Esforço integrado

Esforço integrado

Para professora, melhorar a gestão dos resíduos sólidos em Ribeirão Preto passa por educação ambiental que se reverta em ações integradas entre poderes público, privado e população

Bióloga com mestrado em Doenças Tropicais, a professora Maria Carolina Gameiro Antônio, 46 anos, atua há 20 com educação, tendo acumulado experiência com formação de professores, gestão de projetos e, principalmente, em salas de aula de Ensinos Fundamental I e II, Médio e cursinhos preparatórios – atualmente leciona para Fundamental II (6º ao 9º ano). Em todas sempre trabalhou a educação ambiental, motivo pelo qual foi convidada a apresentar a proposta “Lixo: vamos virar esse jogo?” a lideranças da educação em Ribeirão Preto conclamadas pela Revide a se unirem em um esforço coordenado por uma melhor gestão dos resíduos sólidos gerados na cidade. 


Na entrevista a seguir, ela compartilha seu ponto de vista sobre os principais desafios dessa gestão em Ribeirão Preto:

 

Por que a gestão de resíduos sólidos deveria ser uma agenda prioritária em qualquer município?

 

Porque isso virou problema para a saúde, para a economia e para o ambiente. Não é mais só uma questão de ser um lixo no lugar errado e estar feio. Quando o lixo não está separado, com tratamento correto, temos enchentes, vetores de doenças – aqui em Ribeirão temos a dengue, como em todo o Brasil – e gastos públicos, porque é um esforço muito grande da Prefeitura limpar a cidade. E a cidade tem muito lixo jogado de forma inadequada. A gestão disso é necessária, mas a gente precisa integrar a ação entre o poder público e a população. Essa gestão precisa ser integrada porque, senão, fica o esforço de um lado e de outro, não.

 

Como convencer o munícipe de que o problema é dele também e não só de quem está no Executivo das cidades?

 

Essa é a pergunta de milhões. A gente que trabalha nessa área, começa a reparar e muitos cidadãos jogando lixo no lugar errado. Em finais de festa, são muitos descartáveis, muito lixo jogado fora do lugar certo, coisa suja e misturada que não vai dar reciclagem. É uma situação alarmante, mas é aí que entra a integração, porque se a gente não trabalhar com a educação, não haverá mudança. A educação não pode ser só pontual. Precisa ser contínua, persistente. 

 

Fale sobre a relação entre o lixo e a crise climática que tem feito muito feito muito estrago no Brasil nos últimos anos.

 

Sendo o mais didática possível, os resíduos vão se decompor, ou no aterro ou jogado em ambiente inadequado, cada um a seu tempo. Essa decomposição gera gases que agravam o efeito estufa. Temos o metano [gerado pelo lixo], que, a curto prazo, é um vilão pior que o gás carbônico. Esse é um ponto muito importante da decomposição do lixo: em qualquer lugar onde ele estiver, haverá geração de gases. Isso é fato, mas há outros impactos do lixo, como o problema de impermeabilização do ambiente urbano, que, com o depósito de lixo em lugares errados, entope o sistema de drenagem da cidade, como os bueiros, impactando o dia a dia cidadão. Uma outra questão é que, para a produção do lixo de descartáveis que usamos, há um gasto de energia a partir do recurso do petróleo. E isso, nessa cadeia, gera ainda mais gás carbônico. Precisamos, realmente, reduzir, reutilizar, reciclar e todos os “R” que tanto vemos, porque são ações diretas para reduzir o impacto da emergência climática. 

 

Você observa mobilização dos poderes públicos em favor da gestão correta dos resíduos sólidos?

 

Acho que tem ações, mas são mais pontuais. Ribeirão restaurou os ecopontos, tem coleta seletiva, agora tem fiscalização e multa para pessoas que estão descartando lixo inadequadamente, mas a cidade é enorme e não dá conta de fazer toda essa fiscalização. A gente tem comércio, setor industrial, setor privado, poder público com essas ações pontuais e falta uma integração com a comunidade. Quem joga no lugar errado tem que ser multado mesmo. Infelizmente, no Brasil as coisas funcionam na base da lei, da multa, da fiscalização.

 

Você acha que vingou o conceito “Lixo Zero”, surgido no início dos anos 2000, sugerindo mudança comportamental individual de estilo de vida, para redução da geração de lixo?

 

Tem alguns lugares que estão buscando essa questão do lixo zero. No Brasil, está crescendo, mas a ideia principal vai além da questão individualizada, que é pensar no ciclo de vida do produto. Desde a produção, há um desperdício de produto, que aumenta muito na indústria de alimento. O conceito não é só evitar o destino de resíduos, mas tornar o processo produtivo mais eficiente, com menos desperdício na produção e também no consumo. Por isso que os defensores do lixo zero falam na solução individual no sentido de a pessoa pensar no seu estilo de vida. A gente está no modelo produção, consumo e descarte. A ideia desse movimento é dar uma pausa nisso, olhar para a questão linear e fazê-la ser mais circular. E tudo bem de ser individual, porque se a gente pensar em cada um fazendo isso, acaba havendo um esforço coletivo.

 

Como equalizar a mudança de estilo de vida com as questões econômicas decorrentes disso?

