Uma vida sem plástico
Veterinária e pesquisadora defende que o problema do lixo não está apenas no descarte, mas na lógica econômica que transforma a natureza em mercadoria
Lixo não precisa ser algo sujo”, explica Magda Maria Guilhermino. Veterinária, socioambientalista, doutora e professora titular em Ciências Agrárias, Magda costuma dizer que seu envolvimento com a sustentabilidade começou cedo. “Eu nasci preocupada com o descaso da humanidade com a nossa casa comum”, diz.
Foi dessa inquietação que nasceu, em 2019, o projeto “Terra sem Plástico”. A iniciativa atua com educação cidadã, divulgação sobre consumo consciente e orientação prática sobre destinação correta de resíduos, mas Magda insiste que o coração do problema não é apenas o descarte incorreto. É o consumo irracional estimulado por grandes corporações, aliado à ausência de responsabilização das empresas na logística reversa, que deveria sustentar uma economia circular.
“O erro está na premissa. A humanidade age como se a Terra existisse para servir. Como se rios, árvores e oceanos só pudessem justificar sua existência caso gerassem lucro. É muita prepotência nossa acharmos que valemos mais que tudo aquilo que foi criado”, explica.
No contato com a população, ela identifica camadas de resistência. Há quem não entenda o impacto do próprio consumo. Há quem compreenda, mas não se sinta responsável. Há os negacionistas. Há o “greenwashing”, quando empresas adotam um discurso sustentável enquanto mantêm práticas inalteradas. Há produtores que resistem a mudar processos porque isso afetaria o lucro. E há governos que, segundo ela, curvam-se aos interesses corporativos e deixam de implementar políticas públicas urgentes diante do “caos humanitário causado pelo plástico”.
Ainda assim, Magda começa pelo básico. “A primeira coisa que a gente precisa fazer é transformar a separação em rotina. No começo parece complexo, mas depois você não consegue mais viver sem separar”, ensina.
A lógica doméstica é simples. Separar resíduos secos e resíduos úmidos. Secos são as embalagens recicláveis. Úmidos são restos de alimento, cascas, borra de café que deveriam ir para compostagem. Ela faz um alerta pouco difundido, mas essencial. “Reciclável precisa estar limpo, mas não lavado. Não precisa gastar água. Basta retirar os restos de alimento. A contaminação inviabiliza a reciclagem”, instrui.
A separação é apenas parte da equação. O ideal, segundo ela, é evitar o plástico sempre que possível. Garrafas PET transparentes têm mais chance de reciclagem do que as coloridas, mas ainda assim não retornam como garrafa. “Uma PET nunca volta a ser PET. Ela vira balde, barbante. E mesmo assim só até certo ponto”, explica Magda. O máximo de material reciclado numa nova garrafa gira em torno de 30%.
Plástico filme, por ser leve demais, quase nunca compensa logisticamente. Garrafa long neck, embora teoricamente reciclável, raramente encontra estrutura adequada para reaproveitamento. Sacolas plásticas dependem de volume e peso para viabilizar o transporte. “O ideal é não usar plástico”, declara, categórica.
A professora é didática ao listar o que pode e o que não pode ser reciclado, mas faz questão de frisar que reciclagem não é solução mágica. Vidros, embora recicláveis, muitas vezes não encontram logística. Cerâmica não é reciclada. Copos descartáveis, talheres plásticos, fraldas, absorventes, papel higiênico usado não têm reaproveitamento viável. Resíduos perigosos, lâmpadas, pilhas, eletrônicos e remédios vencidos precisam ser levados a pontos específicos.
Magda cobra políticas públicas para resíduos orgânicos, logística estruturada e responsabilização corporativa, mas reforça que a mudança começa dentro de casa. “Devagar a gente pega o hábito. E depois não consegue mais viver sem separar”, comenta.
Questionada se consegue praticar todos os hábitos que propaga e ensina, ela puxa uma sacola só com isopor que vai levar para reciclagem e diz querer fazer ainda mais.