para resgatar o pertencimento das pessoas”, diz Juliana Ogawa
“Estamos muito felizes em participar. Vamos entrar com todas as nossas equipes de poda, roçada, roçada de meio fio e limpeza urbana. Também vamos entrar com a Coinfarp para organização dos fios aéreos. Será um momento chave para mudarmos esse conceito de sociedade e dar valor, sim, para a separação do lixo, a coleta seletiva, e para cada um cuidar mais da sua calçada e deixar a cidade mais bonita. Com o passar do tempo, vamos nos acostumando com o desarrumado e a ideia é resgatar esses valores e replicar isso para a cidade inteira, ganhar as ruas de Ribeirão”, pontua a secretária.
ÂNCORAS DO BAIRRO
Para engajar a comunidade, o projeto se estrutura a partir de “âncoras” locais — instituições com forte presença territorial. Entre elas, estão o Centro Médico, o Rotary, escolas, condomínios e o comércio em geral. Grandes empresas do entorno também podem somar forças.
O presidente do Rotary Club Ribeirão Preto Olhos D’Água, Carlos Lázaro Pellozo, vê no projeto um efeito multiplicador. “Cuidar do nosso ‘quadrado’ é mais do que limpar o espaço. É se orgulhar do lugar onde vivemos e criar um efeito positivo no entorno. O projeto faz as pessoas perceberem que pequenas ações podem gerar grandes mudanças, e a união da comunidade é o combustível para isso”, destaca.
A visão do Centro Médico de Ribeirão Preto está alinhada à sustentabilidade institucional. O presidente da entidade destaca que desenvolvimento sustentável passa por gestão de resíduos, eficiência e responsabilidade ambiental contínua. “O Centro Médico de Ribeirão Preto tem sempre o cuidado de manter suas dependências esportivas, sociais e científicas em harmonia com o meio ambiente”, ressalta Tomas Yung Joon Kim.
A Acirp (Associação Comercial e Industrial de Ribeirão Preto) também integra o movimento. Segundo sua presidente, Sandra Brandani Picinato, a proposta tem impacto direto no desenvolvimento regional e comercial. “É um movimento de sustentabilidade urbana que propõe o cuidado cotidiano com os espaços públicos e que se alinha diretamente com a ideia de uma cidade mais organizada, consciente e participativa defendida pela Acirp”, diz ela.
O Sincovarp (Sindicato do Comércio Varejista de Ribeirão Preto) reforça o compromisso de mobilizar lojistas no quadrilátero. “Estamos utilizando todos os nossos canais de relacionamento, em um esforço para que se sintam pertencentes à causa e participem do projeto de forma prática. A conscientização sobre sustentabilidade tem conexão direta e estratégica com a atividade varejista. Espaços urbanos bem cuidados e bem ocupados são mais seguros e atraem mais consumidores. Faz toda diferença na qualidade de vida das pessoas”, afirma Paulo César Garcia Lopes, presidente da entidade e morador do bairro Irajá há 26 anos. “Fico muito feliz de poder colaborar efetivamente. Acreditamos fortemente que esta iniciativa ganhará escala em Ribeirão Preto. Nossa visão do projeto é sistêmica. Uma engrenagem ajuda e complementa a outra e, juntas, fazem o todo funcionar cada vez melhor”, finaliza.
FAZENDO A DIFERENÇA 
“Conheci uma pessoa que recolhia blisters para uma instituição e os desfiava para um hospital, que trocava por cadeiras de rodas. Achei fantástico! Além do benefício das cadeiras de rodas para o hospital, a ação contribuía significativamente com o meio ambiente, já que o material é reciclável e de longa decomposição. Como tenho vários condomínios sob minha gestão, comecei a recolher os blisters, incluindo no que moro, e a doar também. Tornou-se rotina. Muitas vezes encontramos materiais descartados inadequadamente pelas ruas e calçadas. A produção de lixo está cada vez maior, mais rápida e complexa de gerenciar. Acho que todo cidadão precisa ter consciência sobre sua própria produção de lixo. Daí a importância de sensibilizar, educar e multiplicar para uma mudança comportamental, e o projeto ‘Eu Cuido do Meu Quadrado’ faz isso. Acho importante contribuir, inspirar, incentivar e contagiar cada vez mais pessoas. Primeiro cada um no seu quadrado, depois em toda nossa cidade.”
Luciano Silva Oliveira, síndico profissional
ORGULHO DO BAIRRO
“Sou grato por viver esse momento, que considero especial para todos que estão participando. Aprendi que a mudança começa perto de casa. Não se trata apenas de recolher lixo, mas de fazer um pacto com o lugar onde criamos nossos filhos, caminhamos e nos encontramos. Educação, pequenas intervenções e ações de zeladoria mostram resultados visíveis: praças mais limpas, pontos antes abandonados recuperados e vizinhos mais engajados. A participação de voluntários, o suporte da administração pública e a parceria com empresas locais tornam esse esforço possível. Minha expectativa é que esse movimento inspire outras regiões a assumirem esse compromisso. Quando cada um cuida do próprio quadrado, a cidade inteira ganha saúde, segurança e beleza. No fim das contas, o que buscamos é resgatar o sentido de pertencimento e é emocionante ver pessoas redescobrindo o orgulho pelo seu bairro.”
Júnior Ferreira de Freitas, analista jurídico
MÃOS À OBRA
“Estamos colocando a reciclagem em pauta em nossos condomínios. Acreditamos que informação — e exemplo — geram transformação. Quando as pessoas entendem o impacto ambiental das suas atitudes e o retorno disso para as futuras gerações, podem agir com mais responsabilidade. Firmamos parcerias com empresas especializadas e entramos em sinergia com o projeto da Revide. Acreditamos que o exemplo positivo inspira a participação e a mudança. Na igreja que frequento, por exemplo, começamos a cuidar de um canteiro próximo a um ponto de ônibus. Assumimos esse ‘quadrado’ e limpamos o lixo, fizemos podas, plantamos árvores e criamos um caminho para facilitar a travessia dos pedestres. A comunidade acolheu a iniciativa. As pessoas se emocionaram ao perceber que alguém havia pensado nelas. Ou seja, não é apenas orientar que outros façam, mas agir. Isso faz diferença!”
Tárik Aparecido do Nascimento, gerente da Administradora Aliança