 

Primeiro, é olhar para o resíduo de forma diferente. Não como um descarte, mas como como algo que tem valor, que ainda pode ser utilizado e ressignificado. A questão do resíduo está totalmente ligada à economia. Primeiro porque a gente tem esse entrave do processo industrial, do lobby todo de produção e de consumo, mas se a gente olhar para as pesquisas, as pessoas têm essa intenção de diminuir e buscar coisas mais sustentáveis. A educação ambiental está até mudando agora para resiliência (escolas resilientes, cidades mais resilientes) para desvincular um pouco do modismo, mas precisamos usar os resíduos para fazer circular a economia. 

 

 

Você percebe se a indústria e o comércio, de forma geral, estão assumindo sua responsabilidade nessa cadeia de gestão de resíduos?

 

Se a gente pensar que a Política Nacional de Resíduos Sólidos entrou em vigor em 2014, o avanço é pequeno e lento. Há empresas que aderiram à logística reversa e disponibilizam pontos de coleta (pilhas, eletrônicos, remédios, lâmpadas), mas, de forma geral, temos uma política no papel, mas que não está acontecendo na prática. Precisa melhorar a adesão das indústrias, empresas, comércio. Precisa ser uma parceria. No outro lado, tem o consumidor, que é o responsável pelo descarte. O frasco vazio de remédio não vai chegar até ao ecoponto se a pessoa não levar. É necessário ter responsabilidade compartilhada. Tem empresas fazendo sua parte, como tem empresa transferindo para o consumidor. É necessário maior adesão dos dois lados. 

 

 

O plástico virou símbolo da crise do lixo. Quais os impactos desse resíduo para o meio ambiente e a saúde humana? 

 

Microplásticos são plásticos muito pequenos, que o olho humano não consegue enxergar e foram encontrados pelos pesquisadores em lugares inimagináveis, como ar, água, solo e tecidos humanos. Apesar de serem estudos e pesquisas recentes, temos uma preocupação porque o microplástico é um corpo estranho que, dentro do nosso organismo, pode gerar problemas no sistema imunológico, inflamações crônicas, atrapalhar processos biológicos, causar desequilíbrio hormonal. Esses microplásticos estão afetando os seres humanos e todos os outros organismos. O ambiente aquático sofre com isso, nós sofremos com isso e ele está entrando na cadeia alimentar. Podemos comer microplástico, respirar microplástico e absorver microplástico pela pele porque existem cosméticos que usam isso para dar textura a alguns produtos, como esfoliantes, por exemplo. Há um estudo que conseguiu detectar microplástico numa artéria do coração humano. Esses estudos apontam para uma preocupação com doenças cardiovasculares e morte precoce porque onde há plástico fica mais difícil a intervenção médica. A Organização Mundial da Saúde reconhece isso - mesmo falando que os estudos estão começando -, e a preocupação é emergente. O Brasil não assinou um acordo recente em relação à redução do uso de plástico e entendo a questão do lobby do setor econômico, mas o Chile, por exemplo, aboliu o uso de sacolas plásticas em mercados e as pessoas se adaptaram. Aqui ainda não temos essa ação. Até tem sacolas retornáveis, mas não há incentivo. Há quem se conscientizou e não usa e há aquelas pessoas que dizem usar a sacolinha do mercado para colocar o lixo doméstico. Porém, um dos plásticos encontrado nos tecidos humanos é exatamente esse, da sacolinha do mercado. É preocupante!

 

A mídia sempre traz materiais novos que se decompõem rapidamente na natureza. Onde estão essas invenções que não entram no mercado?

 

Temos alguns probleminhas com isso. É um mercado crescente e se perguntarmos ao cidadão de Ribeirão Preto qual produto ele vai comprar, ele vai dizer que são os sustentáveis e biodegradáveis. Porém, ele não encontra isso no mercado. Esses produtos ainda são caros para entrar no processo de venda. E temos problema na tecnologia, que às vezes não está bem desenvolvida, e no processo industrial temos a questão da produção de grande escala. O plástico convencional, além de ser barato, é produzido em escala muito maior e amplamente disponível. E falta incentivo de infraestrutura para os novos produtos competirem com o que já tem. O Brasil tem a vantagem de ter cana de açúcar e mandioca e já descobrimos como usar essas fibras para fazer um monte de produtos: régua, roupa, copinhos, substituição do isopor. E por que isso não está no mercado? Porque não consegue competir com o que temos atualmente. O dinheiro sempre ganha. É bem complicado.

 

 

Se nenhuma mudança estrutural ocorrer a partir de agora, qual cenário ambiental teremos na próxima geração?

 

Apesar de eu, como professora, ter o cuidado de não assustar os alunos com essa questão, não causar uma ansiedade e não culpá-los por isso, porque são adolescentes entre 11 e 15 anos, se não houver mudanças a partir de agora, a gente tem o pior cenário pela frente. Um cenário de degradação ambiental, escassez de água e recursos minerais, gerando mais problemas em lugares mais vulneráveis, como as enchentes, doenças novas - covid foi um exemplo. Há pesquisadores se debruçando sobre os novos microrganismos presentes na Amazônia, em decorrência da degradação da floresta. Se esses microrganismos chegarem à população, pode ser muito ruim. É um cenário assustador. O ser humano degrada todos os ambientes em que vive e dos quais depende. É preciso entender que somos parte do meio. Há um custo econômico e social que vai crescer muito porque a qualidade de vida piora, o preço das coisas fica maior e o racismo ambiental mais acentuado. Esse termo tem sido muito utilizado na educação ambiental porque as populações mais vulneráveis são as que mais vão sofrer as consequências disso tudo. Os mais jovens herdarão todo esse problema. 

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