Questão de acreditar
“O impresso sempre foi o que mais pautou todos os outros veículos”, acredita Eduardo

Questão de acreditar

Um dos sócios do jornal Tribuna Ribeirão, Eduardo Ferrari conta como tem sido possível manter um diário impresso local por 30 anos, enquanto outros – alguns centenários – fechavam

De um certo ponto de vista, o jornalista Eduardo Ferrari Batista de Santana pode ser considerado um precoce: formou-se em Jornalismo pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), em 1990, e apenas cinco anos depois era dono de um jornal impresso, com outros dois sócios. Em um tempo de internet ainda discada, o Tribuna Ribeirão começou semanal, com coragem para encarar a concorrência dos já estabelecidos O Diário, A Cidade – à época a caminho de se tornarem centenários –, Folha Nordeste (braço regional da Folha de S. Paulo), Verdade e Enfim (também semanários). Ao longo dos últimos 30 anos, o crescimento do jornalismo online e das redes sociais foi minando a receita dos demais impressos, mas o Tribuna cresceu em tiragem, adquiriu gráfica, virou diário e hoje permanece como único jornal local em papel da cidade.


Nascido em Taubaté (SP), Ferrari chegou a Ribeirão Preto em 1987, para estudar e trabalhar, e não saiu mais. Hoje, aos 57 anos, divorciado e pai de uma jovem de 25, ele mostra, na entrevista a seguir, que manter um veículo impresso circulando, contra todas as dificuldades inerentes, tem muito de “acreditar” na importância dessa modalidade de jornalismo.

 

O que você fazia profissionalmente até fundar o jornal Tribuna?

 

Em menos de 30 dias que eu estava em Ribeirão Preto, já estava trabalhando. Fui office boy, motorista de ambulância, mas comecei na profissão de jornalista antes de me formar. Fui “foca” (iniciante) de jornalismo no jornal “O Diário”, no começo de 1990. Depois, trabalhei como assessor e fui sócio, em 1993, de uma empresa de assessoria de imprensa, da qual nasceu o jornal Tribuna Ribeirão, em 1995, tendo como sócios o também jornalista José Fernando Chiavenato e o empresário Francisco Jorge Rosa Filho, da Rede Ideal – meu sócio no jornal até hoje.

 

Conte a história de como surgiu a ideia de criá-lo e como se concretizou.

 

Eu intermediei a venda de uma empresa chamada LARP (Lista do Automóvel de Ribeirão Preto) para o Francisco Rosa. Na época, era um serviço local, parecido com o que a Bolsa do Automóvel fazia em âmbito nacional. A empresa cadastrava veículos nas garagens associadas e distribuía uma lista comum entre todos os sócios, aos sábados. Os sócios tinham os cadastros uns dos outros e faziam negócios entre si, além de terem uma referência de preços do mercado. Vale lembrar que isso foi antes de existir tabela Fipe e os sites de venda de veículos, tão comuns hoje. Daí veio a ideia: uma empresa de dois jornalistas associada a uma empresa com um “Classificados”. Era a receita perfeita para um jornal!


O Tribuna começou com que tiragem e qual é a atual?

 

O Tribuna Ribeirão começou semanário, com uma tiragem de 5.000 exemplares e circulando apenas em Ribeirão. Em maio de 2002, passou a circular diariamente (terça a domingo), de forma ininterrupta, e segue até os dias de hoje. Atualmente, circula em mais nove cidades da região, com tiragem de 16 mil exemplares.

 

Sua ideia original sempre foi um veículo impresso?

 

Eu sempre gostei do impresso, desde a faculdade. Fiz as matérias de Rádio e TV para cumprir tabela. Eu li muito durante o período da faculdade, sobre jornalismo, política, religião, filosofia, principalmente nos dois primeiros anos. Não achava que ia fundar um jornal. Eu queria ter ido para o exterior, morado em países diferentes, principalmente na Europa, para aprender línguas, algo de que gosto muito. Mas o trabalho foi me envolvendo e, depois que abri a empresa, acabei fincando raízes por aqui mesmo.

