Entre o possível e o ideal
Sistema imunológico também envelhece e precisa de reforço

Entre o possível e o ideal

“Imunossenescência”, a razão por traz da importância da vacinação após os 60 anos

O envelhecimento da população brasileira trouxe o desafio silencioso para a saúde pública de manter os idosos protegidos contra doenças que podem parecer simples, mas seguem causando internações e mortes todos os anos, como gripe, pneumonia, Covid-19, herpes-zóster e meningite. Estas enfermidades estão entre as que mais afetam pessoas acima de 60 anos, especialmente aquelas com doenças crônicas, imunidade reduzida ou fragilidade física. “Vivemos mais e melhor do que nunca, mas nosso sistema de defesa precisa de reforço para acompanhar essa longevidade”, alerta o vacinologista Éder Minari.


Atualmente, as pessoas estão vivendo mais tempo, com mais autonomia e melhor qualidade de vida, mas com o envelhecimento, que ocorre de forma espontânea e natural, vêm mudanças importantes no organismo. “As defesas do corpo envelhecem junto. Uma dessas mudanças tem nome técnico: imunossenescência. Em linguagem simples, significa que nosso sistema imunológico, que é o responsável por nos proteger de vírus, bactérias e outras ameaças, também envelhece. Com o passar dos anos, ele fica menos eficiente, mais lento para reagir e menos preciso no combate às infecções”, explica Minari.


Somada à diminuição da capacidade de defesa, há um aumento natural das inflamações no corpo. Além disso, surgem as chamadas comorbidades: diabetes, hipertensão, problemas cardíacos e outras condições crônicas que são mais comuns após os 60 anos. “Outro fato relevante é a aproximação entre avós e netos. As crianças são potenciais transmissoras de doenças infecciosas, e os avós também podem transmiti-las aos pequenos, como no caso da coqueluche [tosse comprida] e do herpes-zóster [associado ao vírus da varicela/catapora]. É um risco que pode ser evitado”, afirma Éder.


Segundo ele, essa combinação de sistema imunológico enfraquecido, inflamações e doenças crônicas aumenta expressivamente o risco do idoso contrair infecções respiratórias preveníveis por vacinas, como Influenza (gripe), Pneumococos (principal causa de pneumonia bacteriana) e Vírus Sincicial Respiratório (VSR), causador de infecções graves nos pulmões e covid-19.


Assim, o que poderia ser apenas um resfriado para um jovem pode se transformar em pneumonia grave em um idoso, levando a internação, perda de mobilidade e, em casos severos, risco de morte. “A vacina é como um escudo da longevidade”, enfatiza o vacinologista. Ela funciona como um treinamento para o sistema imunológico envelhecido, ensinando-o a reconhecer e combater ameaças específicas antes que causem danos.


Vacinar-se após os 60 anos, portanto, não é opcional, mas essencial para manter a independência, a saúde e a qualidade de vida conquistadas ao longo dos anos.

 

Cobertura preocupa


Apesar de o Brasil possuir um dos maiores programas públicos de imunização do mundo, disponível gratuitamente através do Sistema Único de Saúde (SUS), especialistas alertam para a queda da cobertura vacinal nos últimos anos. Dados do Programa Nacional de Imunizações (PNI) mostram que o país vem enfrentando redução nas coberturas vacinais desde meados de 2016. O cenário se agravou durante a pandemia, quando milhões de brasileiros deixaram de atualizar a carteira de vacinação. O próprio Ministério da Saúde reconhece que a hesitação vacinal, a desinformação e os impactos da pandemia comprometeram os índices de imunização no país.


Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a baixa adesão às vacinas aumentou o risco de retorno de doenças antes controladas no país. Pesquisadores também apontam crescimento da desinformação sobre imunizantes, especialmente após a pandemia de covid-19. 


Entre a população 60+, a preocupação é ainda maior pelo perigo de as infecções respiratórias evoluírem rapidamente para quadros graves. Estudos da Fiocruz demonstraram que as vacinas contra covid-19 reduziram casos graves e mortes em até 70% entre pessoas acima de 80 anos.  De acordo com o Ministério da Saúde, a vacinação continua sendo uma das estratégias mais eficazes para evitar hospitalizações, sequelas e óbitos, principalmente na terceira idade. 

 

Calendário vacinal 60+


Um ponto importante, que muitas famílias ainda ignoram, é que algumas vacinas, apesar de fundamentais para essa faixa etária, não estão disponíveis de forma ampla na rede pública e precisam ser tomadas em clínicas particulares. A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) recomendam a vacinação de forma rotineira nessa população e atestam que as indicadas para idosos são seguras e eficazes quando aplicadas conforme as orientações.


No SUS, estão disponíveis vacinas contra Influenza, febre amarela, hepatite B e dupla adulto (difteria e tétano — dT). Também fazem parte do calendário algumas vacinas pneumocócicas, como VPC13, VPC15, VPC20 e VPP23, além da tríplice bacteriana acelular do tipo adulto, que protege contra difteria, tétano e coqueluche (dTpa ou dTpa-VIP). Ainda assim, há divergências entre as recomendações da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e o que é efetivamente oferecido pelo SUS. Vacinas importantes para a população 60+, como as de Herpes Zóster, Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e a Pneumocócica Conjugada VPC20, seguem fora da cobertura pública ampla.


