Ciência aplicada ao bem-estar
“Cuidado pessoal relevante”: assim especialistas vêm definindo e justificando a procura cada vez maior pela harmonização orofacial
O equilíbrio entre saúde bucal, estética facial e bem-estar é o novo padrão da odontologia contemporânea. Profissionais que dominam tanto a implantodontia quanto a harmonização orofacial conseguem oferecer tratamentos integrados, respeitando anatomia, função e identidade do paciente. Mais do que mudar rostos, para eles, trata-se de transformar vidas, promovendo confiança, harmonia e saúde a partir do sorriso como algo além da estética.
Professora Doutora do Departamento de Odontologia Restauradora da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (FORP-USP), Alice Corrêa Silva Sousa diz que, no mundo atual, onde é comum as pessoas viverem diante de telas e câmeras, experimentando uma nova forma de se relacionar e comunicar, a imagem se tornou parte da linguagem.
Neste cenário, tem crescido a procura por procedimentos de harmonização orofacial (HOF), que, para além do sorriso, atuam também na estrutura da face, na autoestima e na qualidade de vida. Uma mudança comportamental que tira a estética facial da lista de desejos por vaidade, colocando-a como uma abordagem mais ampla de bem-estar e saúde.
“Naturalmente, a estética ganhou outro significado. Não é apenas uma questão de vaidade, mas também de identidade, de autoestima e de bem-estar emocional. Neste contexto, em que a face se tornou o cartão de visitas imediato, a Harmonização Orofacial (HOF) surge como uma área de grande apelo”, afirma Alice.
Reconhecida como especialidade odontológica pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO) em 2019, via Resolução nº 198/2019, a HOF ampliou o campo de atuação do cirurgião-dentista. Desde então, o número de profissionais habilitados no Brasil saltou de 908, em 2021, para 4.012, em janeiro de 2025, demonstrando o crescimento acelerado do setor. Já é a área da odontologia com maior crescimento — 50% — contabilizando o período entre dezembro de 2023, quando eram 2.675 profissionais, até hoje. A comparação do mesmo período mostra crescimento modesto de outras modalidades, como ortodontia (3,9%), endodontia (4,8%) e implantodontia (7%).
FORMAÇÃO RIGOROSA
Segundo Alice, a Odontologia sempre cuidou do paciente de forma integral, e a HOF se integrou a essa filosofia. “É uma área que exige o rigor da ciência e, ao mesmo tempo, empatia, porque não se trata apenas de corrigir proporções, mas de entender histórias e expectativas. A especialidade requer domínio técnico da anatomia facial, conhecimento dos materiais utilizados na área, atualização contínua e responsabilidade ética em cada decisão clínica”, enfatiza a professora.
A responsabilidade do especialista em HOF, alerta Alice, é garantir que cada intervenção resulte em beleza, acima de tudo natural, saudável e coerente com a história de vida do paciente. “Vivemos um momento em que os pacientes chegam mais informados, com referências estéticas e opiniões formadas. Isso é positivo, mas também desafia o dentista a assumir um papel de educador e orientador, ajudando o paciente a compreender o que é possível, seguro e adequado a cada caso”, destaca.
Daí a importância de a formação em Odontologia se atualizar, para responder com responsabilidade às novas demandas do mercado. A FORP-USP incluiu a disciplina ‘Noções de Harmonização Orofacial, Odontologia do Trabalho e do Esporte’ em sua proposta curricular, para proporcionar ao futuro cirurgião-dentista compreensão do potencial e dos limites legais da HOF, bem como de outras especialidades emergentes. Atenta à especialidade, a Associação Odontológica de Ribeirão Preto (AORP) — também um centro de aperfeiçoamento profissional — oferece um curso chancelado pelo CFO. “Priorizamos o aprendizado com a seriedade do ensino e o treinamento adequado para capacitar o dentista a exercer essa especialidade com técnica e responsabilidade”, ressalta Alexandre Cividane Brandão, presidente da AORP.