 

 

Você chegou a enfrentar descrédito quando decidiu fundar o jornal?

 

Claro! Quando fundamos o Tribuna Ribeirão, o jornal A Cidade já tinha mais de 90 anos, e O Diário quase 25. Existia um caderno forte da Folha de S. Paulo, que era o Folha Nordeste – depois veio a ser Folha Ribeirão. Já tinha o Verdade, do Wilson Toni, fundado em 1991; o Enfim, do saudoso professor José Mário de Sousa, que era semanal também. Era uma guerra! Cheguei a ouvir que um deles (proprietário de outro jornal) teria falado que o Tribuna não duraria três meses. Na época, fiquei meio chateado, mas depois compreendi. Foi uma iniciativa meio de aventura mesmo! Sempre foi um segmento difícil. Um gerente de banco me confidenciou, uma vez, que havia uma instrução interna contra editoras. Tinha muito picareta no mercado, gente que fazia aqueles guias comerciais e dava “tombo legal na praça”. Eu acredito que o que nos sustentou foi o diferencial de um jornalismo de verdade, de uma forma diferente do que se estava fazendo até então. Grandes entrevistas e entrevistados de fora de Ribeirão Preto: fizemos com o Roberto Cabrini, logo depois dele ter encontrado o PC Farias na Tailândia; com o Maguila, depois da perda do título mais importante que disputou; com a Valéria Zopello, ‘viúva’ do Dinho, do Mamonas Assassinas; com a Nilza Monteiro, de Jardinópolis, que foi capa da Playboy... E no campo local, partimos para o jornalismo investigativo. Fomos os primeiros a alardear que a famosa música “Florentina”, do Tiririca, podia ser plágio da canção “Catarina”, do grupo Trio Mineiro, dos anos 1960. Cobrimos, contra tudo e todos, os escândalos envolvendo o ginecologista Vanderson Bullamah, que passou a fazer cirurgias plásticas e contabilizou três mortes até ter o registro cassado; e também a denúncia dos Jetons na Câmara, assim como os supersalários. Focamos na cobertura política. Creio que simplesmente fazendo jornalismo, fizemos diferente.

 

Além disso, quais foram as maiores dificuldades?

 

Sofremos muito, enquanto não tínhamos nossa gráfica – foram quase dois anos imprimindo o jornal com terceiros – e com a parte comercial. Dos três pilares do jornal impresso (jornalismo, comercial e distribuição), dois deles estavam resolvidos, mas o Comercial foi onde tive que me reinventar e com apenas cinco anos de formado. Fui para a área comercial desde o início. O relacionamento que já tinha com a área empresarial ajudou, mas, mesmo assim, foi e é muito difícil.

 

Houve algum período em que achou que o jornal não ia continuar?

 

Vários [risos]. O ano de 1997 foi um desses. Um dos sócios saiu e ficamos em uma encruzilhada. Aí pesou a experiência e o bolso do sócio Francisco, empresário. Compramos uma máquina e, além de imprimir o Tribuna, passamos a fazer serviços para terceiros. Nessa épocam pesou positivamente também o apoio de outro amigo do ramo gráfico, o Vanderlei Silveira, que ajudou com sua experiência e apoio prático com sua gráfica à época, a Graficor. Permanecemos com a gráfica também comercial até meados de 2002, quando um novo aporte financeiro nos permitiu finalmente passar a circulação para diária.

 

 

E hoje, quais são?