Ou seja, há divergências nos calendários do que a SBGG recomenda e o que o SUS oferece. Ficam de fora vacinas importantes, como Herpes zóster, Vírus Sincicial Respiratório e Pneumocócica Conjugada VPC20.


A razão dessa não incorporação ao calendário, segundo o geriatra Júlio Cesar Moriguti, docente da Divisão de Geriatria do Hospital das Clínicas em Ribeirão Preto, pode ser pelo “ainda não convencimento dos benefícios em relação ao custo”. Segundo ele, no entanto, todas as vacinas são importantes e precisam ser tomadas. “Eu sou totalmente favorável à aplicação de todas as vacinas indicadas para o idoso. Eu sou idoso, dessa forma, além de tomar, recomendo aos meus pacientes todas as vacinas indicadas. A prevenção é o melhor remédio”, incentiva. 


Embora muita gente associe vacinação apenas à infância, o calendário vacinal do idoso exige acompanhamento contínuo. Algumas vacinas precisam de reforço periódico; outras passaram a ser recomendadas recentemente por causa do aumento da expectativa de vida e da circulação de novos vírus.


Os especialistas reforçam que a vacinação de idosos não protege apenas quem recebe a dose. Também reduz a circulação de vírus, diminui internações no SUS e ajuda a evitar colapsos sazonais nos hospitais, durante períodos de maior incidência de doenças respiratórias.


Em um país que envelhece rapidamente, a imunização passa a ter também um impacto social e econômico. Menos hospitalizações significam menor sobrecarga familiar, redução de gastos públicos e mais qualidade de vida para a população idosa.


Um aspecto emocional pouco discutido é que muitos idosos ainda carregam medo, desinformação ou dificuldade de acesso às vacinas. “Em várias famílias, a carteira vacinal dos pais e avós só é lembrada quando surge uma internação. O cuidado preventivo, nesse caso, pode ser a diferença entre autonomia e fragilidade”, diz Júlio.


Ângela Eda Verdile del Nero, de 66 anos, só não toma todas as vacinas indicadas por não estarem disponíveis no SUS. “Tem vacinas que eu gostaria de tomar, mas são muito caras. A da pneumonia, por exemplo, são duas doses e cada uma custa de R$ 900 a R$ 1.200. Faz seis anos que minha aposentadoria não tem reajuste. Como pagar um valor desses? Também queria tomar a Herpes Zóster, mas não dá”, lamenta. 


Maria de Jesus Moraes, 63 anos, nem procura saber valores. “Eles não dão, então nem adianta”, afirma. Anualmente, ela toma as doses indicadas contra gripe e covid-19, disponíveis na rede, e sente melhora. “Nossa, eu ficava de cama, com febre. Agora quando pego gripe é leve. Eu queria tomar a da dengue, se tivesse”, completa.

 

Referências mundiais


O Brasil ainda é considerado referência mundial em imunização pública pela abrangência gratuita do SUS.  O Programa Nacional de Imunizações (PNI) oferece uma das maiores coberturas vacinais públicas do planeta, contemplando todas as fases da vida, inclusive 60+. Qualquer pessoa pode procurar uma Unidade Básica de Saúde e receber gratuitamente vacinas fundamentais, como gripe, covid-19, hepatite B e tétano. 


Além disso, o PNI brasileiro é historicamente reconhecido pela capacidade de campanhas massivas de vacinação, algo que chamou atenção internacional durante décadas.


Porém, especificamente com relação à população 60+ existe um contraste importante entre o Brasil e países desenvolvidos: enquanto o SUS garante vacinas essenciais gratuitamente, muitos imunizantes considerados “padrão”, em países como Estados Unidos, Reino Unido e Japão, ainda estão restritos à rede privada brasileira. Isso significa que o Brasil possui forte estrutura pública, mas ainda oferece menos vacinas de alta tecnologia para idosos na rotina universal, quando comparado a alguns países desenvolvidos. 


Existe também um aspecto cultural importante: durante muitos anos, a vacinação foi vista no Brasil quase como um pacto coletivo. As campanhas mobilizavam escolas, famílias, televisão, postos volantes e até personagens infantis. Essa força simbólica ajudou o país a erradicar doenças como poliomielite e controlar o sarampo. 


Enquanto isso, países como Estados Unidos, Reino Unido e Japão passaram a investir fortemente na vacinação do envelhecimento saudável. O foco deixou de ser apenas evitar epidemias e passou a incluir qualidade de vida, autonomia e redução de hospitalizações entre idosos. 


Por isso, vacinas como Herpes Zóster, Pneumocócicas conjugadas mais modernas, RSV para idosos e novas tecnologias contra doenças respiratórias já fazem parte das recomendações públicas ou são amplamente subsidiadas nesses países, enquanto, no Brasil, muitas delas ainda custam caro na rede privada, o que cria desigualdade no acesso preventivo. 

 

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