PARA ALÉM DA VAIDADE
Nos últimos anos, muitos profissionais da odontologia também encontraram na HOF uma nova forma de expressar seu conhecimento e ampliar suas possibilidades de atuação. Como uma especialidade recente na Odontologia, a HOF tem atraído muito a atenção dos dentistas, principalmente os recém-formados, que a veem como um nicho interessante de trabalho, que mexe com a autoestima e a aparência dos pacientes. Por isso, são cada vez mais comuns as adequações de consultórios para oferecer a prática.
“Alguns se encantaram tanto pela área que decidiram se dedicar exclusivamente à HOF, aprofundando-se em técnicas estéticas e regenerativas. Já outros integram a harmonização ao seu dia a dia clínico, associando-a aos tratamentos odontológicos tradicionais — como reabilitações, ortodontia e estética do sorriso — para oferecer resultados mais harmônicos e personalizados”, avalia Adriana Facchini Barrico Costa, diretora de Comunicação da AORP.
Essa diversidade de caminhos mostra como a odontologia evoluiu, abrindo espaço para que cada profissional encontre seu próprio estilo de atuação, sem perder a essência do cuidado com o paciente e o compromisso com a saúde facial e oral, pontua a dentista. “Eu mesma dentro da rotina clínica do meu consultório consigo atuar de forma integrativa buscando a excelência nos resultados para meus pacientes”, diz.
Outra dentista, Renata Cristina Plaça, implantodontista e especialista em harmonização, diz que a integração da HOF à odontologia tradicional não representa competição, mas sim complementaridade. “Sou dentista raiz. Trato de dentes, reabilito com implantes e próteses, mas a harmonização orofacial veio somar à odontologia tradicional. Podemos compensar perdas esqueléticas causadas pelo envelhecimento ou pela perda dentária. Um simples botox pode ter função terapêutica, ajudando pacientes com bruxismo, blefaroespasmo ou enxaqueca, melhorando não só a estética, mas a qualidade de vida”, explica.
Para ela, as pessoas estão cuidando mais de sua aparência e saúde de um modo geral e a odontologia é um reflexo. “Os pacientes hoje em dia preferem o bem-estar, ter seus dentes sadios, gengivas sadias, reabilitando quando necessário, através de implantes e próteses. Na minha opinião, a odontologia tradicional e a harmonização orofacial devem caminhar juntas”, enfatiza.
Manter o equilíbrio entre saúde bucal e estética facial é uma das questões mais complexas, segundo Ronaldo Silva, especialista em implantes e reabilitação oral. Ele reforça que a HOF exige preparo técnico e senso ético. “Não migrei para a área, mas me especializei para poder indicar e acompanhar corretamente os casos. A odontologia ganhou muito com essa especialidade. Podemos atuar tanto na parte oral quanto na facial, garantindo que o paciente receba um tratamento completo, seguro e natural”, argumenta.
Para os especialistas, os resultados vão além do visual. A harmonização pode redefinir contornos, suavizar rugas e recuperar volume perdido, impactando na percepção social e psicológica do paciente. “Não creio que seja vaidade. É cuidado pessoal relevante. Assim como alguém escolhe uma roupa bonita ou cuida do cabelo, os procedimentos de HOF promovem contentamento, autoestima e equilíbrio no convívio social”, acrescenta Ronaldo Silva, enfatizando que as transformações nos pacientes são grandes. “Tanto na estrutura facial, na estética facial como na qualidade da pele e na luminosidade da face. Há um grau de contentamento e autoestima melhorados por parte do paciente, e isso com pequenos procedimentos, numa construção dentro do planejamento diagnóstico dele de rejuvenescimento facial”, complementa.
ODONTOLOGIA INTEGRADA
Estudos recentes indicam que a perda óssea média em adultos entre 40 e 60 anos de idade pode variar entre 1 e 3 milímetros por ano em regiões específicas, influenciando diretamente na estética facial. Alterações na maxila, mandíbula e dentes afetam diretamente os tecidos moles da face. Com o tempo, mudanças dento-esqueléticas naturais — como perda óssea, retração de gengivas e desgaste dentário – contribuem para flacidez, sulcos e diminuição do suporte labial. Além disso, a estética facial depende de fatores intrínsecos e extrínsecos: genética, metabolismo, hábitos de vida, alimentação, exposição solar, sono, tabagismo e álcool influenciam diretamente na qualidade da pele.