 

As mesmas de sempre, mas a realidade é outra. Hoje o Tribuna é o único jornal diário impresso local. Sozinho, claro, é um pouco menos traumático, mas se tivesse concorrência de qualquer outro, de forma direta, os dois estariam mortos. Não cabe mais! Para você ter uma ideia, o jornal A Cidade ficou sete anos sem reajustar o preço de capa nas bancas. A gente tinha com eles um parâmetro, claro, mas chegou um momento em que eu tive que reajustar o preço do Tribuna e pronto. Mesmo assim, para manter o jornal diariamente, parti para a área de eventos, além das edições especiais. Fizemos o Top Of Mind Tribuna & Recall por 17 anos – sou sócio do Prêmio Recall desde a 6ª edição (estamos na 25ª); criamos a Meia Maratona junto com o Fabiano Ribeiro, que está na sua 13ª edição; e sou sócio de uma empresa de eventos que realiza os seus próprios e atende a terceiros. São dias sem rotina e com muito trabalho, pode ter certeza. Faço dinheiro fora para trazer para o jornal, mas o jornal nos dá um grande suporte para os eventos. 

 

 

O noticiário online e as redes sociais impactam a circulação do Tribuna em qual medida?

 

Impactaram na medida em que também nos forçaram a ir para o mundo digital. Hoje temos nosso portal, com atualização diária e constante. Temos um núcleo para isso, inclusive com vários jornalistas e pessoas de outras áreas envolvidas. Temos nossas redes sociais num crescendo real e orgânico, sem números extravagantes ou comprados, e estamos fazendo dos mercados uma interação. Se, por um lado, perdemos assinantes que querem notícia “de graça” da internet; por outro, ganhamos os assinantes de outros jornais. O jornalismo que tem mais importância para o cidadão é o local, então está acabando aquela situação de grandes jornais com circulação nacional, etc., principalmente impressos. E o nosso jornalismo é 90% local. E eu posso te dizer: a gente só perde assinante para o obituário.

 

 

Também chegou a acreditar, em algum momento, que o impresso estava com os dias contados?

 

Quando fundamos o Tribuna, eu passei a frequentar encontros e congressos que discutiam o meio jornal. Na década de 1990, já se falava em conquistar o leitor jovem. Eu, honestamente, nunca acreditei nisso. O leitor é que precisa ficar maduro para entender a importância do jornal. O impresso sempre foi o que mais pautou todos os outros veículos, inclusive. Os programas de rádio, normalmente, eram abertos com as notícias do dia dos jornais. Na internet, chegam para você acidentes, escândalos e notícias que os algoritmos te entregam. Só vem diferente o que tem alguém pagando, o tal do impulsionado, e é aí que mora a diferença. Você paga a assinatura de um jornal para ter notícias que passaram pelo crivo de jornalistas profissionais. No mundo virtual, quando você recebe notícias fora dos algoritmos que disponibilizaram para a rede (de forma involuntária), tem alguém pagando para você ler o que ele quer. Em suma, se você não paga para ter notícia de qualidade, alguém paga para manipular você. 

 

 

Hoje, como enxerga a posição e o mercado para o jornalismo impresso, em nossa região e no mundo?

 

O forte, como já disse, é o local. Não vejo possibilidades para investimentos no impresso como futuro. Mas quem está, ficará por alguns bons anos ainda fazendo essa interação (não simplesmente conversão) com o digital. O livro papel está aí para provar isso. No cenário econômico, entendo que o Brasil foi muito afoito em acabar com revistas e muitos jornais impressos. Na Europa e nos Estados Unidos, os jornais e revistas impressos se mantêm fortes como hábito para as pessoas.

 

Tem planos de futuro para o jornal?

 

Para marcar os 30 anos do jornal, criamos o podcast Tribuna Ribeirão. Vamos investir nas entrevistas que vão para o mundo digital, por meio da plataforma do YouTube, e também vão para as redes sociais e edições de domingo do jornal impresso, ou seja, vamos inverter o jogo: a base vai ser o digital, para depois ir para o impresso. Tem muita gente da nossa região com histórias interessantes para contar. Tem muita gente fazendo o presente também. Esse é o nosso foco! 

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