Por isso, os profissionais dizem que ter um rosto harmonizado exige planejamento personalizado, que respeite limites anatômicos e proporções naturais. “Temos que tratar cada paciente de forma única. Nem sempre o que é tendência estética vai funcionar para o perfil facial de alguém. O planejamento é individual e o respeito à anatomia é fundamental”, explica Renata Plaça.
“Mesmo com a dentição intacta, o osso maxilar tende a perder projeção, especialmente na região periorbital. O envelhecimento do esqueleto exacerba a flacidez dos tecidos moles. Na mandíbula, o apinhamento dos dentes anteriores pode reduzir a dimensão vertical e a sustentação dos lábios, alterando a harmonia do sorriso”, detalha a cirurgiã-dentista Sílvia Helena Uzun, que atua na odontologia desde 1991 e dedica-se à HOF desde 2014.
Segudo ela, apoiando-se em bases anatômicas e funcionais sólidas, a harmonização orofacial, combinada à implantodontia, oferece resultados que vão além da estética. Os implantes preservam a estrutura óssea, sustentam tecidos faciais e restauram simetria, enquanto procedimentos como toxina botulínica, preenchimento com ácido hialurônico e fios de sustentação refinam contornos e suavizam imperfeições.
“É fascinante perceber como pequenas intervenções minimamente invasivas podem gerar mudanças significativas no equilíbrio da face. A ciência por trás da harmonização vai além da estética: é fisiologia, é anatomia, é ciência aplicada ao bem-estar”, observa Ronaldo Silva.
HARMONIZAÇÃO RESPONSÁVEL
Sílvia Uzun diz que mais do que injetar produtos, a harmonização orofacial é um processo de transformação sutil da estrutura e das expressões, com profundo respeito à individualidade de cada paciente. “Cada rosto traz uma história, uma anatomia e um modo único de expressar emoções. Nosso papel é realçar o que já é belo, sem descaracterizar”, afirma a cirurgiã-dentista.
A especialista explica que o conhecimento da neuroplasticidade permite ao profissional ajustar os tratamentos de forma mais precisa, reeducando músculos faciais e mantendo o equilíbrio entre relaxamento e tensão muscular. “A perda dentária traz consequências funcionais e estéticas que afetam toda a estrutura facial. O implante atua na base do problema, devolvendo sustentação óssea e equilíbrio, enquanto a harmonização otimiza os resultados, refinando contornos e melhorando a expressão.” Não se trata, portanto, apenas de preencher rugas, mas de entender a dinâmica muscular e neural que dá forma ao rosto. “É ciência, é percepção e é cuidado”, afirma Silvia.
O campo da harmonização está em constante evolução — novos produtos, técnicas e descobertas sobre fisiologia e neurofisiologia ampliam as possibilidades, mas também exigem maior responsabilidade. “O importante é saber evitar complicações e, se necessário, saber corrigi-las. É uma área que exige preparo técnico e serenidade emocional”, observa Sílvia.
Para a cirurgiã-dentista, a HOF e a implantodontia são áreas complementares, contudo, a odontologia tradicional deve permanecer como prioridade. “O tratamento odontológico é essencial para todas as pessoas — é questão de saúde, conforto e bem-estar. A harmonização vem como um passo a mais, para cuidar da qualidade da pele e da expressão, mas sempre com responsabilidade e equilíbrio”, acrescenta a profissional.
Ela defende uma visão integrativa da estética facial. “A filosofia da Saúde Integrativa é ideal para definirmos indicações corretas. Tudo deve ser feito com harmonia, respeitando o corpo e o tempo de cada um.” E alerta: “Temos a capacidade de mudar completamente uma face. Exatamente por isso precisamos de muito cuidado, ética e discernimento”, finaliza.